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EUA 2020: o ano das vidas que importam

Crise com o Irão, disputas com a China, movimento Black Lives Matter e presidenciais. 2020 foi um ano que mudou a vida política norte-americana. Um balanço sem covid. Artigo de Carlos Carujo.
Manifestantes em Los Angeles. Foto de ETIENNE LAURENT/EPA/Lusa.
Manifestantes em Los Angeles. Foto de ETIENNE LAURENT/EPA/Lusa.

Janeiro: Irão, Soleimani

Na passagem de 2019 para 2020, a tensão entre Irão e EUA estava ao rubro. O ano anterior terminara com um ataque não reivindicado a uma base militar no Iraque que vitimou um cidadão norte-americano sub-contratado pelas forças militares dos EUA. Estas responsabilizaram as milícias Hachd al-Chaabi, pró-iranianas, e contra-atacaram, causando 25 mortos e 51 feridos.

O último dia de 2019 trouxe uma surpresa: na sequência das cerimónias fúnebres, manifestantes iraquianos passaram as defesas da altamente guardada “zona verde”, cercaram a embaixada dos EUA, invadiram algumas áreas, como a receção, o pessoal diplomático teve de ser evacuado, foram queimadas bandeiras, lançadas pedras, partidas janelas e derrubadas câmaras de vigilância.

Uma “humilhação” vingada novamente com sangue: Trump mandou assassinar o general Qassem Soleimani, identificado como o cérebro por detrás das operações militares mais importantes do Irão, através de um ataque por um drone militar. O regime de Teerão considerou esta ação como terrorismo e o governo iraquiano disse que foi uma agressão contra o seu país e uma violação dos acordos que permitem a estadia de tropas dos EUA no Iraque. O parlamento iraquiano aprovou inclusive, dias mais tarde, a exigência da expulsão das tropas dos Estados Unidos no país.


Manifestantes ostentam a placa de entrada da Embaixada dos EUA no Iraque. Janeiro de 2020. Foto de LUSA/EPA/AHMED JALIL

O funeral de Soleimani tornou-se numa enorme manifestação anti-americana, primeiro no Iraque e depois no Irão. Enquanto isso, milhares de pessoas também saíam às ruas nos Estados Unidos contra a possibilidade de uma guerra. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos voltavam a atacar com drones membros da milícia Forças de Mobilização Popular do Iraque, provocando a morte de mais seis pessoas e ferimentos graves noutras três. E Trump ameaçava atacar uma lista de 52 locais “de muito alto nível” no Irão, uma ação que simbolizaria os 52 cidadãos dos EUA que, no final de 1979 e durante 444 dias, foram mantidos reféns por um grupo de manifestantes que assaltaram a embaixada deste país em Teerão. A própria UNESCO, a organização da ONU para a cultura, fez questão de responder a esta ameaça. que incluía a destruição de património da humanidade, lembrando que este está protegido por acordos internacionais.

Do lado iraniano, também se prometia vingar a morte de Soleimani. As promessas de uma ação terrível concretizaram-se contudo com um ataque simbólico: à mesma hora que Trump tinha assassinado Soleimani, as forças militares do Irão lançaram cerca de duas dezenas de mísseis contra duas bases que tinham presença militar norte-americana sem causar vítimas. Para consumo interno, a Guarda Revolucionária anunciou que “80 militares terroristas americanos foram mortos e cerca de 200 outros foram feridos.” Para consumo externo, o governo disse que não tinha sido um ato de guerra mas de auto-defesa, assegurando que não se pretendia fazer escalar o conflito.

Este desescalar da tensão foi correspondido. Os EUA responderam a este ataque apenas com o anúncio de sanções económicas. O anterior discurso bélico de Trump parecia ter sido açaimado. Mas a oito de janeiro, um outro episódio voltou a trazer incerteza ao conflito: a queda de um avião civil ucraniano em Teerão vitimou os seus 176 ocupantes. Apesar de tudo, as reações foram prudentes. E, três dias depois, o presidente iraniano assumiu um “erro imperdoável” dos seus militares.

Poucos dias a seguir, ninguém do governo norte-americano falou em “erro” e muito menos em “imperdoável” . Só que, depois de ter justificado o assassinato de Soleimani com a “ameaça iminente” que este representaria, Mark Esper, Secretário de Defesa dos EUA veio admitir que afinal não havia quaisquer provas que o general iraniano estivesse a preparar ataques contra embaixadas dos EUA, ao contrário do que fora afirmado pelo Presidente e pelo Departamento de Estado.

O janeiro americano também foi marcado por outros acontecimentos. A quarta edição da marcha das mulheres exigiu a destituição de Trump. E este escolheu ser a estrela da “marcha pela vida”, um evento anual que exige a criminalização do aborto, facto inédito para um presidente norte-americano.

No Illinois, o ano começou com filas à porta dos dispensários de canábis. Desde o primeiro dia do ano a substância passou a poder ser comprada legalmente neste estado para fins recreativos.

