Reportagem

“Onde estão os mediadores?” Apesar do cessar‑fogo em Gaza, Israel prossegue deslocamentos

18 de junho 2026 - 10:37

Com o objetivo de tomar 70 por cento do território de Gaza, o exército israelita está a abrir fogo contra civis palestinianos apanhados de surpresa pela “Linha Amarela” em constante expansão.

por

Ruwaida Amer 

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Palestinianos deslocados fotografados junto às suas tendas na cidade de Gaza, a 1 de junho de 2026.
Palestinianos deslocados fotografados junto às suas tendas na cidade de Gaza, a 1 de junho de 2026. Foto de Ali Hassan/Flash90

No início de maio, Mohammed Suleiman partiu para visitar os seus pais, como faz todos os meses. O homem de 42 anos vive no campo de refugiados de Nuseirat, no centro de Gaza, enquanto os seus pais vivem a sul, em Khan Younis. Escolheu o percurso mais rápido: seguir pela rua Salah Al-Din, a principal artéria de tráfego norte-sul de Gaza. Mas, naquele dia, a sua viagem seria interrompida — quase fatalmente.

“Eu estava perto de Bani Suheila, na rua Salah Al-Din, quando fui subitamente atingido na mão por uma bala disparada pelo exército israelita”, contou ele à revista +972.

Mohammed foi evacuado para o Complexo Médico Nasser, onde recebeu tratamento para o ferimento, que, felizmente, foi leve. “Sobrevivi desta vez, mas não sei o que me acontecerá a mim ou a qualquer outra pessoa da próxima vez”, afirmou. “Já não basta sermos alvo repetidamente [de bombardeamentos]; agora, até os transeuntes estão a ser alvejados.”

O chamado “cessar-fogo” acordado em outubro passado entre Israel e o Hamas deu origem a um fenómeno que não deixou de assombrar os residentes de Gaza: a “Linha Amarela”. Era suposto esta delimitar os limites da ocupação israelita do território de Gaza, antes de uma retirada faseada à medida que o cessar-fogo avançasse. Mas, em vez de se retirarem, as forças israelitas estão a avançar.

Inicialmente, Israel manteve o controlo direto de cerca de 53 por cento do território de Gaza, cujos residentes tinham sido deslocados à força para o outro lado da Faixa. Nos últimos seis meses, período durante o qual o exército israelita matou cerca de 1.000 palestinianos em Gaza, os soldados continuaram a avançar para oeste, ocupando mais de 60 por cento do território. Há duas semanas, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu revelou que tinha ordenado ao exército que aumentasse essa percentagem para 70% — um processo que decorre em total coordenação com a Casa Branca.

Nos últimos dias, os residentes palestinianos têm assistido a uma intensificação da atividade militar israelita nas áreas adjacentes à localização atual da Linha Amarela, o que alimenta ainda mais os receios quanto ao seu destino. E em nenhum outro local isto se faz sentir de forma mais aguda do que ao longo da rua Salah Al-Din.

 

Khalil Al-Sayed, um motorista na casa dos cinquenta, depende da estrada para o seu sustento. “Sou motorista desde os 18 anos e é o único trabalho que consigo fazer”, explicou.

Embora Salah Al-Din tenha estado, em geral, acessível a motoristas como Al-Sayed durante os primeiros meses do cessar-fogo, a situação começou a mudar. “Há cerca de dois meses que sentimo-nos cada vez mais em perigo na estrada devido à aproximação dos blocos amarelos”, disse ele, referindo-se ao mecanismo utilizado pelo exército israelita para demarcar a Linha Amarela. “Nós, motoristas, contactamo-nos todas as manhãs para perguntar sobre as condições da estrada: está desimpedida? Houve tiroteios? Há tanques presentes?

“Saímos para trabalhar sem saber o que nos vai acontecer”, continuou ele. “Os disparos indiscriminados são aterradores. Muitas vezes, os tanques surgem da zona de Zeitoun, a norte, e obrigam-nos a alterar o nosso percurso em direção ao mar para lhes escapar. Esta é uma situação verdadeiramente trágica e não sabemos o que o futuro nos reserva.”

“Nada mudou desde o cessar-fogo”

Em Khan Younis, a Linha Amarela está a aproximar-se cada vez mais do centro da cidade. Enquanto as zonas orientais da cidade estão ocupadas pelo exército israelita desde antes do “cessar-fogo” e foram em grande parte destruídas, o centro tem assistido, nos últimos meses, a um ressurgimento da atividade comercial. Também isto parece agora estar ameaçado.

Nos últimos dias, os palestinianos do bairro de Al-Bayuk, ligeiramente a leste do centro da cidade, relataram o aparecimento de novos blocos de betão amarelos colocados pelo exército israelita. Em resposta, os residentes começaram a fugir para oeste para escapar à invasão das forças militares.

Mohammed Al-Bayuk (cujo apelido é o mesmo do bairro) está agora à procura de um local para a sua família viver na zona de Al-Mawasi, ao longo da costa de Gaza. Este pai de três filhos regressou a Al-Bayuk após o “cessar-fogo” e descobriu que a sua casa tinha sido destruída, pelo que montou uma tenda sobre os escombros para poder permanecer nas suas terras. Agora, porém, prepara-se para fugir mais uma vez.

“Estou em choque por causa destes blocos amarelos”, disse ele ao +972. “Estão a transformar a minha vida novamente num inferno. Tenho uma família pequena para sustentar — incluindo a minha mãe, o meu irmão e as minhas irmãs, de quem cuido desde que o meu pai faleceu um ano antes da guerra. Não sei como posso ficar na zona com este perigo tão perto. Estou a tentar encontrar um lugar para nós em Al-Mawasi, mas está muito cheio de pessoas deslocadas.”No início deste mês, o exército israelita bombardeou o seu bairro — o que, segundo Al-Bayuk, teve como objetivo aterrorizar os residentes para que fugissem. “Foi aterrador” — relatou ele. “O mais chocante é que estamos a ser deslocados durante um cessar-fogo. Não sei o que os mediadores estão a fazer em relação a esta expansão significativa da Zona Amarela.»

Salem Awad, um homem de 45 anos, pai de seis filhos, natural de Rafah, que vive atualmente numa tenda em Al-Mawasi, descreveu o deslocamento diário da Linha Amarela pelo exército israelita como semelhante a um jogo de xadrez. “Não consigo entrar em Rafah há quase três anos e sinto que estou a morrer por causa disso”, disse ele ao +972. “Armei a tenda o mais perto possível para respirar um pouco da minha cidade — só para ver os blocos amarelos a aproximarem-se de nós [na semana passada]. Agora estamos mesmo ao lado deles, o que significa que estamos numa zona de perigo.

“Não posso ficar onde estou e ignorar esses blocos, porque o exército israelita é traiçoeiro e pode atacar-nos a qualquer momento, alegando que representamos uma ameaça para as suas forças”, continuou Awad. “Mandei os meus filhos e a minha família irem para a tenda do avô até encontrar um local para montar a minha própria tenda e afastar-me daqui”.

“Estamos a viver sob uma imensa injustiça”, continuou ele. “Nada mudou de todo [desde o cessar-fogo]. Ouvimos constantemente o som de explosões, o que é muito assustador. Ouvimos os tanques a moverem-se e vemos as luzes a leste de Rafah e nas áreas circundantes. Estamos aqui à espera de qualquer solução.”

A leste de Deir Al-Balah, os moradores enfrentam uma ameaça semelhante há mais de um mês. «Voltámos para casa quando o cessar-fogo começou, porque não fica dentro da Zona Amarela», disse Ahmed Al-Saeed, desta zona, ao +972. “Começámos a adaptar-nos um pouco à presença de tanques e do exército nas proximidades, mas era aterrorizante. Tentei manter as crianças e todas as outras pessoas afastadas daqueles blocos de betão”.

“Então, há um mês, o exército ordenou-nos que evacuássemos para oeste”, continuou ele. “Pensei que fosse uma situação temporária, que ficaríamos deslocados por um dia ou uma noite e que depois tudo acabaria. Mas, alguns dias depois, ficámos chocados ao descobrir que o exército tinha começado a destruir o que restava das nossas casas para que nunca mais pudéssemos regressar”. Agora, a zona tornou-se uma Zona Amarela, de acesso proibido.

“Esses blocos de betão estão a aproximar-se cada vez mais, de leste para oeste, e estamos todos confinados ao longo da costa ocidental”, disse Al-Saeed. “Queremos compreender: isto é uma ocupação de Gaza e um deslocamento forçado, ou o quê? Temos crianças sem abrigo e estamos num cessar-fogo. Nunca passámos por nada assim antes. A existência da Linha Amarela é um pesadelo para todos nós, e não sabemos quando vai acabar.”


Ruwaida Amer é uma jornalista freelance de Khan Younis. Artigo publicado na revista +972.