Violência policial

Justiça para Odair? Sentença é um “estímulo à cultura da impunidade”, diz Vida Justa

16 de junho 2026 - 10:38

O agente da PSP que baleou mortalmente Odair Moniz há dois anos foi condenado a três anos e seis meses com pena suspensa. Movimento Vida Justa critica a decisão do tribunal de Sintra.

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Primeira linha da manifestação "Sem Justiça Não há Paz" em outubro de 2024
Primeira linha da manifestação "Sem Justiça Não há Paz" em outubro de 2024. Foto de António Pedro Santos/Lusa

Foi conhecida esta segunda-feira a sentença do julgamento do agente da PSP que matou o cozinheiro cabo-verdiano Odair Moniz numa rua do bairro da Cova da Moura em outubro de 2024. Bruno Pinto foi condenado a 3 anos e 6 meses de prisão por homicídio com dolo eventual e excesso de legítima defesa. Mas viu a execução da pena ser suspensa por unanimidade dos três juízes, que também extinguiram a pena de suspensão de funções, atribuindo à PSP a tarefa de decidir se o polícia condenado irá ou não voltar ao serviço.

O tribunal deu como provado que Odair Moniz não empunhou uma faca e que agrediu os dois agentes que o tentaram deter antes de Bruno Pinto ter disparado os dois tiros que o mataram. As agressões sofridas serviram de atenuante, bem como o arrependimento mostrado pelo agente em relação aos disparos e um depoimento que os juízes consideraram “sincero”, apesar de Bruno Pinto ser o único a afirmar que viu uma lâmina nas mãos de Odair.

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Para Flávio Almada, do movimento Vida Justa, a decisão do tribunal “representa uma continuidade histórica da cultura de impunidade deste país”, ao não ditar a prisão efetiva do agente da PSP, transmitindo assim “uma validação de que a morte das pessoas negras e pobres da classe trabalhadora não constitui uma perda social”.

O ativista previu em declarações à agência Lusa que o país vai assistir a “uma intensificação de uma cultura de repressão, à medida que aumenta a desigualdade, contra os bairros em particular e contra grupos chamados como grupos racializados”. E acrescenta que o sentido da mensagem que sai do tribunal é “revelador da cultura racista que está dentro das instituições, de que a polícia pode matar pessoas e pode violentar, desumanizar uma comunidade" e fica, assim, “de uma forma impune” e o autor “continua a passear e volta ao trabalho”.

Além da pena suspensa, o agente da PSP foi condenado a pagar um total de 90 mil euros aos herdeiros de Odair Moniz, acrescidos de 220 euros mensais até o filho menor completar 18 anos.

Para Flávio Almada, este tipo de indemnizações são “migalhas” e “o que estava em jogo aqui não é uma questão de indemnização, o que estava no jogo aqui é uma questão de dignidade” da família atingida mas também “de uma comunidade que foi colocada no banco dos réus”. O movimento promete mostrar o seu “descontentamento”, “indignação” e “repúdio” pela decisão.