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Protestos contra assassinato de Floyd não param

Várias mortes, milhares de prisões e cidades a ferro e fogo. Nos Estados Unidos, centenas de milhares de pessoas estão nas ruas, dispostas a não deixar esquecer o que aconteceu a George Floyd e outros afro-americanos. Trump ameaça reprimi-las com o envio de tropas.
Manifestantes em Minneapolis. Foto de CRAIG LASSIG/EPA/Lusa.
Manifestantes em Minneapolis. Foto de CRAIG LASSIG/EPA/Lusa.

Na madrugada desta terça-feira, continuaram os protestos massivos contra a violência policial, despoletados pelo assassinato de George Floyd. Um pouco por todos os Estados Unidos, houve manifestações, muitas delas desafiando as medidas de recolher obrigatório decretadas, onde se gritava “as ruas são nossas”.

Em vários locais as manifestações terminaram em confrontos. Voltou a haver gás lacrimogéneo, cargas policiais e tiros, estradas bloqueadas, lojas e centros comerciais roubados ou atacados.

Há até agora mais de cinco mil detidos e um número indeterminado de feridos. Aos poucos vão sendo conhecidas também vítimas mortais.

Trump chama aos manifestantes terroristas, mas algumas das vítimas mortais são até bem conhecidas localmente. Em Louisville, no Kentucky, um conhecido dono de restaurante, David McAtee, de 53 anos, foi morto por tiros da polícia e da Guarda Nacional que, alegadamente, pretendia dispersar a multidão em protesto. Era suposto os polícias utilizarem câmaras para gravar todos os seus movimentos mas estas estavam desligadas. Ironicamente, o seu restaurante servia refeições grátis a agentes policiais. Nesta cidade, os protestos invocam também a morte de Breonna Taylor, uma afro-americana de 26 anos morta com oito tiros quando a polícia entrou em sua casa numa rusga por drogas que não foram encontradas.

Outra das vítimas foi Chris Beaty, de 38 anos, ex-estrela de futebol americano da Universidade de Indianapolis, louvado pelos jornais locais com um “farol de positividade” e um “pilar da comunidade”. Não se conhecem até ao momento grandes pormenores sobre o que se passou. Para além dele, outro rapaz de 18 anos também foi morto na mesma cidade.

Assim, entre as vítimas, tem havido aquelas cujo nome é conhecido e as outras cuja identidade não é divulgada ou, pelo menos não é considerada notícia. Nesta situação encontram-se ainda as duas pessoas mortas em Cicero, subúrbio de Chicago, ou o homem de 21 anos de Detroit alvejado por tiros disparados a partir de um veículo em andamento.

Entre as várias mortes ocorridas, há igualmente os casos em que se desconhece a sua relação com as manifestações. Em Oakland, um agente federal que guardava um tribunal foi atingido por tiros provenientes de um veículo e morreu. Outro agente da autoridade ficou ferido. No local não decorriam protestos nem se sabe qual o motivo do ataque.

Em Las Vegas, também houve tiroteio e duas pessoas foram baleadas. Um polícia e um manifestante, segundo as autoridades que comunicaram o falecimento do primeiro.

Com a informação a chegar à comunicação social sobretudo através de relatórios policiais, conhecem-se muitos mais casos de feridos policiais do que de manifestantes. Soube-se entretanto que, em Saint Louis, quatro polícias ficaram feridos devido a tiros de bala.

E com as atenções centradas nos casos em que ocorrem cenas mais violentas, as manifestações em que não há confrontos têm sido esquecidas. Segundo várias fontes, por exemplo em Minneapolis, a noite foi tranquila depois da intervenção do irmão de George Floyd a apelar a uma mudança de sistema por meios não violentos.

Em Nova Iorque também houve protestos, sobretudo pacíficos, apesar de algumas lojas em Midtown e Soho terem sido saqueadas. Em Oakland, milhares protestaram sem problemas. De muitas outras cidades chegam notícias semelhantes. Em Baltimore, milhares de pessoas lembraram também Freddie Gray, outro afro-americano morto pela polícia há cinco anos.

Trump quer ficar bem na fotografia e mandar as tropas para as ruas

Entretanto, Donald Trump encenou esta segunda-feira uma sessão fotográfica numa Igreja em frente à Casa Branca com uma Bíblia na mão. Para chegar à Igreja de Saint John, que tinha tido um fogo na cave no domingo passado, tratou de fazer dispersar uma manifestação pacífica com gás lacrimogéneo.

Nas suas declarações à imprensa, enquanto a polícia carregava contra os manifestantes ali perto, o presidente norte-americano considerou que os protestos são “atos de “terrorismo interno”, que se trata da “destruição de vidas inocentes” e que “o derramamento de sangue humano é uma ofensa contra a humanidade e um crime contra Deus”.

Donald Trump anunciou assim “ações presidenciais imediatas para parar a violência e restaurar a segurança”, informando que irá “mobilizar todos os recursos federais disponíveis, civis e militares, para parar os motins e as pilhagens” de forma a “proteger os norte-americanos que obedecem às regras”. Anunciou-se como “o vosso presidente da lei e ordem” e voltou a culpar “anarquistas profissionais, saqueadores, criminosos, antifa e outros” pela revolta.

Noutra intervenção, durante uma teleconferência com governadores estaduais, o presidente dos EUA instou-os a ser mais duros, senão iriam “parecer um bando de idiotas”. Nessa ocasião, também ameaçou enviar as tropas para as ruas mesmo contra a vontade das autoridades locais, para “resolver rapidamente o problema por eles”. Para o fazer seria necessário recorrer a uma lei de 1807, o Insurrection Act. O anterior presidente que dela fez uso foi George H W Bush durante os distúrbios que se seguiram ao espancamento de Rodney King, também afro-americano, pela polícia.

Autópsia independente desmente a oficial

A família de George Floyd requereu uma autopsia independente e o resultado, conhecido esta segunda-feira, aponta como causa da morte do afro-americano “asfixia mecânica” devido à compressão do pescoço e costas.

São resultados diferentes da autopsia realizada pelas autoridades locais, que juntavam vários fatores como causa de morte: desde problemas de saúde anteriores como hipertensão e doença arterial coronário ao possível consumo de drogas. Refere-se o “uso recente de metanfetaminas” e de “intoxicação por fentanyl”. Esta versão é desmentida pela família e pelos médicos que realizaram a autópsia independente, que dizem que não houve condições de saúde prévias a contribuir para a sua morte e que não têm qualquer informação sobre uso de drogas ou álcool.

Erguer-se de joelhos

O ato de ajoelhar como forma de protesto contra a discriminação racial nos Estados Unidos já vem antes do homicídio de George Floyd. Popularizou-se quando o jogador de futebol americano dos San Francisco 49ers, Colin Kaepernick, começou a ficar nessa posição enquanto tocava o hino nacional durante a época de 2016. Depois disso, não voltou a ser contratado por nenhum clube da liga norte-americana de futebol americano.

Nos últimos dias, o símbolo ganhou uma nova dimensão, uma vez que foi a pressão de um joelho de um polícia que esmagou o pescoço de Floyd, matando-o. Milhares de manifestantes têm repetido o gesto, mas só voltou a ser notícia globalmente quando polícias se ajoelharam em frente à sua esquadra.

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