Na Alemanha, Friedrich Merz perde terreno

07 de junho 2026 - 23:00

O chanceler alemão é agora o mais impopular da história. Incapaz de controlar a sua coligação, tornou-se um símbolo de impotência num momento em que a crise assola o país. Alguns chegam mesmo a considerar um golpe palaciano para o afastar do poder.

por

Romaric Godin

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Friedrich Merz
Friedrich Merz. Foto União Europeia

É um rumor que vem ganhando força há algumas semanas no bairro governamental de Berlim. O chanceler federal Friedrich Merz, que acaba de “comemorar” – de forma bastante triste, aliás – o seu primeiro ano no cargo no início de maio, poderá muito bem ser substituído pelo atual ministro-presidente da Renânia do Norte-Vestfália, Hendrik Wüst.

Após as três eleições regionais de Berlim, Saxónia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, previstas para setembro e que se anunciam como um desastre para a grande coligação no poder, a credibilidade de Friedrich Merz poderá, de facto, estar totalmente esgotada. Daí a ideia avançada por este rumor de relançar a máquina com um novo chanceler.

Por enquanto, tudo isto não passa de um rumor que Hendrik Wüst apenas desmente de forma velada. A sua recente viagem à Polónia foi interpretada pelo microcosmo político como a vontade de construir uma estatura internacional com vista à sua chegada à chancelaria. Desde então, todos os meios de comunicação alemães destacam uma “hipótese Wüst”.

Este rumor diz muito sobre o estado da grande coligação entre os conservadores da CDU/CSU e os social-democratas do SPD dezasseis meses após as eleições de 2025. A aliança já sofreu duas derrotas eleitorais nesta primavera, em Baden-Württemberg e na Renânia-Palatinado. Mas, até agora, tinha sido sobretudo o SPD a sofrer as perdas mais pesadas. A CDU tinha limitado os danos graças à sua presença local.

No entanto, a figura de Friedrich Merz tornou-se progressivamente um repelente na opinião pública. Aquele que ansiava ardentemente pelo cargo de chanceler há um quarto de século parece, de facto, ter atingido rapidamente os seus limites. Enquanto a Alemanha permanece mergulhada numa grave crise industrial, o homem é incapaz de definir um rumo claro e uma política económica à altura desta dificuldade estrutural.

Ele permanece preso às certezas do último quarto de século, dando prioridade à consolidação orçamental e ao apoio a setores em declínio. Friedrich Merz, ex-executivo da Goldman Sachs, não tem capacidade para gerir uma crise da magnitude daquela que o seu país atravessa. Com a guerra no Irão e a nova onda inflacionista, a situação não melhora. Tanto mais que a medida de redução de 17 cêntimos nos impostos sobre os combustíveis, decidida a 1 de maio, foi pouco ou nada sentida pelos alemães.

Na sexta-feira, 29 de maio, os “sábios”, ou seja, os economistas encarregados de aconselhar o governo, reviram em baixa a sua previsão de crescimento para 2026, de 0,9% para 0,5%. Uma revisão de quase metade, com uma aceleração muito ligeira em 2027 para 0,8%. Se estes cenários se concretizarem, isso significará que o país permanecerá preso numa estagnação de facto que começou em 2022 e que nenhuma política pública consegue travar.

A Alemanha está na linha da frente do “segundo choque comercial chinês”. A sua indústria enfrenta agora a concorrência direta dos produtos chineses, ao mesmo tempo que a China recorre cada vez menos às importações alemãs. Para um país inteiramente estruturado em torno do desempenho das exportações, a situação é crítica. E para fazer face a este desafio estrutural, os políticos alemães têm dificuldade em encontrar respostas.

Uma coligação à deriva

É verdade que, para começar, Friedrich Merz parece incapaz de controlar a sua coligação. A aliança CDU-SPD parece mais uma aliança de circunstância do que um projeto político. Única maioria possível sem o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) após as eleições de fevereiro de 2025, a coligação é constituída por dois partidos paralisados pela perda do seu eleitorado e pela ascensão da extrema-direita. Cada um tenta, assim, salvar o que se pode, opondo-se aos projetos do outro.

A revista Der Spiegel descreveu recentemente o funcionamento caótico da coligação na questão das infraestruturas. O ministro das Finanças e líder do SPD, Lars Klingbeil, está preocupado, como de costume, em parecer um “bom gestor” e pretende limitar as despesas. “Nisso, pouco se diferencia dos seus antecessores conservadores, como Wolfgang Schäuble”, precisa o semanário. Por isso, corta os recursos do Ministério dos Transportes, liderado pelo membro da CDU Patrick Schnieder, e limita as despesas provenientes do fundo de investimento de 500 mil milhões de euros destinado à construção de novas linhas ferroviárias.

