O discurso inaugural de Friedrich Merz na Conferência de Segurança em Munique a 13 de fevereiro de 2026, provocou muitos comentários afirmativos que o interpretaram como contundente crítica europeia à política internacional da administração Trump. Mas, na realidade, foi exatamente o oposto. Isto ficou evidente no dia seguinte quando as figuras mais importantes do governo alemão ao lado do chanceler Merz, o ministro dos negócios estrangeiros Wadephul e o ministro de defesa Pistorius em conjunto com o primeiro-ministro de Baviera Söder deram as suas standing ovations depois do discurso do ministro dos negócios estrangeiros estado-unidense Marco Rubio.
Mas, o que disseram os dois concretamente? No fim do seu discurso, o chanceler alemão mencionou que “a luta cultural do movimento MAGA não é a nossa”, que não confia na política das tarifas, e que a mudança climática ou a Organização Mundial da Saúde (OMS) continuam a ser assuntos importantes na política global. Mas o eixo central da sua intervenção foi a sua determinação de empurrar para a frente o armamento europeu e de manter e melhorar outra vez as relações com os Estados Unidos, em particular no nível militar.
Merz propõe uma estratégia internacional de quatro pontos principais: 1. O fortalecimento “militar, político e económico” com a “prioridade mais destacada” de “promover Europa dentro da NATO”. 2. O reforço de Europa como “pilar forte dentro desta aliança”. 3. A refundação da parceria transatlântica não contra a NATO, mas com um forte pilar europeu dentro da mesma. 4. O estabelecimento de uma rede de parceiros globais. Dos quatro assuntos resumidos aqui, os três primeiros são mais ou menos descrições diferentes do mesmo assunto.
O chefe do governo alemão concluiu o seu discurso invocando “os nossos amigos americanos” e a NATO que vão proporcionar-nos bons tempos “especialmente para a geração dos nossos filhos e netos”.
Um dia depois desta mensagem, o ministro dos assuntos estrangeiros dos Estados Unidos Marco Rubio dedicou a maior parte do seu discurso às profundas ligações históricas, políticas e culturais que existem entre os EUA e a Europa. Mencionou Mozart e Beethoven, Dante e Shakespeare, a Capela Sistina e a Catedral de Colónia. Rubio termina o seu discurso com estas palavras magníficas: “América quer construir um novo século de prosperidade, e isto – apreciados aliados e amigos históricos – queremos fazer juntamente com vocês.” A elite político-militar da Europa presente na sala ficou entusiasmada e aplaudiu de pé prolongadamente.
O que muitos políticos e jornalistas não ouviram ou não quiseram ouvir foi a mensagem dura que estava embrulhada nestas lindas palavras. As instituições e o direito internacional são obsoletas; não devemos continuar a submeter-nos ao culto do clima; e a migração massiva “põe em risco a nossa cultura e o futuro dos nossos povos”. Precisamos de uma aliança “que não esteja paralisada por causa do medo da mudança climática ou do medo da guerra”. Uma aliança “que defenda os nossos povos, proteja os nossos interesses, garanta a nossa capacidade de ação e que não peça permissão antes de agir”.
A guerra já está normalizada como instrumento da política atual. Mas esta vez é uma guerra que nem pretende ser justificada ante qualquer instituição legal internacional. Ainda pior: a administração Trump declara que prefere atuar em conjunto com os Estados europeus, mas ao mesmo tempo ameaça que no caso de ser preciso também está “preparada para empreender essas atuações sozinha”.
Enquanto Rubio empreendia uma ofensiva de charme para que os governos europeus apoiassem a política agressiva de Trump, Merz defende e promove a submissão política aos EUA e a união militar com a NATO. O apoio expresso aos ataques militares dos EUA e Israel contra o Irão e o silêncio aprovador no que diz respeito à agressão contra Venezuela e o sequestro do Presidente Nicolas Maduro mostram claramente a orientação da política internacional do governo alemão. Isto tornou-se ainda mais claro quando Merz não expressou nenhuma crítica à guerra atual contra o Irão no seu encontro com Trump a 4 de março em Washington.