Não foram dois procuradores que falaram ao público após a antestreia do filme do ucraniano Sergei Loznitsa, a semana passada, no Cinema Ideal, mas sim, um político experiente e conhecedor da história e um ator, igualmente experimentado, sobretudo por ter vivido de perto parte da história recente da, hoje, Federação Russa, e antes uma União Soviética plena de contradições. Em conversa com o público, Francisco Louçã e Aleksandr Kuznetsov analisaram algumas questões submersas neste filme tão sereno quanto insinuante que lentamente nos envolve e sufoca. E, em grande parte, graças ao trabalho irrepreensível da mise en scène de Loznitsa e à forma como o diretor de fotografia romeno Oleg Mutu nos faz navegar entre o peso dos silêncios e os espaços.
O filme integrou que a secção competitiva de Cannes 2025, marca o regresso de Loznitsa à ficção após Uma Mulher Doce, 2017, e Donbass, 2018, e segue o longo périplo kafkiano do idealista Kornyev pelos corredores do aparelho estalinista. Isto no final dos anos 30, durante as purgas (1927–39), feitas de limpeza étnica, vigilância e repressão, com execuções estimadas entre 680 mil e 1,2 milhão. Surpreende pela calma inquietante que contorna a violência explícita, mas em que o rigor documental nos aproxima daquele tempo, com a investigação de uma denúncia de tortura cometida pela a polícia secreta de Stalin (a NKVD, antes de se tornar na KGB) contra um prisioneiro político. E é quando a história se aproxima perigosamente da realidade que pode apetecer “mandar tudo às urtigas e ir beber caipirinhas para a Caparica!”
Mas vamos com calma. Conforme explica Kuznetsov, Georgy Demidov, o autor do livro que dá origem ao filme, foi prisioneiro político no Gulag durante 14 anos: “o seu companheiro de cela era a minha personagem”, explica. “Ele escreveu este livro, mas que nunca chegou a ser editado, pois foi confiscado pelo governo soviético. Só há cerca de dez anos, a sua filha lutou para o recuperar dos arquivos.”
Kornyev era um jovem advogado, designado para investigar o caso; partiu para Moscovo e, pouco depois, foi preso e torturado. “Houve um julgamento famoso onde não só ele, mas também cerca de uma dúzia de outras pessoas, confessaram”, como sugere o ator ucraniano que o interpreta com uma assinalável economia e intensidade, como que enredado numa espiral de claustrofóbica e processual. “Para poder ser libertado, acabou mesmo por confessar ser o líder de uma organização terrorista. Algo que o enviou para a prisão e a sua morte.” No fundo, como salienta Francisco Louçã, a confissão transformada em prova, como motor que alimentava o mecanismo de poder russo.
A obsessão de Sergei Loznitsa na procura documental, permitiu-lhe usar os arquivos para construir um retrato assustadoramente preciso do poder, feito de imagens e silêncio que tornam tangível o pavor deste filme rodado em Riga, na Letónia. “Loznitsa é um documentarista conceituado, mas está cancelado, tal como eu e muitos outros, por ter falado contra Vladimir Putin – somos todos considerados criminosos “, revela o ator, explicando que a censura e a acusação ideológica não são exclusivas do passado, sentenciando que “isso também acontece hoje na Ucrânia, porque dizem que não odiamos os russos o suficiente”.
No ecrã, essa repressão materializa-se na figura do procurador Vyshinsky, antagonista e arquiteto legal das purgas. Francisco Louçã recorda que Vyshinsky fora o autor da doutrina da “confissão como prova suficiente”, instrumento que condenou inocentes. Alexander descreve-o de forma mais visceral: “Vyshinsky, como mencionou, é o homem com quem falo no filme, o procurador principal; ele era considerado ‘o padrinho’ das prisões políticas. Ele era o braço direito de Stalin - uma espécie de Dr. Mengele. Sobreviveu a tudo isso e depois morreu”, refere, confirmando, no entanto, a alusão de Louçã de que ele teria sido um dos representantes das União Soviética nas Nações Unidas e até um dos procuradores do julgamento de Nuremberga. E invoca mesmo esse ano de 1940, e o pacto de não agressão, entre a União Soviética e a Alemanha nazi, assinado por Molotov e Ribbentrop, salientando até “os julgamentos de Moscovo, em que estaria presente o procurador alemão, que se sentiu inspirado pela ideia da tortura como meio de confissão”, embora um elemento não mencionado no filme.
No cerne deste filme fica uma indagação sobre a “burocracia do mal”: “Acho que a burocracia foi inventada para sustentar a violência na União Soviética… as pessoas no comando não se sentiam seguras.” Alexander conclui com desespero pessoal e cansaço político: “Tenho 33 anos, estamos em 2026 e a mesma merda está a acontecer… Estou a viver isto agora, pois falei contra o presidente da Rússia e tive de sair… preciso de ir para a Caparica beber caipirinhas e mandar tudo às urtigas porque estou cansado de tudo isto.”