Paralelamente, o ministro do Ambiente do SPD, Carsten Schneider, propôs uma lei para proteger a biodiversidade. A CDU opõe-se a ela em nome da necessidade de investimentos que, aliás, não está a ser satisfeita devido aos bloqueios do Ministério das Finanças…

E não faltam outros exemplos de conflitos. A redução da licença parental prevista em caso de nascimento, reclamada por Lars Klingbeil e proposta no valor de 350 milhões de euros pela ministra da Família da CDU, Karin Prien, também encontrou forte oposição do grupo parlamentar do SPD.

Por fim, há a reforma das pensões. O antigo banqueiro de negócios Friedrich Merz convocou uma comissão bipartidária sobre a questão para apoiar a sua ideia de desenvolver os fundos de pensões privados. Em abril, declarou que a pensão do Estado já não poderia garantir a manutenção do nível de vida dos reformados. Declarações que provocaram a ira da ministra do Trabalho do SPD, Bärbel Bas. A comissão deve apresentar as suas conclusões no final de junho, mas o tema parece ser explosivo para a coligação, com um Friedrich Merz que parece menos juiz do que parte no caso.

Estas dificuldades não testemunham apenas divergências normais no seio da grande coligação, mas evidenciam uma incapacidade de chegar a acordo sobre os princípios de governo. Já o “pacto de coligação” anunciava escolhas delicadas, por parecer tão contraditório. A única possibilidade residia em arbitragens firmes do chanceler.

Os conflitos internos nas coligações fazem parte do quotidiano da vida política alemã e raramente provocam crises políticas, porque a autoridade do chanceler permite, normalmente, chegar a compromissos. No entanto, é aqui que Friedrich Merz parece atingir os seus limites. Não dispõe dessa autoridade e tem de enfrentar partidos que jogam a sua sobrevivência e ministros que tentam afirmar-se politicamente num jogo político sem uma figura dominante.

Incapaz de gerir o caos político da sua coligação, Friedrich Merz parece, além disso, igualmente impotente para gerir a situação internacional. No plano europeu, parece quase apagado, mais uma vez desprovido de orientações. Atlantista convicto, tentou apaziguar Donald Trump sem sucesso, ao mesmo tempo que procurava manter boas relações com a China, tal como exigido pelo capital industrial alemão. Uma posição, na realidade, insustentável que, globalmente, enfraquece a Alemanha.

O único ponto em que a coligação conseguiu chegar a acordo é o rearmamento. Mas o keynesianismo militar não poderá salvar nem a economia alemã, nem Friedrich Merz. Um ano após a sua tomada de posse, este último tornou-se o chanceler mais impopular da história da República Federal, conseguindo a proeza de fazer pior do que o seu antecessor, o social-democrata Olaf Scholz, que já tinha batido recordes nesta matéria.

Perante tal situação, a CDU está, por seu lado, em pânico. As últimas sondagens de opinião são desastrosas, colocando os conservadores sete pontos atrás da AfD e a níveis inferiores ao seu mínimo histórico de 2021 (24,1 %). Em setembro, a possibilidade de uma maioria absoluta da extrema-direita na Saxónia-Anhalt é levada muito a sério.

Enquanto o SPD prossegue a sua descida aos infernos, ajudado por um Lars Klingbeil que parece não ter aprendido nenhuma das lições dos últimos trinta anos, os dirigentes da CDU e da CSU temem agora um destino semelhante. Os estudos pós-eleitorais sobre as duas eleições regionais desta primavera mostram que os progressos da AfD reduziram a progressão da CDU, não só captando um grande número de abstencionistas e eleitores desiludidos com o SPD, mas também atraindo uma parte do eleitorado conservador.

Se a AfD ultrapassa agora a CDU a nível nacional e é capaz de conquistar a Saxónia-Anhalt sozinha, é porque consegue agora atrair esse eleitorado. Friedrich Merz é claramente apontado como o responsável pelo desastre. Um observador do Frankfurter Allgemeine Zeitung salientava, a 26 de maio, que era “cada vez mais difícil encontrar um deputado da CDU disposto a elogiar o chanceler”.

A salvação através de uma revolução de palácio?

