Colômbia

A situação colombiana e o futuro da América Latina sob o imperialismo trumpista

10 de junho 2026 - 17:04

Um ensaio sobre a atual conjuntura do país durante as eleições presidenciais e os próximos desafios frente aos ataques da extrema direita dirigida por Trump

por

Luana Alves

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comício de Iván Cepeda
comício de Iván Cepeda. Foto publicada nas redes sociais do candidato

Situação geral após 2022 – primeiro governo de esquerda da Colômbia

Em 2022, a Colômbia chamou a atenção do mundo ao eleger o primeiro governo declaradamente de esquerda da sua história. Esse país tão marcado pela violência política, pelos assassinatos de lideranças comunitárias, sociais e partidárias, pela desigualdade social profunda, pelas guerrilhas e pelo peso social e económico do narcotráfico, elegeu um nome da esquerda: Gustavo Petro, um ex combatente da guerrilha M-19, e à época senador da república pelo partido Colombia Humana, junto com a vice Francia Marquez, importante liderança negra nas lutas ambientais e por direitos humanos, vinda do Cauca, estado da costa do Pacífico colombiano, região empobrecida e tradicionalmente excluída do poder político.

Foi um acontecimento surpreendente e carregado de esperança. Assim como toda a América Latina, a Colômbia é palco de sistemática violência contra os que ousam lutar contra as elites económicas, tão profundamente racistas e coloniais. Elites essas que sempre mantêm uma relação de articulação, de ganho mútuo com as forças imperialistas estadunidenses. Por certas especificidades históricas, económicas e mesmo geográficas, que não cabe detalhar aqui, o povo colombiano sempre esteve, em comparação com o resto da América do Sul,  mais particularmente à mercê do intervencionismo norte americano, em especial o intervencionismo militar direto.

Em 2022, estive no segunda volta da eleição que elegeu Petro e Francia, na condição de parlamentar brasileira e membro da Comissão de Internacional de Observação Eleitoral. Com essa mesma condição, retornei a Bogotá agora em maio/junho de 2026, para a primeira volta da eleição presidencial, eleição essa duramente disputada pela chapa do Pacto Histórico, com Iván Cepeda e Aida Quilcué (sucessores de Petro e Francia), pela candidata do uribismo (direita mais antiga e tradicional), Paloma Valencia, e também por Abelardo de Espriella, candidato “outsider” de extrema direita que é a grande novidade desse pleito. Oficialmente, disputavam dez candidatos, mas esses três citados com votação significativa e projeção nacional relevante. Abelardo de Espriella (“El Tigre”, como procurou propagandear-se) conquistou a sua vaga na segunda volta com mais de 43% do eleitorado, quase 3 pontos à frente do negociador de paz, senador e professor universitário Ivan Cepeda, colocado como primeiro em quase todas as sondagens até então.

Colômbia

Resultado eleitoral “surpresa” coloca novos desafios à esquerda na Colômbia

por

Ana Cristina Carvalhaes

05 de junho 2026

O choque da esquerda colombiana foi grande, e a preocupação com a ascensão da extrema direita nesse país também pesa sobre nós. Nesse texto/relatório, quero compartilhar com os camaradas – e com quem se interesse pelo tema – alguns elementos importantes para ajudar na compreensão de como as forças populares, progressistas e de esquerda na Colômbia alcançaram a presidência da república, as implicações desse governo do ponto de vista de avanço da correlação de forças para a classe trabalhadora, a situação atual, e as repercussões do cenário colombiano para a América Latina como um todo, incluindo o Brasil. Lembrando que é uma situação ainda em aberto, com um dinamismo quente e acelerado. A segunda volta, com os candidatos Abelardo de Espriella e Iván Cepeda, está marcada para 21 de junho, e até lá, muitas águas podem rolar. 

Em primeiro lugar, para compreender a vitória de Petro e Francia, é importante olhar para o ano de 2021, ou seja, o ano imediatamente anterior à eleição, quando a Colômbia viveu uma onda de protestos e mobilizações massivas, que levaram milhões às ruas em dezenas de cidades. Vivia-se a pandemia de Covid-19, e o governo do então presidente, o uribista e neoliberal Ivan Duque, apresentou ao parlamento um pacote de reformas antipovo que aumentava a idade da reforma, aprofundava o caráter privado do sistema de saúde, aumentava impostos sobre pobres e classe média, e também a taxação sobre produtos básicos. A justificação de que o aumento de impostos seria para financiar a expansão de um suposto programa de rendimento básico não convenceu o já desgastado povo colombiano, que enfrentava as consequências do neoliberalismo, no contexto da crise pandémica. É fundamental o facto de que essa onda, também chamada de Paro Nacional, ou Estallido nacional de 2021, enfrentou uma dura e cobarde repressão das forças do estado. Foram dezenas de assassinados, feridos e encarcerados, com fontes que relatam centenas de desaparecidos.