Simbolicamente, o mês acabou com a queda de uma secção do muro mandado erguer por Trump e na fronteira com o México e que este considerara “impenetrável”.

Fevereiro: Destituição, Bernie


Foto publicada na página de Bernie Sanders no Facebook.

Fevereiro foi o mês em que o processo de destituição de Trump, iniciado em dezembro do ano anterior, recebeu o golpe fatal com o voto contrário do Senado. Lançado pelos Democratas sob as acusações de abuso de poder, devido à pressão sobre a Ucrânia para investigar o filho de Joe Biden, e obstrução ao Congresso, este desenlace era mais que esperado. Ocupou parte importante da política interna do país durante meses mas não se pode dizer que tenha causado grande mossa na imagem do presidente.

Cerca de duas semanas depois de terminado o processo de destituição, Trump decidiu comutar a pena de vários criminosos condenados por fraude e corrupção, pertencentes à elite económica e política do país. Da lista faziam parte dadores de campanhas republicanas, um amigo do seu advogado, um comentador habitual da Fox News, entre outros famosos.

Neste mês, a campanha do Senador do Vermont, Bernie Sanders, para a nomeação a candidato presidencial democrata continuava o seu caminho, alimentando as esperanças da esquerda do partido. Sanders ganhava o Iowa, onde um desconhecido Pete Buttigieg parecia brilhar ao disputar cerradamente o primeiro lugar. Joe Biden surgia então apenas como o quarto mais votado atrás de Elizabeth Warren. Depois disso, Bernie vencia ainda facilmente Nevada e New Hampshire e parecia até ameaçar o bastião de Biden na Carolina do Sul.

Março: Afeganistão, Chelsea Manning


Chelsea Manning tentou suicidar-se a 11 de março

Estas vitórias precederam o teste decisivo da chamada “super tuesday”, o dia em que 15 estados votariam para eleger cerca de 1300 delegados, um terço do total da convenção democrata. Biden afirma-se como o candidato preferido do establishement do partido, venceu Virgínia, Tennessee, Minnesota, Arkansas, Alabama, Carolina do Norte e Oklahoma, Massachussets e Texas, beneficiando da desistência de outros três candidatos. Sanders mantinha-se na corrida vencendo Vermont, Colorado, Utah e a Califórnia.

Pouco depois de assinado um acordo de paz em que os EUA se comprometiam a retirar as suas forças armadas do Afeganistão, e enquanto continuava apesar disso a guerra, o Tribunal Criminal Internacional decidia investigar as várias partes envolvidas (tropas norte-americanas, forças governamentais e talibãs) por crimes contra a humanidade.

No Iraque, os ataques e retaliações entre o exército norte-americano e as milícias pró-iranianas continuaram. Dia onze, foram lançados rockets contra a base militar de Camp Taji, vitimando dois soldados americanos e um britânico e fazendo 14 feridos. Os EUA voltaram a culpar as milícias pró-iranianas e atacaram o que disseram ser cinco depósitos de armas daquele grupo causando seis vítimas mortais, entre os quais dois polícias e um civil. A versão do governo do Iraque foi que os lugares atacados foram bases militares suas na província de Babil, um aeroporto em construção em Karbala e uma sede do grupo pró-iraniano Mobilização Popular.

No mesmo dia, Chelsea Manning, a denunciante do caso Wikileaks, tentou suicidar-se na cela da cadeia de Alexandria, Virgínia, onde estava detida há um ano. Tinha estado presa sete anos e fora amnistiada por Obama no final do seu mandato, mas regressara à prisão em 2019 depois de se ter recusado a testemunhar contra a Wikileaks perante um grande júri federal. O relator especial da ONU, Nils Melzer, no final desse ano, considerara-a vítima de tortura por parte dos Estados Unidos: a situação estava a desencadear “sintomas pós-traumáticos e outras consequências graves para a saúde mental e física”, afirmava.

Abril: Primárias, Biden


Foto colocado no Twitter de Alexandria Ocasio-Cortez a agradecer a campanha de Sanders.

Abril foi o mês em que Bernie Sanders deixou a corrida presidencial, considerando a vitória “praticamente impossível” e afirmando que “a campanha acaba, a luta pela justiça continua”.

Do seu ponto de vista, mais do que uma campanha eleitoral ficou “um movimento de base, multirracial e multigeracional, que sempre acreditou que a mudança real nunca vem de cima para baixo, mas sempre de baixo para cima. Enfrentamos Wall Street, as seguradoras, as farmacêuticas, a indústria de combustíveis fósseis, o complexo industrial militar, o complexo industrial prisional e a ganância de toda a elite corporativa. Essa luta continua”.

Joe Biden assegurava assim a nomeação como candidato democrata à presidência da República.