Daí a ideia de estancar a hemorragia com uma nova figura tutelar mais popular. E é aqui que volta a surgir a ideia de Hendrik Wüst. O homem é, de facto, um dos raros dirigentes da CDU a ser poupado pela situação atual. Jens Spahn, outrora visto como o sucessor natural de Friedrich Merz e que lidera o grupo parlamentar conservador no Bundestag, é atingido em cheio pela impopularidade do governo. O bávaro Markus Söder, ministro-presidente da Baviera e líder da CSU, é mais experiente, mas acaba de sofrer uma derrota amarga nas eleições municipais no estado. É também menos consensual na direita.

O ministro-presidente da Renânia do Norte-Vestfália torna-se então o candidato ideal. Popular no seu estado – outrora um bastião do SPD e o mais populoso da Alemanha, com os seus 17 milhões de habitantes –, as sondagens prevêem-lhe um resultado invejável nas eleições da próxima primavera. Ali, aliás, lançou a campanha distinguindo-se claramente da política federal com o slogan: Trata-se da NRW [acrónimo alemão do estado – nota do editor]. Uma forma de mostrar bem a sua diferença.

Hendrik Wüst lidera uma aliança com os Verdes em Düsseldorf que funciona bastante bem. O suficiente para se apresentar como o anti-Merz, uma vez que o atual chanceler nunca liderou um governo antes de 2025 e rapidamente demonstrou os limites das suas competências nessa matéria.

Assim que Friedrich Merz estiver totalmente desacreditado e Hendrik Wüst for reconduzido no início do próximo ano, muitos poderão esperar uma mudança de chanceler para relançar a coligação dois anos antes das eleições federais de 2029, a fim de travar a ascensão da AfD.

Mas este cenário é muito otimista. Em primeiro lugar, porque a mudança de chanceler é uma experiência arriscada. O SPD, ele próprio em plena desorganização, aceitará esta mudança de rumo? Na história da República Federal, uma mudança de chanceler a meio da legislatura é um acontecimento raro e que sempre foi acompanhado por uma mudança de maioria. Existem dois exemplos: em 1966 e 1982.

Em 1982, Helmut Kohl derrubou Helmut Schmidt ao fazer com que os liberais do FDP passassem do SPD para a CDU. Em 1966, a demissão de Ludwig Erhard (CDU) levou à nomeação como chanceler de outro membro da CDU, Kurt-Georg Kiesinger, mas com um parceiro diferente, o SPD substituindo o FDP. O problema é que a CDU não dispõe de um parceiro alternativo.

É certo que os Verdes, e nomeadamente o novo ministro-presidente de Bade-Wurtemberg, Cem Özdemir, não escondem a sua vontade de se aproximar da CDU. Cem Özdemir defendeu, numa entrevista recente ao Frankfurter Allgemeine Zeitung, a ideia de que partilhava com a CDU a vontade de reduzir a burocracia, enquanto o seu ministro regional das Finanças, Danyal Bayaz, afirmou, na Der Spiegel, que o país precisava de uma CDU estável”.

Os Verdes seriam o parceiro ideal de Hendrik Wüst. Mas o problema é que uma aliança entre a CDU/CSU e os Verdes não teria maioria no Bundestag. Dependeria da tolerância do SPD que, tendo em conta o pânico que reina nesse partido, seria incerta. A opção de eleições antecipadas seria altamente perigosa, dada a suposta força da AfD.

Por outras palavras: Hendrik Wüst poderá vir a enfrentar as mesmas dificuldades que Friedrich Merz. Além disso, Hendrik Wüst não parece dispor de uma visão capaz de enfrentar de frente a crise económica que o país atravessa. Quanto aos Verdes, também eles mostraram as suas limitações na gestão do país, na qual participaram de 2021 a 2025.

A realidade é que a Alemanha se encontra agora numa crise política permanente. A crise estrutural da sua economia atingiu a sua superestrutura política. Os partidos governantes da República Federal são incapazes de apresentar soluções, esgotam-se em políticas desastrosas e vêem-se reduzidos a considerar a sua salvação através de revoluções de palácio. E neste caos, a extrema-direita surge cada vez mais como uma alternativa.

É claro que Friedrich Merz é um chanceler deplorável. Tal como Emmanuel Macron, aquele que prometeu dividir a extrema-direita por dois prepara o terreno para a sua ascensão. Mas o principal problema é que a política alemã não dispõe dos meios e das ferramentas capazes de responder à crise que o país atravessa. É, portanto, duvidoso que outro cacique da CDU faça melhor.


Romaric Godin é jornalista do Mediapart especializado em macroeconomia, foi correspondente do La Tribune na Alemanha entre 2008 e 2011. Artigo originalmente publicado no Mediapart a 31 de maio de 2026.