Violência policial

Dois polícias acusados de tentarem incriminar Odair

15 de outubro 2025 - 14:02

O Ministério Público acusou dois agentes da PSP de terem mentido sobre a presença de uma faca junto ao corpo do cozinheiro cabo-verdiano morto pela polícia na Cova da Moura.

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Vigília realizada a 27 de outubro de 2024 no Bairro do Zambujal com familiares e amigos de Odair Moniz.
Vigília realizada a 27 de outubro no Bairro do Zambujal com familiares e amigos de Odair Moniz. Foto António Pedro Santos/Lusa

O julgamento do processo da morte de Odair Moniz, um cozinheiro de 43 anos nascido em Cabo Verde e residente em Portugal há mais de vinte anos, foi adiado para 22 de outubro, o dia seguinte ao primeiro aniversário do seu assassinato numa rua da Cova da Moura por um agente da PSP, que responde pelo crime de homicídio.

O jornal Público dá conta esta quarta-feira de um outro processo que resultou na acusação pelo crime de falsidade de testemunho a dois agentes da PSP presentes no local da morte de Odair. O Ministério Público acusa-os de terem mentido quando referiram que tinham visto uma faca debaixo do corpo de Odair. A suposta presença dessa faca tinha servido para a PSP, na primeira versão que divulgou dos acontecimentos daquela madrugada, alegar que o agente Bruno Pinto tinha agido em legítima defesa ao balear por duas vezes Odair.

Mas esta versão foi desmentida por outros testemunhos, entre os quais o de outro agente da PSP e de uma médica que assistiu Odair, que afirmaram a certeza absoluta de não estar nenhuma faca debaixo ou junto ao corpo de Odair. As imagens captadas por moradores confirmam a inexistência de uma faca no local. Análises à faca também não confirmaram vestígios do ADN de Odair Moniz.

A dúvida que subsiste - e que o Ministério Público diz não ter esperança de vir a confirmar, o que resultaria em acusações mais graves - é se a faca foi ‘plantada’ no local por algum agente da PSP que a teria na sua posse, ou estaria entre os pertences de Odair numa bolsa que os agentes revistaram e teria depois sido ali colocada de forma conveniente para ilibar o agente que disparou os tiros mortais e incriminar a vítima já falecida.

Nas versões dos agentes da PSP agora acusados, o que acompanhava Bruno Pinto diz que viu a faca quando levantaram o tronco para ver se tinha ferimentos, tendo depois voltado a baixá-lo quando chegou a ambulância. O outro agente, que chegou depois ao local, diz que quando chegou o INEM tirou as bolsas que Odair tinha à cintura e que quando pôs a mão debaixo do corpo sentiu uma faca, não tendo dito nada a ninguém e não se recordando se a retirou ou se a pôs em algum sítio. Um comportamento que o Ministério Público considera “inverosímil”