O caráter absolutamente político das forças de repressão estatais, tão conhecido por todos nós latino-americanos, é ainda mais complexo na Colômbia. Além das polícias, há também grupos paramilitares, e criminosos em geral que por vezes, em colaboração com governos de direita, atuam na repressão e na matança de lideranças populares e de esquerda. Quando estive em Bogotá em 2022, já se tinha passado quase um ano dessa convulsão social. Ainda assim, por toda parte se via o clamor por justiça aos assassinados e desaparecidos, e sobretudo, na própria campanha de Petro e Francia, sentia-se o calor daquele período de luta. Do ponto de vista programático, e na forma mais “movimento” que a campanha se organizou, via-se o estallido social. Ou seja, na sua forma e no seu conteúdo, a campanha e a vitória do Pacto Histórico estava contaminada pela luta das ruas.  Nos seus discursos, Petro sempre evocava e homenageava os que haviam sido assassinados pelo governo em 2021. Francia vocalizava muitas das reivindicações que surgiram das ruas naquele momento, como o aumento da proteção social e territorial aos povos indígenas, negros e camponeses.

O Pacto Histórico também é fruto desse período. Surgido enquanto coligação de esquerda e popular em 2021, ou seja, não enquanto um partido político em si naquele momento, é forjada nessas lutas de rua. Os grupos Colômbia Humana (de onde vem Petro), o Partido Comunista da Colômbia, a União Patriótica, o Polo Alternativo Democrático, o Movimento Alternativo Indígena e Social (MAIS) e alguns outros partidos/tendências menores compuseram essa coligação que, em 2022, elegeria, já com o nome de Pacto Histórico, Gustavo Petro e Francia Marquez.

Muitos desses grupos são ou relacionam-se com o setor social e político que deu sustentação aos Acordos de Paz de 2012, ocorridos em Havana. Os processos de paz na Colômbia, que culminaram na entrega das armas por parte das FARC- EP (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo), e posterior conformação desse grupo enquanto partido político civil e aberto – hoje o partido Comunes -, foi um processo longo e complexo, fundamental para pôr fim às ações mais violentas das guerrilhas e inseri-las, de certa forma, numa luta política formal, não clandestinizada. Os grupos que compuseram o hoje Pacto Histórico tiveram papel fundamental nesses processos.

O próprio Ivan Cepeda, advindo do Polo Democrático Alternativo, foi um dos facilitadores do diálogo desde 2012, enquanto senador. Ainda que fundamentais, esses processos de paz, na medida em que evidentemente não resolvem todas as mazelas estruturais que originaram e ainda sustentam as razões da violência das guerrilhas em si, são insuficientes. É importante sublinhar, por exemplo, que um setor minoritário e mais degenerado das FARC-EP não entregou as armas, e continuam a dedicar-se ao controlo de rotas de narcotráfico, à mineração ilegal, à extorsão de comunidades rurais. O governo de Gustavo Petro continua a ter de responder às contradições geradas por esses setores. Muitos desses grupos, ainda que sejam evidentemente setores degenerados e dedicados puramente à auto-reprodução por meio de atividades que extorquem e oprimem a classe trabalhadora, em especial aquela mais empobrecida e rural, autodenominam-se marxistas e revolucionários.

Ainda que insuficientes, o marco histórico que são esses acordos de paz são reivindicados pelo Pacto, que tanto na campanha de Petro e Francia quanto na campanha de Ivan e Aida colocam o tema da paz com grande destaque. Nos jingles, nas palavras de ordem, nos motes de campanha, a palavra “paz” não é trazida de forma abstrata, mas é uma referência a essas negociações, que eram na época, e continuam a ser, atacadas e deslegitimadas pelos setores conservadores e de direita.