Maio: Minneapolis, George Floyd


George Floyd

Em maio faleceu Larry Kramer, dramaturgo e histórico militante LGBT, fundador da Gay Men’s Health Crisis, em 1981, a primeira organização comunitária de apoio às pessoas infetadas pelo VIH e SIDA, da qual depois se afastou por considerar o seu trabalho insuficiente e “cobarde” devido à ausência de denúncia da inação das autoridades políticas e de saúde no combate ao VIH. Funda a seguir a Act Up, coletivo que organiza protestos públicos e foi fundamental para tornar visível o rosto das pessoas doentes com SIDA.

E o final do mês de maio mudou a política norte-americana. George Floyd, um cidadão afro-americano de 40 anos, foi morto pela polícia em Minneapolis. A intervenção policial brutal, na sequência deste ter, alegadamente, utilizado uma nota falsa de 20 dólares numa mercearia, foi filmada e colocada nas redes sociais. “Não consigo respirar” e “por favor, não me matem” foram as suas últimas palavras que enfrentaram a indiferença dos assassinos.

Mas havia um país que já não conseguia ficar indiferente, um país que não conseguia respirar e que se revoltou, cidade após cidade, contra a cultura de abusos policiais sistemáticos e contra o racismo. O movimento Black Lives Matter, que começara em 2013 como uma hashtag na sequência da absolvição de George Zimmerman no julgamento sobre a morte do adolescente Trayvon Martin e que tinha já saído às ruas no ano seguinte como consequência dos assassinatos de Michael Brown e de Eric Garner, também ele asfixiado, voltava a fazer-se ouvir. Desta vez muito mais intensamente.

Junho: Antifa, Colin Kaepernick

O que aconteceu no final de maio arrastou-se por junho. E o esquerda.net publicou um dossier de análise a este movimento. Um pouco por todo o país, multidões incontáveis enchiam as ruas em revolta. Houve muitas manifestações pacíficas e outras em que houve confrontos, a polícia lançou gás lacrimogéneo, carregou contra manifestantes, disparou tiros. Houve estradas bloqueadas, lojas e centros comerciais roubados ou atacados. Milhares de pessoas foram presas, centenas feridas e várias mortas.

No início de junho havia mais nomes para juntar à lista de vítimas mortais das intervenções policiais. Os que se tornaram mais conhecidos foram David McAtee, um dono de restaurante de 53 anos, morto por tiros da polícia e da Guarda Nacional em Louisville, no Kentucky, e Chris Beaty, ex-estrela de futebol americano da Universidade de Indianapolis de 38 anos.

Nesta mesma altura, a autópsia independente requerida pela família de George Floyd confirmava sua a causa de morte como “asfixia mecânica”, desmentindo a oficial, feita pelas autoridades locais, que somavam vários fatores como causa de morte: desde problemas de saúde anteriores como hipertensão e doença arterial coronário até ao possível consumo de drogas, o que tinha sido desmentido pela família.


Manifestação em memória de George Floyd em Washington. Junho de 2020. Foto de SHAWN THEW/EPA/Lusa.

Em meados deste mês, fora do contexto das manifestações uma nova morte despoletou a ira dos manifestantes. Rayshard Brooks, de 27 anos, adormeceu na fila de carros de um restaurante em Atlanta. A polícia foi chamada e, na intervenção policial que se seguiu, acabou morto. A presidente de Câmara assumiu que o uso de força letal não era justificado e a chefe da polícia demitiu-se.

Poucos dias antes, soubera-se do assassinato de Javier Ambler, um afro-americano de 40 anos, em Austin, no Texas, em condições semelhantes às de Floyd: desarmado, a dizer “não consigo respirar” nos seus últimos momentos e avisando mesmo que tinha problemas cardíacos. A morte ocorrera em 2019 e tinha sido filmada para um programa de televisão, o Live PD, da A&E. O canal justificou que nunca divulgou as imagens devido ao seu caráter violento e que a investigação ao crime nunca as pediu. O programa de casos de polícia acabou por ser cancelado.

O recolher obrigatório não travou os protestos. E, em diferentes cenários, os EUA ajoelhavam-se em protesto. Um gesto popularizado em 2016, quando um jogador de futebol americano, Colin Kaepernick, o fez contra o racismo durante o hino nacional. Depois disso, não voltou a ser contratado por nenhum clube. Em 2020, passou a ser um referência ao modo como Floyd morreu: foi a pressão de um joelho de um polícia que lhe esmagou o pescoço.

Trump respondeu ao brotar desta mobilização entre a promessa de aumentar a repressão, o insulto e a encenação. Ameaçou enviar tropas para as ruas, mesmo contra a vontade das autoridades locais. E decidiu dispersar uma manifestação pacífica em frente à Casa Branca para fazer uma sessão fotográfica com uma Bíblia na mão na Igreja de Saint John ali perto. Enquanto polícia carregava sobre os manifestantes, o presidente falava em “atos de “terrorismo interno”, na “destruição de vidas inocentes” e dizia que “o derramamento de sangue humano é uma ofensa contra a humanidade e um crime contra Deus”.

