A 30 de maio de 2026, faleceu Brooklyn Rivera (73 anos) como preso político do regime Ortega-Murillo. Era um dos mais importantes representantes das minorias étnicas miskitu e da população afrodescendente da Nicarágua. Desde a sua detenção, a 29 de setembro de 2023, encontrava-se na condição de “desaparecido à força”, tendo sido mantido desde então em cativeiro, em absoluto isolamento e sem qualquer informação sobre o seu estado de saúde ou o seu paradeiro.
Apenas três dias antes da sua morte, contudo, o regime divulgou fotografias que já o mostravam sob ventilação artificial e alimentação intravenosa. A declaração do Ministério do Interior que acompanhou essas imagens sugeria que ele já se encontrava em agonia naquele momento.
O Gabinete dos Direitos Humanos da ONU manifestou as mais sérias dúvidas quanto às circunstâncias oficialmente apresentadas para a sua morte e exige uma investigação independente deste caso. Dora María Téllez, que esteve presa ela própria durante 20 meses em regime de isolamento, declarou que Brooklyn Rivera sucumbiu às más condições higiénicas, ao isolamento total, à tortura daí resultante, à alimentação deficiente e à falta de cuidados médicos na prisão, razão pela qual a sua morte deve ser caracterizada como um homicídio deliberado do regime.
Nunca existiu qualquer mandado de detenção contra ele. Não existe qualquer declaração oficial do governo ou do sistema judicial indicando as acusações que lhe teriam sido imputadas. Desde a sua detenção, todos os pedidos de informação por parte dos seus familiares e qualquer contacto com ele foram recusados.
Desde a sua detenção ilegal, os seus familiares exigiam receber um prova de vida e poder falar com ele. Agora, após quase três anos, tiveram de tomar conhecimento da sua morte através da Internet. Mas nem sequer os seus restos mortais foram entregues à família. Mesmo morto, continuou a ser um sequestrado.
Seis familiares que pretendiam receber o seu corpo para o sepultar em Sandy Bay, na Costa Atlântica, foram detidos no caminho para Manágua, porque o regime Ortega-Murillo temia protestos públicos, caso o funeral tivesse lugar na sua terra natal. O seu paradeiro atual ainda é desconhecido.
Em vez disso, o governo ordenou um funeral organizado por si próprio na capital, no qual participaram, de forma cínica, também representantes do governo. Numa declaração, a copresidente Murillo chegou agora a nomear Rivera um “irmão”, cuja morte lamentava profundamente.
Brooklyn Rivera já era, no início da Revolução Sandinista em 1979, um destacado representante da minoria étnica miskita na Nicarágua. Foi cofundador da organização MISURASATA, sigla de Miskitu Sumu Rama Sandinistas Asla Takanka - Todos Juntos.
Impulsionadas por uma intensa propaganda dos Estados Unidos e agravadas pela atitude autoritária de alguns sandinistas em relação à população indígena da costa atlântica, surgiram rapidamente tensões e conflitos entre o governo revolucionário e os miskitos. Quando estes passaram também a defender a autonomia da região atlântica, ocorreram confrontos armados que provocaram vítimas mortais de ambos os lados a partir de 1981.
Contudo, após fortes críticas internacionais, o governo sandinista iniciou um diálogo com os miskitos que conduziu inclusivamente à elaboração conjunta de um estatuto de autonomia que, naquela época, constituía um padrão exemplar do tratamento de minorias étnicas.
Este processo, que se prolongou durante vários anos, deu igualmente origem, no seio da comunidade miskita, a diferentes organizações de resistência. Uma parte estava disposta a colaborar com os Contras financiados pelos Estados Unidos, enquanto outra parte, à qual Rivera pertencia, rejeitava categoricamente essa colaboração e aderiu à Aliança Revolucionária Democrática (ARDE).
Brooklyn Rivera fundou mais tarde a organização miskita YATAMA e procurou sempre encontrar um caminho pragmático entre os dois grandes blocos políticos, a FSLN e as forças liberal-conservadoras, tentando sempre orientar-se principalmente nos interesses do seu povo. Foi assim que voltou a ser eleito para o parlamento nas totalmente antidemocráticas “eleições” de 2021, onde chegou mesmo a cooperar parcialmente com a FSLN ditatorial. Mas nem isso lhe foi agradecido por Ortega-Murillo, que o lançou na prisão para aí o destruir.