“We are different, (...) we must not forget that we are all residents of the Earth. We live under the same sky. Therefore, we must live in peace”
Dimash Kudaibergenov (2022)
“Não à guerra -essa é a nossa prioridade” afirmava Aristófanes, pela persona de Lisístrata e das suas companheiras no ano de 411 AEC. …
Com esta introdução, mostro o meu posicionamento que a Humanidade de 2026 não tem imperativamente que estar escravizada na e pela Guerra. A Educação para uma cultura de paz numa sociedade hipercontemporaneizada, trumpificada, fragmentada e polarizada, principalmente pela toxicidade de práticas e acções políticas astronomicamente pornográficas (e não considero estar a usar uma hiperbolização) é, na minha opinião, o motivo pela qual se faz imperativo (re)visitar os Clássicos e transladar para a nossa realidade a consciencialização pan-unificadora que (muitas vezes) a caracterizava. Embora, em abono da verdade histórica, a Comédia de 427 a.C. a 388/6 AEC, a comédia de Aristófanes, com toda a sua utopização e ficcionalidade, mostrasse que, não consciencializada a sociedade numa “solidariedade comunitária”, a H(h)istória voltar-se-ia a repetir (e por incapacidade de aprender com os erros, mesmo). Subentendidamente, está o convite ao meu leitor para o dialogar com a obra do comediógrafo Aristófanes, que muito admiro e que nos pode ensinar bastante a entender e a ressignificar democraticamente os “loucos anos 20” do século 21.
Sendo um artigo de opinião, e por esse motivo não me estendendo muito, a Humanidade desde 2016 e, principalmente, desde 2019 (quem não ouvia o “mito do excepcionalismo português”), mergulhou numa “educação” dominada por demagogos populistas (isto offline), promovidos estes pelo que online chamamos as mano(macho)(women)(facho)esferas. Em Portugal são bastante conhecidos os influencers do “discurso anti-Bruxelas” Numeiro, Mário Machado e o seus 1143, Afonso Gonçalves e os seus incels que se auto-denominam Reconquista, Gonçalo Sousa e outros. No feminino, são bastante conhecidas as “famous” Rita Matias, Maria Vieira, Andreia Viegas, Gisela Sequeira e a famosíssima Maria Helena Costa, “cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas” e…LGBTQIA+fóbica e a prova de que o machismo no feminino em Portugal é percentual e acentuadamente significativo, e aproveitado pelas pessoas auto-denominadas do sexo masculino pelo que a Sociologia e a Psicologia chama a “incompetência estratégica (em inglês, weaponized incompetence), bastante utilizada pelos Xs, os Milllenials (os Ys) mas, principalmente, as pessoas da Geração Z.
Quero também referir, para subsidiar o meu próprio argumento, o assassinado Charles Kirk e os seus Kirk`s Minions, Nick Fuentes e os seus Groypers e Laura Loomer só para apresentar alguns exemplos mais significativos da tentativa ideológica de remasculinização e repatriarcalização da Humanidade.
E qual o denominador que ofereço para enfraquecer e mesmo obliterar esta trindade do discurso incendiário do ódio, materializado no político populista neo-nazista e supremacista da pessoa “branca”, na toxicidade das esferas internéticas, que retroalimentam e se alimentam deste discurso (a omnipotência do algoritmocracia) e na musculação destas ideologias cientificamente infirmadas, conservadoras, excludentes e, não me considerando excessivo, factualmente assassinas do ser ser humano? A resposta, na minha opinião, é a dada por Aristófanes há quase 2500 anos atrás e recuperada a 6 de maio de 2024, nos Estados Unidos: o movimento #Blockout, actuante como uma “guilhotina digital” desta psicopatologia política e internética. Aristófanes, nas suas comédias, era consciente que Paz e Guerra eram indissociadas da Humanidade e que a relação subjugadora da primeira em relação à segunda é o que nos caracteriza como seres únicos e inquantificáveis, o conhecimento e, extensamente, a Educação. Ou seja, num século em que se multiplicam as guerras, também se fertilizam os apelos à paz. Retratos fantasiosos e utópicos como o da Atenas cómica do século V AEC, são inquietamente actuais e desesperadamente modernos, realidades que não se anulam mas, que, ciclicamente, se reproduzem e repetem e cujos actores apenas travestem o nome próprio. Os Trumps, os Putins, os Milei, os Venturas, os Bolsonaros, os Abascals, as Weidels do século 21 são encontrados nos Cléons, nos Hipérbolos, nos Alcibíades, nos Lâmacos do século V AEC, deformadores da democracia e parafílicos de e por uma guerra humanidadicida. Aristófanes, mesmo sendo um conservador e um “Velho do Restelo” dos (g)old times de Atenas, como a esmagadora maioria dos Atenienses da sua época (senão todos), educava para a pacificação da sua Grécia, através de acordos individuais de diplomacia, passerelles de prisioneiros em condições inumanas, subidas ao Olimpo e confrontos constructivos com os próprios deuses e inclusive greve geral de sexo, tudo para o enaltecimento e fazimento de um paz, que não afasta famílias e nem vitima a sociedade. Todas estas estratégias colocadas em cena eram blockouts qualificadores de uma educação e de uma consciência humanas na/para/da paz. E tudo em nome da sanidade mental e do usufruo da boa e bela vida regada de bom vinho e muita alegria, diversão e muito sexo (para muitos religiosos afro-brasileiros, a maior e a melhor “amarração”). Não divorciar Aristófanes e a sua obra sobrevivente do século 20 e, principalmente, do século 21, pode, a priori, para muitos, parecer uma tarefa hercúlea e mesmo sisífica, mas assumo, e exposto o que supracitei, que educar para/na paz no momento presente é, assim como nos anos da guerra que preencheu toda a vida de Aristófanes, a Guerra do Peloponeso (431-404 AEC), uma actividade imperativa para uma educação “fully alive”, não anestésica, priorizadora e consciencializadora da importância da experiência humana. É uma educação direccionada para a heterogeneidade e não idiotização humanas e para a capacidade de se (re)humanizar, enquanto e como cidadãos de um planeta que, embora não único é, até ao momento, o único que chamamos a “nossa casa”. É esta consciencialização para uma Educação e uma Cultura de Paz hasteadas pela ONU, a UNICEF, a UNESCO, a NATO e a EU, e ingredientes políticos e pedagógicos para a materialização da mesma, que apresento com os nossos instrumentos actuais, assim como Aristófanes o fez com as suas fabulações que mostravam o risível do humano. A importância da Paz é um tema imorrível, perene e extremamente actualizado, assim como a trumpificação da humanidade que, iterativamente, a tenta periferizar, silenciar e mesmo apagar. Uma das variantes desta mcdonaldização, em Portugal, aparece na figura risível e paradoxa de André Ventura e os seus Venturofílicos, mas assim como Aristófanes, em Portugal (e no Mundo) inúmeras vozes conclamam pela continuação da democratização da pessoa humana.
Coimbra, 11 de Março de 2026