Ao mesmo tempo que as sondagens diziam que a maioria dos norte-americanos apoiavam o movimento, no Twitter, o presidente insultava os manifestantes de forma que era preciso todo um dicionário de calão: “lowlifes”, “hoodlums”, “thugs”, “losers”, ou seja falhados, escória, bandidos, rufias. Classificava-os ainda como “anarquistas profissionais, saqueadores, criminosos, antifa”. Com destaque para este último termo, o nome do seu novo inimigo designado. Antifa passou a ser sinónimo de “organização terrorista” no léxico presidencial. E a extrema-direita embarcou nesta histeria. Por um lado, milícias armadas patrulhavam pequenas cidades contra uma suposta “invasão antifa” que estaria a chegar. Por outro, havia grupos de extrema-direita a fazer-se passar por antifascistas nas redes sociais e apelando à violência.

O mês de junho teve outros acontecimentos para além do Black Lives Matter. Depois da aprovação da lei de segurança nacional que limitou a autonomia de Hong Kong e aumentou a repressão, os EUA anunciaram medidas para "sancionar os funcionários do governo da China envolvidos diretamente na erosão da autonomia de Hong Kong e na asfixia da liberdade" e terminando com as vantagens comerciais que o território usufruía.

Trump concretizou também outras ameaças de sanções que há muito tinha feito: quem investigue os EUA no TPI passou a ser alvo de sanções económicas e de retirada de vistos.

Internamente, um Supremo Tribunal dominado pelos conservadores tomava uma decisão historicamente progressista: por seis votos contra três, as pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgénero passaram a ser enquadradas na Lei dos Direitos Civis de 1964 que proibia a discriminação no emprego por causas sexuais.

E milhares de adolescentes, utilizadores do TikTok e fãs do K-pop, estilo musical tocado por bandas sul-coreanas, trocaram as voltas a Trump. Inscreveram-se em massa para um comício em Tulsa, no Oklahoma, que depois, obviamente, ficou meio vazio...

Julho: Portland, as mães


Grupo das "mães de Portland" à frente de uma manifestação. Julho de 2020. Foto de @jonhouse_/Twitter.

Em julho, houve uma greve pelas vidas negras. Sindicatos e movimentos de defesa da justiça racial juntaram-se numa greve contra o racismo estrutural e a desigualdade económica. Paralisações, ações simbólicas como piquetes e momentos de homenagem às vítimas de violência policial ocorreram em mais de 25 cidades. Ao meio-dia, em homenagem a George Floyd, os participantes ajoelharam-se durante oito minutos e 46, o tempo que este foi asfixiado pelo joelho de um polícia.

Neste mês, Portland foi o ponto mais importante dos protestos. O presidente norte-americano desrespeitou as autoridades locais e colocou no terreno agentes federais não identificados, que fizeram detenções sem causa provável e usaram indiscriminadamente violência.

A repressão chocou, contudo, contra um “muro de mães” que se tornou viral. Um grupo de mulheres interpunha-se entre os agentes e os manifestantes pacíficos de forma a tentar impedir a violência policial.

Também virais se tornaram as imagens de um manifestante pacífico a ser agredido à bastonada e a ser-lhe lançado gás pimenta diretamente para a cara, tendo sido depois hospitalizado com lesões graves. Para o sucesso no disseminar das imagens contribuiu o facto de ser um veterano da marinha norte-americana, o que era um golpe na tese dos “perigosos anarquistas”.

Tanto a governadora do Oregon, Kate Brown, como o presidente de Câmara de Portland, Ted Wheeler, ambos democratas, criticaram fortemente o que se estava a passar. A primeira falou numa “polícia secreta” que “rapta pessoas em veículos não identificados.” O segundo chamava-lhe o “exército pessoal de Trump” que estava no terreno “escalar profundamente a situação”.

Pressionadas pela opinião pública, as empresas donas de algumas das principais redes sociais começavam a agir contra redes de extrema-direita e teóricos da conspiração. O Boogaloo, obscuro movimento que surgiu a partir de 2012 no canal de partilha de publicações 4chan, que pretendia desencadear uma guerra civil e que começou a surgir à luz do dia em 2020, em manifestações pró-Trump e por sido acusado de vários crimes, começou a ser banido do Facebook. Também o Qanon viu muitas das suas contas serem apagadas do Twitter. Este também começou no 4chan em 2017, partilha com o Boogaloo a bizarria e também começou a emergir da internet para as manifestações de apoio ao presidente. Defende que há um governo secreto, satânico e pedófilo, que comanda o país, um misterioso Q que denuncia isto e... Trump que vem salvar o mundo.

O próprio Trump, no final do mês anterior, viu a sua conta suspensa pelo Twitch, uma plataforma de streaming em direto detida pela Amazon, por ter violado a política de “conteúdos de ódio” desta rede social. No mesmo dia o Reddit tinha fechado um fórum de apoio a Trump por os seus utilizadores promoverem discurso de ódio e mensagens racistas, homofóbicas, misóginas e teorias da conspiração. O Youtube tinha antes banido 25.000 canais supremacistas brancos muito seguidos pela extrema-direita norte-americana.

