A actriz, dramaturga e encenadora Sara Barros Leitão é já sobejamente conhecida do público mais frequentador do Teatro Viriato. Em Dezembro de 2021, apresentou o "Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa", que, partindo do texto homónimo inserido nas "Novas Cartas Portuguesas" ( livro de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, editado em 1971, que se tornou um ícone literário e feminista), aborda a criação do primeiro Sindicato de Serviço Doméstico em Portugal e o trabalho invisível que limpa a sujidade do mundo. Em Julho de 2023, Sara Barros Leitão dirigiu no Teatro Viriato o "Parlapatório", uma oficina sobre a livre oratória em assembleias, debates parlamentares, democracia, mais dirigida a jovens e maiores de 65 anos. Em 20.04.2024, trouxe ao Teatro Viriato "Guião para um país possível", uma revisitação dos 50 anos de democracia em Portugal, a partir das transcrições dos discursos e debates na Assembleia da República.
Agora, a encenadora de "Suplicantes" inspirou-se no filme "Eu Capitão", de Matteo Garrone (candidato aos óscares 2024), exibido em grande ecrã no Teatro Viriato, no dia 19 de Maio, a abrir a iniciativa do director de Programação, António M. Cabrita, "Cinema de Inspiração", para escrever uma dramaturgia com citações daquela longa-metragem baseada em relatos de migrantes que partindo de África em busca do sonho europeu, atravessam o deserto do Sahara, sofrem as prisões na Líbia, as extorsões e violações das máfias do tráfico humano (que se aproveitam da ignóbil e desumana criminalização europeia das migrações) e correm sérios riscos de naufrágio na travessia do Mediterrâneo. O filme foi um óptimo incentivo para a interessante conversa, depois da exibição, entre Sara Barros Leitão e o público do Teatro Viriato, a convocação da encenadora.
A peça chegou ao palco quatro dias depois, a 23 de Maio, com uma cenografia minimalista, mas bastante sugestiva e eficaz do ponto de vista da encenação. Começa com a personagem muito bem interpretada por Ricardo Vaz Trindade, a entrar em palco em calções, sapatilhas e uma pequena mochila, como se viesse do ginásio, ou do "jogging", directamente para o seu gabinete no Parlamento Europeu, a ser interrompido, na mudança para a indumentária de eurodeputado, pela entrada em cena de um jovem negro carregando às costas uma mochila expansiva amarela usada pelos estafetas de entrega de comida. O jovem imigrante diz que tem uma encomenda para lhe entregar, mas o outro nega ter feito qualquer encomenda. O estafeta insiste. O eurodeputado chama uma assessora (interpretada por Lígia Roque) para o expulsar. O estafeta não arreda pé e narra o que passou para ali chegar, desde que saiu do seu país (aqui começam as citações do filme). O outro pega no telemóvel e prova que não tem registado qualquer encomenda feita ultimamente. O estafeta diz que o pedido foi feito há dez anos, mas que só agora conseguiu chegar, devido à odisseia que teve de enfrentar e às medidas que dificultam a regularização documental. O eurodeputado perde toda a compostura e desenvolve o discurso xenófobo que ouvimos todos os dias na rua, nos "media" e nas redes sociais. A assessora ousa apoiar o estafeta, numa exemplar solidariedade. O paradoxo de querer cobrar pela entrega, com dez anos de atraso, de uma encomenda de um bem perecível em horas ou poucos dias, remete, porventura, para a dívida histórica dos países desenvolvidos graças à acumulação das riquezas saqueadas aos povos colonizados e escravizados, a carecer de reparação.
Até que se muda de registo, embora de forma não abertamente disruptiva, e Ésquilo é convocado para o palco, 2.500 anos depois de ter escrito "As Suplicantes", peça de 468 a.C., a primeira de uma tetralogia (três tragédias e um drama satírico) de que só esta sobreviveu entre as sete que chegaram até nós, das cerca de noventa obras que escreveu em versos que mereceram vários prémios nos jogos teatrais. Curiosamente, mais de 40 anos depois, Eurípedes escreveu uma tragédia com o mesmo nome, onde também aborda os valores humanos (leis pan-helénicas), tais como a hospitalidade devida aos estrangeiros, aos suplicantes de asilo e aos suplicantes do dever de sepultar o mortos (que Sófocles também trata em "Antígona, já não de forma de luta colectiva, mas antes como "imperativo categórico" - "avant" Kant - da consciência individual).
Ésquilo, em "As Suplicantes", conta a história das 50 filhas de Dânao que atravessam os mares para fugirem ao casamento forçado com os seus 50 primos filhos de Egipto, irmão de seu pai. Chegadas a Argos, uma das mais antigas cidades-estado da Grécia, o rei Pelasgo hesita entre desobedecer a Zeus, deus protector dos viajantes e suplicantes, para não provocar uma guerra com o Egipto, ou seguir a sua consciência, e decide submeter a decisão à assembleia de cidadãos da cidade que vota, por unanimidade, a favor do acolhimento e protecção das "danaides".
A elevação moral do rei Pelasgo e dos cidadãos de Argos devia envergonhar os dirigentes dos países que hoje erguem muros para conter imigrantes que estigmatizam e criminalizam, obrigando-os a correr riscos de vida em rotas assassinas, como a que tem transformado o Mediterrâneo num "mar de extermínio" (só este ano já morreram até agora, em naufrágios, cerca de mil migrantes, fora os desaparecidos, vítimas de embarcações precárias e sobrelotadas e dos obstáculos criados por vários países nas operações de busca e salvamento), bem como devia merecer a reflexão dos nossos concidadãos contaminados com o vírus da xenofobia.
Volto à peça (que teve em palco uma intérprete de Língua Gestual Portuguesa) para deixar um destaque merecido a Sandro Feliciano, no papel de imigrante/estafeta. Este português nascido em Lisboa de pais cabo-verdianos que não chegou a conhecer (foi adoptado aos dois anos por um casal), também se notabilizou como o músico "Malammore", e já integrou o elenco do Teatro Nacional Dona Maria II em várias peças, mostrando aqui, de novo, as suas promissoras qualidades de actor.
Artigo publicado originalmente na minha coluna "Pó de Palco", no jornal "Via Rápida" de 4.06.2026