O governo do Pacto Histórico, iniciado em 2022, representou um avanço do ponto de vista de conquistas para a classe trabalhadora. Com contradições, é claro, visto que não são poucas as vozes que criticam as negociações e concessões que o governo faz com o parlamento, mais conservador. O Pacto Histórico também elegeu uma onda de parlamentares progressistas, e hoje é a maior força do Senado colombiano, mas não chega a ser maioria. O facto de serem a “maior força”, como sempre afirmam inclusive nas reuniões e espaços internos que pude acompanhar, do que me parece, deve-se mais à fragmentação dos grupos liberais, conservadores e mais fisiológicos do que ao tamanho do PH.

Colômbia

Extrema-direita é agora a favorita nas presidenciais da Colômbia

por

Miguel Fernández Ibáñez

01 de junho 2026

Apesar dessas negociações, é evidente que Gustavo Petro utilizou sistematicamente o método de chamar o povo às ruas para tentar aprovar leis e reformas em benefício da classe trabalhadora. Nesse sentido, diferencia-se de outras experiências de governo na América Latina, como é o caso do próprio PT no Brasil. Uma reforma laboral aprovada em 2025, por exemplo, com vários avanços no que diz respeito à jornada de trabalho, salário mínimo, e combate à precarização gerada pela plataformização dos postos de trabalho, foi aprovada com gente nas ruas, convocados pelo próprio governo. O impacto dessa reforma, porém, apesar de grande, é limitado pela proporção de trabalhadores colombianos na informalidade, principalmente a juventude. Também se registaram avanços significativos na proteção a territórios indígenas, camponeses e afrocolombianos.

A postura internacional de Gustavo Petro também foi bastante radicalizada, enfrentou com altivez as ameaças imperialistas norte-americanas e defendeu firmemente o povo palestino. Uma das políticas permanentes durante o governo era a “ameaça” de convocar uma Assembleia Nacional Constituinte, para mudar a constituição colombiana. A atual constituição do país é de 1991, e foi montada num momento político de melhor correlação de forças para o conservadorismo e para o neoliberalismo. Essa “ameaça” de Petro, feita em diversas ocasiões, do que me parece, ficou uma espécie de “truco” para quando os setores conservadores do parlamento colombiano se opunham às medidas progressistas. A não realização dessa Constituinte, porém, é também uma certa frustração para setores que seguem lutando pela base por mudanças mais estruturais.

O tema da sucessão em 2026, o contexto de intervencionismo de Trump na América Latina e a ascensão da extrema direita

A escolha da sucessão de Petro e Francia foi um tema que se relaciona com a própria transição do Pacto Histórico, de coligação eleitoral para partido político. Apenas em 2025, três anos após a vitória de 2022, o Pacto Histórico passa por um processo de unificação que, além de formalmente dissolver os grupos que compuseram a coligação, permite uma tomada de decisão coletiva sobre nomes, processo que exige organização de prévias internas, organização de filiados, e existência de instâncias internas de direção e execução. As razões políticas para essa demora (se é que demorou) exigiriam uma análise mais aprofundada. Enquanto observadora internacional, com oportunidade de dialogar com uma certa diversidade de militantes, entrei em contacto com diferentes visões sobre a questão. Em resumo, é possível dizer que todos reconhecem que o funcionamento anterior dos diferentes grupos que compõem o agrupamento, funcionamento esse anterior ao PH, é bastante arraigado e demora a ser modificado.

Existe unidade programática importante, mas os diferentes setores de atuação, seja geográfico, seja nas diferentes camadas da população em que os grupos atuam, além das diferentes tradições organizativas e teóricas, são parte dessa temporalidade. De qualquer modo, existiu um processo de primárias ocorrido em março de 2026, em que dez nomes se apresentaram para a posição de candidata/o a presidente. É importante referir que, na Colômbia, a reeleição presidencial não é permitida. Uma nova Assembleia Constituinte permitiria uma alteração legal que autorizasse uma nova candidatura de Petro, mas, embora cogitada, essa possibilidade não foi levada a cabo. A mim, pareceu-me que essa questão é uma espécie de tabu, e uma iniciativa como essa poderia ser encarada como uma ação autoritária e/ou personalista.

Entre os dez nomes, Iván Cepeda foi eleito como candidato à presidência, e Aida Quilcué como candidata à vice -presidência. Ivan, advindo do Polo Democrático Alternativo (antes do PH) era senador, é um nome conhecido no enfrentamento ao uribismo, tem um perfil mais intelectualizado, e teve um papel fundamental nas negociações para os Acordos de Paz de 2012. Aida Quilcué, advinda do MAIS (antes do PH) também senadora até então, é uma reconhecida liderança indígena, também do Cauca, com grande histórico de lutas pela terra. Do que pude sondar, não me pareceu que os pré-candidatos não eleitos formaram nenhum tipo de fração. Muitos deles inclusive passaram a ter posições de destaque na direção da campanha de Ivan e Aida.

Outro dado importante e preocupante das eleições colombianas é o método de votação: vota-se marcando a preferência num papel impresso que é então depositado numa urna de papelão, mas a contagem dos papéis é feita de forma digital, com um software de propriedade privada. A lista de votantes é organizada a partir de um órgão chamado Registradoria Nacional, uma espécie de unificação nacional do que seriam os nossos cartórios de registo. Não há Justiça Eleitoral. O principal facto logo após o resultado dos números da primeira volta – que na verdade é um “pré-conteo”, ou pré-contagem -, é que Petro foi à imprensa dizer não reconhecer o resultado, chamando a atenção sobre o risco que o software privado traz para a segurança do processo.

Foi uma declaração dura, e bastante ousada. Foi possível perceber, estando in loco na apuração, que a declaração foi também uma certa surpresa para alguns militantes e dirigentes do PH. A acusação, porém, não é nada infundada. Os donos da empresa que detém o software são os irmãos Felipe, Camilo e Fernando Bautista, conhecidos por apoiarem a extrema-direita, por fraude fiscal em diversos países e por operarem em conjunto com o narcotráfico. O grande desafio do PH, nesse momento, me parece ser, de forma concomitante, conseguir combater e reverter uma possível fraude, mas  também reconhecer que existiu crescimento orgânico real da popularidade de Espriella, e conquistar mais votos para Ivan e Aida. Uma outra característica do método de votação colombiano é que a eleição para legisladores (Senado e Câmara Baixa) é separada da eleição presidencial, tendo ocorrido agora em março de 2026. O resultado eleitoral do PH foi bastante positivo, com aumento importante número de assentos, inclusive com quadros jovens eleitos.

Para nós, brasileiros, que estamos acostumados com as eleições proporcionais acompanhando e inclusive “carregando” candidatos maioritários, foi diferente presenciar um clima eleitoral um tanto mais “baixo perfil”. Outra diferença importante dessa eleição, em relação a 2022, é que o clima estava menos tomado pelo espírito das ruas que contaminou a campanha de Petro e Francia, ocorrida pouco após o estallido social de 2021. Essa diferença não me parece ser nenhum tipo de rebaixamento programático, mas uma diferença na forma, resultado possivelmente da própria distância temporal daquele período.

O contexto global que é cenário de fundo das eleições colombianas em 2026 é, evidentemente, a renovação imperialista do governo do neofascista Trump. Para além das sanções económicas e tarifaços, o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores é um facto que marca de maneira definitiva o retorno com tudo da Doutrina Monroe. Colômbia e Venezuela, países vizinhos, possuem laços muito profundos. A política intervencionista americana, com o pretexto de “combate ao narcotráfico”, e “combate ao terrorismo”, atinge em cheio a Colômbia.

Alguns dos vídeos publicados por Trump nas suas redes sociais pouco antes do sequestro de Maduro, exibindo explosões de barcos que supostamente estariam transportando drogas pelo Caribe em direção aos EUA, eram na realidade a matança de civis pescadores colombianos, que não tinham nenhum tipo de investigação e muito menos julgamento formal no seu país. Ainda que o Pacto Histórico não tenha um alinhamento total com o regime venezuelano, existe uma relação política significativa, e o sequestro de Maduro e posterior tutela estadunidense sobre o governo venezuelano significa um aumento do isolamento e do risco à segurança na Colômbia.

A intervenção americana é, claro, não para por aí. Numa camada mais subterrânea e difícil de ser combatida, as bigtechs atuam de forma a facilitar operativos de desinformação em massa, perpetrados pela extrema-direita. Nas semanas e dias imediatamente anteriores à primeira volta, a campanha do Pacto Histórico detetou o disparo em massa de mensagens e conteúdos para a população colombiana, vinda de fora (Estados Unidos e estado espanhol), para dentro. Esse operativo era em benefício de Abelardo de Espriella, o outsider da extrema-direita, que tem um discurso e estética que lembram figuras como Milei ou mesmo Pablo Marçal. Abelardo, assim como Bolsonaro em 2016, candidatou-se por um partido de direita com pequena expressão. As redes sociais de Espriella também tiveram um crescimento no alcance anormalmente grande. O uso de fake news, com uso de IA, como a acusação propagada pela campanha de Espriella de que Ivan Cepeda seria um viciado em drogas, foi utilizado sem nenhum tipo de regulamentação ou limite.