Neste mês ainda se tornou viral o discurso de Alexandria Ocasio-Cortez que falou contra o sexismo depois de ter sido assediada por um congressista.

No dia 17 de julho, falecia aos 80 anos John Lewis, um dos organizadores da Marcha Pelo Trabalho e Liberdade em Washington, momento importante do movimento pelos direitos civis nos EUA nos anos 1960. Congressista da Georgia, estava entusiasmado pelo Black Lives Matter.

Agosto: NBA, Jacob Blake


ESPN Wide World of Sports Complex vazio na sequência do boicote ao jogo. Foto de JOHN G. MABANGLO/EPA/Lusa.

A 23 de agosto, Jacob Blake escapou por pouco de ver o seu nome inscrito na lista de vítimas mortais da polícia. O homem de 29 anos foi alvejado sete vezes pela polícia, quando entrava no carro onde estavam os seus filhos menores em Kenosha, Wisconsin.

O incidente voltou a gerar manifestações e não só nesta cidade. A indignação chegou onde nunca tinha chegado. E os desportistas profissionais boicotaram jogos de futebol, basquetebol e basebol. A NBA liderou o movimento com os play-offs a pararem, obrigando a rondas de conversações entre jogadores, equipas e liga. No basquetebol feminino, o mal-estar gerado pela violência policial tinha já levado várias jogadoras, entre as quais Renee Montgomery dos Atlanta Dream, a acabar a temporada para fazer trabalho nos movimentos sociais contra as injustiças.

Durante estas manifestações, um jovem admirador das milícias, Kyle Rittenhouse, vindo de Illinois, disparou sobre manifestantes matando duas pessoas. Passado algum tempo, Trump veio em seu apoio, alegando que este tinha agido em auto-defesa.

Com as atenções voltadas para a ação policial, um ex-agente do FBI, Michael German, lançou um estudo no qual mostrava as diversas formas de infiltração dos supremacistas brancos na polícia. Intitulado, “escondidos à vista desarmada” elencava ligações em mais de uma dezena de estados e mostrava como as autoridades pouco estavam a fazem para contrariar a presença de grupos organizados de racistas nas suas fileiras.

Na política externa, a disputa com a China continuava. Desta vez, a arma de arremesso era o TikTok, a popular aplicação de divulgação de vídeos curtos. Através de uma ordem executiva, Trump decidiu proibir a empresa de operar no país, alegando estar a defender a “segurança nacional”, apesar de a Microsoft e a ByteDance, sua proprietária, estarem em negociações para a primeira adquirir a operação.

Num contexto de guerra comercial entre as potências, a questão da segurança convenceria poucos no primeiro dia do mês quando o presidente norte-americano avançou com a medida. Convenceria muito menos gente passados onze dias quando o The Intercept revelou, no âmbito dos BlueLeaks, um conjunto de documentos obtidos por hackers com ligações ao grupo Anonymous, que esta rede social partilha sistematicamente informação com as autoridades norte-americanas.

No plano interno, três mulheres destacaram-se em agosto. Cori Bush venceu as primárias democratas no Missouri. A enfermeira, ex-sem-abrigo, pastora, ativista do Black Lives Matter, era uma outsider no embate contra William Lacy Clay, visto como representante das grandes empresas e interesses instalados. Letitia James, Procuradora-geral do Estado de Nova Iorque, também se moveu contra os interesses instalados. Apresentou uma queixa no tribunal Estadual em Manhattan, contra a National Rifle Association, o poderoso lóbi pró-armas que apoia o presidente norte-americano. Os líderes desta organização estão acusados de desvio de milhões de dólares, de gastos inapropriados e de realizar contratos em nome da NRA com sócios seus. Por isso, pede-se a sua dissolução. Mas o nome que esteve mesmo em todas as bocas foi o de Kamala Harris, que se tornou a escolha de Biden para concorrer a vice-presidente. Com 55 anos e ascendência tamil-jamaicana, a ex-procuradora e então senadora tinha concorrido às primárias do partido e desaparecido de cena. Sobre ela os críticos não diziam que combatia os interesses instalados. Pelo contrário, apontavam-na com uma justicialista e defensora dos interesses dos poderosos.

Agosto foi ainda o mês no qual um dos rostos mais conhecidos da extrema-direita mundial, Steve Bannon foi detido, acusado do desvio de milhões de dólares que angariara supostamente para ajudar a construir o muro na fronteira com o México e que terão acabado por ser usados para pagar o seu “estilo de vida luxuoso”. E em que o governo autorizou a exploração de petróleo e gás no Refúgio Nacional da Vida Selvagem do Ártico, no Alasca, a maior reserva natural de preservação animal dos Estados Unidos da América.

