Antes de entrarmos no Irão, muitas de nós entrámos em Marjane Satrapi.
Não conhecíamos muito bem as ruas de Teerão, nem a história da revolução de 1979, nem as contradições de uma sociedade que tinha passado de uma ditadura apoiada pelo Ocidente para uma república islâmica onde as liberdades individuais eram cada vez mais restringidas. O que conhecíamos era uma menina que discutia com os seus professores, que ouvia música às escondidas, que sonhava em tornar-se profeta e que tentava encontrar o seu lugar num mundo que parecia empenhado em decidir por ela quem ela deveria ser. Talvez por isso a morte de Marjane Satrapi deixe uma sensação estranha. Não desaparece apenas uma autora fundamental da banda desenhada contemporânea. Desaparece uma das artistas que melhor compreendeu que a representação é sempre um campo de batalha.
Durante décadas, o Irão foi contado a partir de fora. Por governos, por jornalistas, por especialistas em geopolítica, por analistas que reduziam um país de milhões de habitantes a uma série de manchetes sobre o petróleo, o programa nuclear ou o fundamentalismo religioso. Satrapi fez algo muito mais simples e muito mais revolucionário: devolveu os nomes próprios onde outros apenas viam massas anónimas.
O seu grande feito não foi explicar o Irão. Foi humanizá-lo.
Quando Persépolis foi publicado no início do século, muitos leitores ocidentais descobriram algo que deveria ter sido óbvio desde o início: que as mulheres iranianas não eram um símbolo. Não eram uma categoria abstrata sobre a qual se discutisse em tertúlias ou gabinetes. Eram pessoas concretas, com desejos, contradições, medos e formas próprias de resistência. O que Satrapi colocou em cima da mesa não foi uma explicação do mundo, mas uma experiência contextualizada. E foi precisamente por isso que alcançou uma dimensão universal. Numa época em que tudo parece exigir posicionamentos imediatos e narrativas simplificadas, é impressionante recordar até que ponto Satrapi sempre desconfiou das simplificações. Desconfiava do regime iraniano, mas também do olhar orientalista que transformava o Irão numa caricatura. Desconfiava daqueles que falavam em nome das mulheres iranianas sem as ouvir. Desconfiava das imagens demasiado limpas, demasiado confortáveis, demasiado fáceis.
Talvez tenha sido por isso que escolheu o desenho. O preto e branco das suas vinhetas nunca foi uma simplificação da realidade. Era, paradoxalmente, uma forma de lhe devolver a complexidade. Aí onde a fotografia podia transformar-se em espetáculo, o desenho obrigava a parar. Aí onde a imagem informativa consumia o sofrimento alheio a uma velocidade vertiginosa, a vinheta recuperava o tempo da observação e da memória. Não é por acaso que uma autora obcecada pela liberdade acabou por encontrar na banda desenhada a sua principal ferramenta. A banda desenhada permitiu-lhe mover-se entre géneros, entre registos, entre línguas e territórios. Permitiu-lhe falar de política sem se tornar uma propagandista. Falar da dor sem a transformar em mercadoria. Falar do exílio sem cair na nostalgia. Porque se há uma experiência que atravessa toda a sua obra é precisamente a do desenraizamento.
Satrapi pertenceu àquela geração que descobriu que abandonar um país não significa deixá-lo para trás. O exílio surge nos seus livros como uma ferida, mas também como uma condição a partir da qual olhar. A distância permitiu-lhe observar o Irão de outra forma, mas também observar a Europa. As suas obras nunca foram apenas uma crítica à República Islâmica. Foram também uma reflexão sobre as dificuldades de pertencer, sobre a identidade como algo instável, sobre a sensação de estar sempre entre dois lugares. Talvez por isso os seus livros tenham encontrado leitoras tão diferentes entre si. Porque, no fundo, falam de algo que vai muito além de uma geografia concreta. Falam da busca de um lar quando os discursos políticos, religiosos ou nacionais tentam impor-nos uma identidade única.
Muitas vezes recorda-se Satrapi por Persépolis. É inevitável. Poucas obras tiveram um impacto semelhante na cultura contemporânea. Mas limitá-la a esse livro seria injusto. Lá estão também as mulheres que conversam em Bordados, partilhando segredos e frustrações longe do olhar masculino. Ali está a melancolia de Frango com Ameixas. Ali está o seu trabalho posterior no cinema. E ali estão as suas intervenções públicas em defesa dos protestos das mulheres iranianas nos últimos anos. Satrapi nunca deixou de entender a arte como uma forma de intervenção no mundo.
Numa época em que a neutralidade se apresenta frequentemente como uma virtude, ela escolheu tomar partido. Não a partir do slogan nem do panfleto, mas a partir de algo muito mais difícil: a complexidade. Recordando-nos, uma e outra vez, que os seres humanos são sempre mais contraditórios do que os rótulos com que tentamos classificá-los. Penso nisto enquanto releio algumas das suas páginas. Em como conseguiu que uma história profundamente pessoal se tornasse património coletivo. Em como transformou recordações familiares em memória política. Em como conseguiu que milhões de leitores compreendessem que a liberdade não é uma abstração solene, mas uma soma de gestos quotidianos: uma canção ouvida às escondidas, uma conversa proibida, uma peça de roupa escolhida contra a norma, uma palavra pronunciada quando o silêncio parece mais seguro. Marjane Satrapi dedicou a sua vida a desenhar essas pequenas formas de resistência. Agora que faleceu, resta a sua obra. E resta também a lição que atravessa todas as suas páginas: que, perante aqueles que pretendem reduzir o mundo a slogans, fronteiras ou estereótipos, contar uma vida concreta continua a ser uma das formas mais poderosas de defender a liberdade.
Déborah García Sánchez-Marín é historiadora, apaixonada do mundo audiovisual e nómada. Artigo publicado em El Salto.