Se Aristófanes estivesse vivo na Assembleia da República esta semana, ele não precisaria de inventar guiões; bastaria praticar o seu famoso onomastì komoiden (o comediar, ridicularizar e atacar nominalmente), porque a política contemporânea portuguesa (e muita da internacional) se transformou na comédia Os Cavaleiros de Aristófanes, um verdadeiro concurso de “vendedores de salsichas”, onde o debate ideológico sério foi substituído por encenações de sobrevivência táctica, onde os discursos se travestem conforme o vento das sondagens. Os nossos decisores políticos hoje adoram construir “Cucolândias” intelectuais, como n`As Aves do comediógrafo do século V a.C., enquanto o país real enfrenta crises profundas de habitação, salários e serviços públicos. Faço aqui a sátira do contraste entre o voo no “escaravelho diplomático” da peça A Paz e o chão que os cidadãos pisam. O ambiente de caça às bruxas, a parafilia por bodes expiatórios e o terreno fertilizado pela “hunger nach dem mythos”, a “fome por mitos”, de que já nos alertava Ziolkowski nos anos 20 do século XX traduz uma sociedade cada vez mais mitofílica, que tanto anseia e espera por um Messias Salvador. Vivemos numa sociedade cada vez mais dominada por cancelamentos e purismo ideológico (o pânico moral), que colonizam, asfixiam e monopolizam o debate político diário no ecossistema das redes sociais (especialmente no X/Twitter), onde a diplomacia morre em favor do insulto rápido. Hoje, nas redes sociais, as elites políticas e os comentadores usam o ataque nominal e a distorção retórica como uma cortina de fumo para evitar discutir desigualdades estruturais (como na comédia As Nuvens).
Os vendedores de salsichas da nossa política, que transladam perfeitamente o que se passava no teatro de Atenas para S. Bento, mostram como como o debate político actual se degradou ao ponto de a governação e a oposição já não discutem visões de sociedade, mas sim o quem consegue “vender o pior produto” com a embalagem mais ruidosa: as cedências orçamentais, o taticismo, a pensão social única, o pacote laboral “Trabalho XXI”, exemplos perfeitos de “produtos de qualidade duvidosa”, que os modernos vendedores de salsichas tentam impingir ao eleitorado como se fosse uma iguaria de luxo, mas cujo objectivo é nivelar as prestações por baixo, diluir direitos contributivos históricos e transformar a segurança social num sistema de caridade assistencialista, em vez de um direito universal retributivo. No palco de Aristófanes, o vendedor de salsichas embrulha os restos e grita na ágora que é o melhor banquete do mundo.
O exemplo desta semana dos vendedores de salsichas de Aristófanes é a já citada pensão social única, vendida sob o rótulo sedutor da “simplificação” e da “modernização administrativa”, mas que esconde - embrulhado na tripa da burocracia – o esvaziamento do carácter universal da segurança social e a transformação de um direito comercializado como caridade com o cinismo ruidoso dos Cléons do tempo de Aristófanes, verdadeiros vendilhões do templo parlamentar. A comédia aristofânica demonstra que a tecnocracia moderna usa eufemismos exactamente com o mesmo objectivo que o “vendedor de salsichas” político usava: empanturrar e anestesiar o povo. Controlo, sufoco colonizações do debate são hoje o menu político oferecido, que se traduzem nas saturações e imposições já denunciadas por Aristófanes. A política em Portugal, hoje, por exemplo, é um verdadeiro talho colectivo onde o retalhar do Estado social mostra uma ponte geográfica temporal clara entre a Antiguidade e a actualidade portuguesa.
Aristófanes diria hoje que o Parlamento Português se resume a ver quem consegue lisonjear, enganar e subornar o Povo com as suas promessas absurdas, onde a aproximação estratégica entre partidos teoricamente opostos e a retórica de “salvação nacional” escondem tão somente os jogos de poder já denunciados por Aristófanes, que dava o “nome aos bois” e onde a sátira nominal funcionava através da onomastì komodein, onde os mais poderosos e ricos eram ridicularizados, deformados e o riso servia para desinflar a arrogância do poder e lembrar aos governantes de que eles prestavam “contas” era ao povo.
Hoje em dia, a proliferação de memes rápidos e soundbites no X (o ex-Twitter) ou no TikTok inverteu este processo. Em vez de mobilizar a revolta contra medidas como a “pensão social única” ou o “pacote laboral XXI”, o riso digital tornou-se anestesiante. Nós rimo-nos do político, transformamo-lo num meme, partilhamos a piada e…a indagação morre ali com a impunidade do vendedor das salsichas.
A grande lição que Aristófanes nos deixa não está apenas na hipergenialidade da sua comédia, mas na função profundamente democrática e responsiva do seu teatro. Na Atenas clássica, a onomastì komodein não era apenas um mero divertimento; era tribunal popular pelo riso. Atacar os demagogos pelos seus nomes próprios em praça pública servia para arrancar a máscara da intocabilidade aos poderosos, devolvendo ao Demos – ao povo comum – o controle político sobre a pólis e suas freguesias. A sátira era um combustível para a vigilância e para a acção colectiva. Hoje, quando transformamos a violência política de propostas como a “pensão social única” numa piada viral de escassos segundos, onde o objectivo desta medida é, e parafraseio uma das vendedoras de salsichas, policiar e marionetizar o pobre para saber se ele ganha o Euromilhões, estamos a domesticar a nossa própria indignação. Há que resgatar a coragem aristofânica de apontar o dedo, nomear os culpados e transformar o escárnio legítimo em mobilização política organizada. Afinal, a comédia só serve a democracia quando não distrai quem é governado.