Setembro: Supremo, Snowden


Ruth Bader Ginsburg (1933-2020) - Foto Democracy Now.

Em setembro, aos 87 anos, falecia Ruth Bader Ginsburg. Era um símbolo da luta contra a discriminação de género e pelos direitos das mulheres. Em 1993, tinha-se tornado a segunda mulher a ser eleita para o Supremo Tribunal de Justiça. A sua morte deixou uma vaga na instituição que Trump se apressou, apesar dos protestos, por preencher com um aliada sua: Amy Coney Barrett, uma católica radical, pertencendo ao grupo ultra-conservador People of Praise, que defende, entre outras coisas, a manutenção dos papéis tradicionais de género que colocam o homem como líder máximo da família. No Supremo os conservadores aumentavam assim a sua maioria e Trump esperava poder contar com ela.

No mesmo mês, o New York Times divulgou detalhes das declarações de impostos que o presidente norte-americano se tem esforçado por esconder. Ficou-se que o milionário apenas pagou 750 dólares de IRS em 2016, que em dez dos últimos quinze anos não pagou impostos e que, longe da imagem que faz passar, para efeitos de pagamento de impostos é um empresário em crise.

E já por esta altura dava sinais claros do que viria a fazer: não aceitar os resultados das eleições, tratar os votos por correspondência como uma fraude e ameaçar a transição em caso de derrota.

O mês terminou com o primeiro debate entre os dois principais candidatos à presidência. Um debate caótico, marcado pelo insulto e pelas interrupções permanentes que muitos analistas classificaram como o pior da história das campanhas presidenciais dos Estados Unidos. Trump voltou a atacar Biden por causa do seu filho, referindo a expulsão deste do exército por toxicodependência e os seus negócios na Ucrânia. E o momento alto do debate acabou por trazer à baila outro elemento da constelação da extrema-direita norte-americana: instado pelo moderador a tomar posição clara sobre os grupos mais radicais, o presidente recusou condená-los diretamente. E quando o nome dos Proud Boys foi mencionado, remata dizendo “Proud Boys, recuem e estejam a postos”. Na internet, os elementos do grupo regozijaram com esta forma de legitimação que fizeram parecer uma ordem presidencial ao seu “exército”.

Por essa altura já se tinha esquecido que o mês começara com a polémica de um presidente que se apresentava como nacionalista mas que insultara americanos mortos em combate. O The Atlantic publicou uma reportagem, corroborada por várias fontes, onde se referiam comentários de Trump de 2018, quando cancelou uma visita ao Cemitério Americano Aisne-Marne, perto de Paris, porque temia que o seu cabelo ficasse despenteado devido à chuva e não acreditava na importância de homenagear os americanos mortos na guerra. “Por que deveria ir àquele cemitério? Está cheio de perdedores”. Na mesma viagem teria dito que os mais de 1.800 fuzileiros navais que perderam a vida em Belleau Wood foram “idiotas” por terem sido mortos.

Edward Snowden foi uma das figuras de Setembro. Pela primeira vez, um tribunal dos EUA sentenciou que a recolha de dados telefónicos em massa de cidadãos norte-americanos por parte da NSA violou a lei e pode ser declarada inconstitucional. O ex-analista contratado pela Agência de Segurança Nacional tinha denunciado estas práticas e foi perseguido pela justiça do seu país, tendo-se refugiado em Moscovo. Agora corre uma campanha pelo seu indulto.

Ainda em setembro, um relatório do US Crisis Monitor concluiu que 93% das manifestações antirracistas nos EUA foram pacíficas, o que contradizia o discurso dos republicanos de que estas seriam “terrorismo”. E conhecia-se o nome de mais uma vítima negra de violência policial. Daniel Prune morreu em março, mas só passados seis meses o seu caso foi divulgado. A família chamou a polícia porque saíra à rua nu e aparentava estar com problemas mentais. Um vídeo mostram o homem a seguir as instruções policiais e algemado. Foi-lhe colocado um capuz e um dos polícias ajoelhou-se em cima dele. Implorou para ser libertado mas morreu passados dois minutos.

Depois de várias peripécias negociais com a Microsoft, o caso TikTok teve desenvolvimentos. Se num dia a notícia era a da remoção das lojas online e a proibição de disponibilizá-la em qualquer plataforma para, nas palavras de Wilbur Ross, secretário do comércio dos EUA, “combater a recolha maliciosa de dados pessoais de cidadãos norte-americanos pela China”, no dia seguinte a aplicação evitou afinal ser proibida nos EUA, tendo feito um acordo com a Oracle e a Wallmart que Trump considerou “fantástico”. Mas a telenovela estava longe ainda de chegar ao fim.

Outubro: Correspondência, Gretchen Whitmer


A governadora Gretchen Whitmer em 2019. Foto de Julia Pickett/wikimedia commons.

