Colômbia

Extrema-direita é agora a favorita nas presidenciais da Colômbia

01 de junho 2026 - 11:16

A segunda volta das eleições presidenciais será disputada a 21 de junho por Abelardo de la Espriella, que surpreendeu este domingo com 43% dos votos, e Iván Cepeda, com 41%. Gustavo Petro denuncia uma possível fraude de mais de 800.000 votos.

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Miguel Fernández Ibáñez

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Apoiantes de Abelardo de la Espriella
Apoiantes de Abelardo de la Espriella. Foto publicada nas redes sociais do candidato

A primeira volta das eleições presidenciais realizadas este domingo na Colômbia colocou o candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella na posição de favorito. Com 43,7% dos votos, o resultado do candidato de extrema-direita foi muito melhor do que o previsto pelas sondagens, em parte devido ao fraco desempenho da candidata uribista Paloma Valencia, que ficou-se pelos 6,9%. O seu rival na segunda volta presidencial será o candidato da esquerda Iván Cepeda,que, com 40,9%, precisará de tecer novas alianças para chegar à Casa de Nariño. Assim, no próximo dia 21 de junho, a sociedade colombiana terá de escolher entre duas visões antagónicas do mundo: a de Cepeda, que é social, coletiva e centrada nas pessoas desfavorecidas; ou a de De la Espriella, que é liberal, de punho de ferro e marcadamente individualista.

Ficaram fora da equação presidencial a uribista Paloma Valencia e o centrista Sergio Fajardo, tendo este último obtido um milhão de votos (4,2%), o que demonstra a fidelidade de apoiantes que, tal como o próprio Fajardo, não mudam de opinião de acordo com as tendências. Juntamente com aqueles que optaram por se abster, os eleitores destas duas formações serão decisivos para a segunda volta presidencial.

O problema para Cepeda é que se estima que grande parte dos votos de Valencia iria para De la Espriella, pelo que a sua recuperação passaria por procurar uma aliança com Fajardo, conseguir que mais pessoas se deslocassem às urnas e esperar que os eleitores de De la Espriella se arrependessem. Como motivo de esperança para o Pacto Histórico (PH), a candidatura de Valencia já está a dividir-se: embora a uribista rejeite Cepeda, o seu candidato a vice-presidente, Juan Daniel Oviedo, garantiu que não apoiará um “machista homófobo” como De la Espriella. Oviedo é homossexual e, nas eleições setoriais da centro-direita, obteve mais de um milhão de votos. Assim, se a candidatura Valencia-Oviedo obteve ontem 1,6 milhões de votos, a questão é saber quanto desse apoio provém do uribismo e quanto provém de Oviedo.

Além disso, Gustavo Petro afirmou que não reconhecerá o resultado da pré-contagem da empresa privada que gere o software, à qual acusou de ter alterado o recenseamento em 800 000 pessoas. “Existem duas contagens neste momento, a oficial e a do software dos irmãos Bautista, que tem mais 800.000 pessoas”, publicou na rede social X. “Portanto, os resultados vinculativos que o presidente irá considerar e aceitar são os das comissões de apuramento dirigidas pelos juízes da República”, afirmou.

Gabriel Becerra, deputado do PH, explicou ao El Salto há alguns dias o motivo das suspeitas de fraude. “Apoiamos a posição do presidente, que não se baseia em juízos políticos, mas sim em provas. Os sistemas de processamento de dados pertencem a empresas privadas, que invocam a propriedade intelectual e não permitem o acesso ao código-fonte nem a auditorias. Os factos demonstram que se perderam votos”, salientou. “O que exigimos é que esse software seja do Estado, para que todos os partidos possam ter acesso. Dizem-nos que ‘vocês ganharam com esse software’, mas, por exemplo, da última vez recuperámos quatro ou cinco lugares no Senado; recuperámos 600.000 votos e fizemo-lo reclamando”, sublinhou, refletindo uma injustiça que, graças à insistência, foi corrigida. