Nos últimos meses têm decorrido negociações discretas entre representantes do estado marroquino e da Frente Polisário para discutir o futuro do Sahara Ocidental, após a ONU ter aprovado uma resolução em que estende o mandato da sua missão para promover o referendo e ao mesmo tempo adota o plano de autonomia marroquino como base de negociação.
Em entrevista ao Expresso, o chefe da diplomacia da República Árabe Sarauí Democrática, Mohamed Yeslem Beissat, confirmou encontros em Washington e na embaixada dos EUA em Madrid em que se discutiram as propostas dos dois lados do conflito. Beissat destaca pela positiva a iniciativa dos EUA e a presença do representante especial da ONU Staffan Di Mistura no processo.
Apesar de este diálogo ser um avanço, a Frente Polisário critica a “duplicidade e hipocrisia” do governo marroquino, que ao mesmo tempo que negoceia com os representantes do povo saharaui está a investir forte no lóbi junto de congressistas dos EUA para classificarem a Polisário como organização terrorista. E vê com preocupação as mudanças de posição dos EUA e sobretudo de França e Espanha, ao trocarem o seu apoio ao referendo de autodeterminação pelo apoio ao plano marroquino.
“Marrocos está empenhado numa campanha militar, diplomática e mediática contra os sarauís, o que contraria qualquer vontade política genuína de encontrar uma solução”, afirma Mohamed Yeslem Beissat, contrapondo que o lado saharaui continua a negociar por entender que “não há alternativa ao diálogo e às negociações”.
Enquanto isso, no terreno prosseguem os ataques esporádicos desde que Marrocos quebrou o cessar-fogo em 2020. Este mês a Frente Polisário lançou um ataque com projéteis à cidade de Smara, que não provocou mortes mas motivou reações de condenação de vários países. “Esperaríamos que condenassem todas as ações contra civis, não apenas de um lado. O que significa que estão a dar luz verde a Marrocos para matar civis, mas não é permitido aos outros retaliar. Isto demonstra um comportamento de dois pesos e duas medidas, unilateral, de ódio e desequilibrado de alguns países”, lamentou o responsável saharaui.