O tema principal do conteúdo político da extrema-direita na disputa eleitoral colombiana me pareceu ser o tema da segurança pública. “Requentaram”, da antiga direita uribista, a acusação que Ivan e Petro são guerrilheiros terroristas, deslegitimam os acordos de paz de 2012, apresentando-se com os que podem de facto derrotar a violência a partir de repressão estatal bruta, ao invés de acordos e negociações, agora podendo apresentar uma promessa de “parceria” com o governo Trump para derrotar militarmente esses grupos. Lembrando que a presença militar norte-americana não é exatamente uma novidade na Colômbia, sendo vista, talvez, com menos temor pelas camadas da população que não a sentem diretamente, ou seja, não vivem nos setores mais remotos onde ela opera. Além disso, Espriella utiliza largamente os discursos moralmente conservadores, atacando constantemente a luta das mulheres, as lutas antirracistas e LGBT+.

Eleições na Colômbia

Os segredos de Petro

18 de maio 2026

Os companheiros do Pacto Histórico, nas reuniões que acompanhei, parecem visualizar Espriella como um aventureiro a serviço de Trump, dirigido pelo uribismo. Reafirmam que a direita tradicional colombiana perdeu força e popularidade, vide a votação diminuta de Paloma Valencia frente à grande estrutura de campanha que teve, e entendem que esse setor utiliza de forma oportunista a “cara” de Espriella como uma tábua de salvação. Creio que essa acusação, de certa forma, supervaloriza o peso da direita tradicional colombiana, frente ao que é a magnitude do projeto político totalizante da extrema direita global, levada a cabo por Trump, pelas big techs, e por setores da burguesia internacional. Além disso, os 6.8% de votos de Paloma Valencia precisarão ser disputados, e sem dúvida Espriella procurará disputá-los, possivelmente vendendo-se como mais moderado do que de facto é.

Ainda que, numericamente, Ivan e Aida tenham tido um recorde de votos para a esquerda colombiana, existiu uma queda importante em diversos lugares. Em Bogotá, que costuma votar mais à esquerda, houve uma perda de 5 pontos, em relação à votação de Petro em 2022. O mesmo se repete em Barranquilla, que também costuma votar mais à esquerda. A ampliação dos votos do PH, numa análise mais preliminar, parece vir de cidades menores e de departamentos (estados) mais afastados, com presença mais massiva das bases populares e racializadas que o PH logrou mobilizar. Esse dado traz a reflexão que, talvez, os setores da juventude mais urbana foram menos mobilizados do que o necessário. Um outro desafio é ampliar a votação a partir dos setores que se abstiveram. Esse é um amplo setor, e a disputa está em aberto. A participação eleitoral não é obrigatória na Colômbia, e, nessa primeira volta, o índice de participação foi de 56%.

“Combate ao terrorismo/narcotráfico” – receita para a América do Sul e nossos desafios

Ainda que o baque pelo resultado eleitoral da primeira volta da eleição colombiana possa levar a prognósticos pessimistas – cheguei a ouvir na reunião de balanço da campanha, realizada na segunda-feira logo após o domingo de eleição, um discurso no tom “vitória política, derrota eleitoral” – ainda é prematuro fazer grandes previsões. O jogo está totalmente em aberto. Porém, vale fazer algumas reflexões, inclusive pensando na situação do Brasil.

O governo de Petro inspirou-nos ao executar o método, que sempre defendemos, de confiar nas forças do povo, e não em negociações de gabinete com elites políticas, para arrancar vitórias parciais para a classe trabalhadora. Essa linha, que é diferente do setor progressista maioritário no Brasil, mostrou-se acertada ao manter uma política permanentemente aquecida, e ser eficiente na aprovação de muitas dessas vitórias. Além disso, o fortalecimento dos movimentos sociais que são parte ou orbitam em torno do Pacto Histórico é absolutamente estratégico. É evidente que a luta antirracista na Colômbia está agora noutro patamar, muito mais elevado. Para além da questão da representatividade, o que foi trazido de forma quase unânime por companheiros de diferentes linhas e tendências é que há uma ampliação da base social que se organiza na luta por medidas de ações afirmativas, e por políticas formais de defesa de territórios de comunidades tradicionais. Essas exigências, longe de serem parciais, colocam a luta no centro do combate ao agronegócio, aos grileiros e ao próprio narcotráfico.