A contagem decrescente para as eleições presidenciais fazia-se num clima inédito. Pela primeira vez na história, um presidente ameaçava claramente não aceitar os resultados, falava em fraude ainda antes do processo se desenrolar e acicatava perigosamente os ódios nas vésperas do escrutínio.

Sinal desse clima foi o que se passou no Michigan, onde uma milícia de extrema-direita, os Wolverine Watchmen, planeou raptar a governadora, atacar edifícios do Estado e atacar elementos das forças de segurança de forma a iniciar uma guerra civil. O FBI desmontou a conspiração, considerando-a “terrorismo doméstico”. Gretchen Whitmer, a visada, criticou o presidente por não fazer o suficiente para condenar este tipo de movimentos e por “fomentar a raiva”, com uma “retórica incendiária” partilhada pelos republicanos do seu estado, que encorajou os grupos que “espalham medo, ódio e divisão”. Da intervenção de Trump no debate presidencial, “os grupos de ódio” retiraram a ideia de “uma chamada para agirem” afirmou.

Outros ecos desta tensão faziam-se sentir no Tennessee, onde os eleitores democratas receberam “cartões de visita” intimidatórios assinados pelo Ku Klux Klan a dizer que foram alvo de uma primeira “visita social” da organização mas, da próxima, haveria uma “visita de negócios”.

À intensidade do discurso da fraude por parte de Trump correspondia uma enxurrada de votos por correspondência que batiam todos os recordes de eleições anteriores. A disputa entre republicanos e democratas sobre os votos antecipados e por correspondência não se limitava porém às palavras. Iam dando entrada nos vários tribunais estaduais dezenas de processos de sentidos diversos sobre estas formas de votação, ameaçando tornar o período pós-eleitoral num caos jurídico num país em que as regras nas mesmas eleições variam de estado para estado.

Na Califórnia, por exemplo, as autoridades locais lançaram uma investigação criminal à instalação de urnas ilegais para voto antecipado por parte dos republicanos em sedes partidárias, lojas de armas, Igrejas e ginásios, completamente à margem do sistema oficial e sem garantias de segurança e confidencialidade e várias delas a fazerem-se passar por locais oficiais.

Ao mesmo tempo no Texas, a disputa era não sobre as urnas extra, mas sobre as que alegadamente faltarão. O governador Greg Abbott, republicano, limitou o número de locais de votação antecipada a um por condado, sem ter em conta a dimensão da região ou o tamanho da população. Democratas e defensores do direito de voto levaram o caso aos tribunais. Não por acaso, uma das expressões destas eleições foi “voter supression”, significando o conjunto de práticas de tentar impedir ou limitar o acesso dos eleitores às urnas.

Quase no final do mês ainda houve tempo para a entrada em cena no processo eleitoral das acusações de espionagem internacional. Numa rara conferência de imprensa conjunta, o Diretor Nacional dos Serviços de Informações, John Ratcliffe, e o director do FBI, Christopher Wray garantiam a segurança dos procedimentos eleitorais e acusavam dois países de terem recolhido dados pessoais de eleitores: Irão e Rússia.

Na verdade, o principal visado na denúncia foi o Irão e Ratcliffe, nomeado por Trump para o seu cargo, foi o principal acusador. Culpava este país por e-mails enviados para eleitores registados como democratas na Florida e Pensilvânia e que vinham assinados pelos Proud Boys. Para além disso, declarava que o objetivo destes era “prejudicar” o atual presidente, o que não agradou ao partido da oposição. Seja como for, esta operação de intimidação não foi nenhuma proeza informática realizada por hackers: as informações dos eleitores, que incluem as moradas de mail e números de telefone, estão disponíveis nas listas de registo de voto de cada estado e nelas consta a filiação partidária da pessoa.

Em outubro, as mulheres voltaram a sair à rua em mais uma das suas marchas em 400 cidades. Apelavam ao voto contra Trump e criticavam o processo de nomeação à pressa de Amy Barrett para o Supremo. Rachel O’Leary Carmona, em nome da organização, vaticinava que se a presidência deste tinha começado com a marcha das mulheres “e agora vai acabar com as mulheres a votar. Ponto final.”

Foi também o mês em que o Departamento de Justiça dos EUA acusou a Google de violar leis “anti-trust” através do monopólio ilegal de publicidade e de buscas na internet, prejudicial para consumidores e concorrentes.

Novembro: Adeus, Trump

A poucos dias das eleições presidenciais, o esquerda.net publicou um dossier dedicado a elas com artigos sobre as crises cruzadas vividas no país, o seu sistema político e eleitoral, o racismo, a análise da esquerda ao processo eleitoral.

No dia das eleições, foi tempo de recordar o centenário da campanha presidencial de Eugene V. Debs, o socialista que fez campanha a partir da prisão onde estava condenado a uma pena de dez anos por causa de um discurso contra a 1ª Guerra Mundial, e que obteve cerca de um milhão de votos. E também de salientar que as eleições do dia não se esgotavam nas presidenciais. Para além das eleições para o Congresso e Senado, havia 120 referendos sobre os mais diversos temas como reformas eleitorais, o sistema de saúde, legalização das drogas e medidas de policiamento.

