Consultora de Eurico Castro Alves apresentou traficante para negócio de canábis

08 de junho 2026 - 13:40

Uma das empresas fundadas pelo ex-presidente do Infarmed preparava os processos de licenciamento dos negócios da canábis medicinal junto daquele instituto, mas também abria portas a investidores neste ramo. Um deles já estava identificado por suspeitas de tráfico no Brasil.

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Eurico Castro Alves
Eurico Castro Alves.

Uma investigação do Público à rede portuguesa ligada ao chamado “avião da cocaína” - um Falcon 900 da empresa de aviação OMNI intercetado no Brasil em 2021 com centenas de quilos de cocaína a bordo - descobriu uma ligação entre Cláudio Rocha Júnior — suspeito de tráfico e branqueamento de capitais com ligações ao Primeiro Comando da Capital, entretanto condenado em Portugal por tráfico de drogas — e a consultora Wise HS, criada por Eurico Castro Alves para apoiar negócios na área da canábis medicinal, nomeadamente nos trâmites junto do Infarmed, o instituto a que antes presidiu, para cumprirem as regulamentações em vigor.

A intervenção da consultora de Eurico Castro Alves, o ex-líder da secção da Região Norte da Ordem dos Médicos chamado por Luís Montenegro para desenhar o seu plano de transformação da Saúde mal chegou ao Governo, não se limitava a apoio técnico. Segundo o Público, a Wise HS também mediava contactos entre as empresas suas clientes, algumas vezes com os processos de autorização concluídos mas ainda sem terem plantado um único pé de canábis, e potenciais investidores numa altura em que se assistia a uma “bolha” no negócio da canábis medicinal. A bolha estourou após a pandemia, mas enquanto durou  a Wise HS chegava a cobrar 6,5 milhões de euros pelos serviços prestados, dizem várias fontes ouvidas pelo Público.

Foi no âmbito desta intermediação que a consultora de Castro Alves terá apresentado aos seus clientes da Sync Nature a empresa Wdealer, detida pelo empresário e traficante, como candidata à aquisição. Chegou a ser feito um contrato-promessa, mas o negócio não avançou. Meses depois, em junho de 2023, Cláudio Rocha Júnior foi condenado a cinco anos de prisão pelo Tribunal de Matosinhos por tráfico de droga. Segundo os documentos do processo de insolvência da Wdealer consultados pelo Público, os clientes de Castro Alves reclamam os 12,5 milhões de euros inscritos na cláusula de incumprimento do negócio.

Em declarações ao Público, Eurico Castro Alves admitiu não ter feito o trabalho de due dilligence sobre o passado e a reputação da Wdealer e do seu dono antes de os apresentar aos seus clientes, mas nega ter ganho alguma coisa com isso.