O tom das conversas que foi possível realizar com militantes de diversos setores do PH nos dias imediatamente anteriores à votação contrastou com o resultado eleitoral. Os companheiros estavam bastante otimistas, e a campanha apostou na linha de vitória na primeira volta como possibilidade real. Esse desajuste pode ser fruto de vários fatores. Mas o mapeamento da própria votação dá-nos pistas: pareceu existir uma influência crescente da extrema direita via redes sociais, em especial em parte da juventude e nos homens moradores de cidades maiores. Além disso, há uma preocupação significativa com o tema da segurança pública. Poucos dias antes da primeira volta, um conflito entre duas frações de dissidentes das FARC-EP estourou na Amazónia colombiana, com resultado de mais de 50 mortos. A questão, ao que parece, era a disputa pelo controlo de rotas do tráfico de drogas.

Esse assunto foi bastante comentado em todo o país, e do que parece, assim como ocorre por aqui, os vídeos e fotos sangrentos e terríveis desse conflito chegaram nos telemóveis de todos os colombianos. A linha narrativa da extrema-direita, que utiliza o medo gerado pela sensação de insegurança pública, ampliando esse sentimento e oferecendo a solução “linha dura”, parece ser padrão em toda a América Latina. Essa fórmula antiga agora ganha um novo fôlego com Trump, que busca fortalecer aliados locais com a política de ameaçar utilizar, ou utilizar de facto, forças militares norte-americanas contra os tais narcotraficantes e terroristas. Sabemos é claro o cinismo dessa linha, vide a relação umbilical entre setores da extrema-direita, e grandes empresários, com o próprio narcotráfico, tanto no Brasil quanto na Colômbia, e em outros países da região. Mas o apelo popular dessa promessa continua forte, vide a comemoração nos setores bolsonaristas radicalizados quando o governo estadunidense declarou o PCC e o CV como grupos terroristas, abrindo a possibilidade de atuação militar direta.

O desafio da esquerda colombiana, hoje, é o desafio de todos nós. Vencer as táticas sujas da extrema direita trumpista para a América Latina, com a sua política que fortalece as elites neoliberais locais, massacra as organizações da classe trabalhadora e acaba com nossa soberania, é uma questão de sobrevivência. É fundamental que, nos próximos dias, setores progressistas de todos os países, mas em especial os governos de Brasil e México, exerçam solidariedade ativa com a campanha do Pacto Histórico, tanto com declarações de apoio formal, como operando de forma prática iniciativas de apoio, como ajuda no campo da comunicação digital.

O peso da desinformação propagada via big techs, independentemente do resultado eleitoral da Colômbia, também merece uma reflexão coletiva e internacionalista. Se essas plataformas são veículo de tentativas de sabotagem à soberania dos países, será que elas devem continuar com tão pouca regulação? Se não são (ou declaram não ser) capazes de filtrar conteúdos falsos ou incitadores de violência, será que deveriam ser autorizados a operar nos países? Uma ação mais firme, mais restritiva, contra essas grandes empresas deveria ser tomada, a meu ver, de forma conjunta entre países especialmente atingidos por esse fenómeno, como o próprio Brasil, Colômbia, México, e mesmo estados da União Europeia, que inclusive já passam a debater medidas como restrição do uso dessas plataformas por menores de idade.

É importante que os nossos olhos estejam atentos para os próximos dias que viverá a Colômbia. Os companheiros do Pacto Histórico, além de representarem um farol de esperança para a construção de uma esquerda que aposta na mobilização do povo para conseguir vitórias e levanta a cabeça diante de ameaças imperialistas, também estão plenamente cientes do impacto que o resultado terá sobre o resto da América Latina. Possuem uma especial preocupação com o Brasil, e, independentemente do resultado, já disseram estar à nossa disposição para combater e derrotar o bolsonarismo podre que tentará sequestrar de volta a presidência do Brasil, contando com isso com todo o apoio da extrema direita imperialista norte-americana que hoje a esquerda colombiana duramente enfrenta.


Luana Alves é psicóloga sanitarista do Setorial de Saúde do PSOL e vereadora da cidade de São Paulo. Artigo publicado na revista Movimento. Adaptado para português-pt pelo Esquerda,net