Logo os primeiros resultados, deram o mote do mês inteiro. Com uma votação recorde, Biden ficava à frente em número de votos totais e em número de eleitores do Colégio Eleitoral que elege o presidente. Trump ficava atrás mas reclamava vitória, dizendo que ia recorrer para o Supremo para que esta fosse reconhecida. E logo no dia seguinte estava já a recorrer para vários tribunais e a exigir recontagens. Para depois declarar no Twitter: "GANHO facilmente a Presidência dos Estados Unidos com VOTOS LEGAIS. Não foi permitido aos OBSERVADORES, de forma alguma, a realização de seu trabalho e, portanto, os votos aceites neste período devem ser considerados VOTOS ILEGAIS. O Supremo Tribunal dos EUA irá decidir!". Já esta rede social insistia em marcar cada uma das suas sucessivas publicações como sendo passíveis de "contestação ou podem ter informações incorretas".


Joe Biden, Foto de Jim Lo Scalzo/EPA/Lusa.

A sete de novembro, os principais meios de comunicação social deram as eleições como ganhas por Biden. Apesar das evidências, do lado de Trump não se dava o braço a torcer, continuava a prometer mais processos judiciais e a falar de fraudes sem apresentar provas. De tal forma que as mais importantes televisões o tiraram do ar quando sobre tal falava e emitiram declarações a desmentir as suas afirmações.

Em meados deste mês, Chris Krebs, diretor da agência de cibersegurança integrada no Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos da América e um dos responsáveis pelas segurança eleitoral esclareceu que as presidenciais tinham sido totalmente seguras. Ao seu estilo, Trump demitiu-o horas depois, através de um anúncio no Twitter.

Os vários casos jurídicos de Trump foram-se desfazendo, os vários aliados foram reconhecendo Biden mas Trump mantém as acusações de fraude. O caso sobre a Pensilvânia, por exemplo, chegou ao Tribunal Federal mas o juiz Matthew Brann rejeitou-o, escrevendo na sentença que “foram apresentados argumentos legais forçados, sem mérito e acusações especulativas”.

Não foi o único terreno em que Trump perdeu nos tribunais em novembro. Um juiz de Houston ordenou que o governo pare de expulsar crianças imigrantes que cruzam sozinhas a fronteira sul do país. Milhares têm sido expulsas antes de poderem solicitar asilo ou outras formas de proteção de acordo com a lei federal.

Com a tomada de posse de um novo presidente à vista, as preocupações com o seu futuro executivo também começaram a surgir. Por um lado, Joe Biden nomeou duas figuras ligadas às indústrias poluentes para a sua equipa na área do ambiente. Por outro, anunciou anunciou para a área da segurança e diplomacia incluem vários consultores ligados a think tanks financiados pela indústria militar.

Trump terminou o mês ainda a falar na fraude mas já a dar instruções à sua equipa para preparar a transição para o seu sucessor.

Dezembro: Legado...


Prisão de Terre Haute, na qual as execuções de pena de morte têm sido feitas. Foto de Federal Bureau of Prisons/Wikipedia.

O último mês do ano significa portanto que Trump está a tomar as últimas decisões do mandato. O presidente ainda em exercício tratou de acelerar as execuções de penas de morte a nível federal, tornando-se no detentor do cargo que mais concretizou penas de morte desde o século XIX e desrespeitando a tradição de deixar o presidente seguinte decidir sobre estas sentenças em período de transição.

Na fase final da sua presidência, Trump também quer deixar um legado pró-israelita. Em dezembro, Marrocos juntou-se a Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Sudão, países que normalizaram relações com Israel por intermédio dos EUA. A moeda de troca foi o reconhecimento norte-americano da soberania de Marrocos sobre o Sahara Ocidental.

Canábis e água fizeram parte das notícias internas da superpotência em dezembro. A decisão de excluir a canábis da lista de drogas consideradas perigosas, tomada pela Câmara dos Representantes, é considerada histórica mas o Senado, de maioria conservadora, ainda terá de a ratificar o que se avizinha problemático. Nos EUA é legal utilizar canábis para fins medicinais em 33 estados e para fins recreativos em 12. Já a água foi notícia porque entrou, pela primeira vez na história, no mercado de futuros de Wall Street. Passa-se assim a apostar na escassez deste bem fundamental numa altura em que as alterações climáticas tornam o acesso a ele ainda mais problemático.

O ano não terminaria sem a revelação de um ataque informático sem precedentes, que terá deixado servidores das principais empresas e departamentos governamentais norte-americanos expostos à curiosidade dos hackers desde março. Os analistas de segurança apontaram o dedo a um grupo com ligações ao governo russo, que negou qualquer envolvimento.

Sobre o/a autor(a)

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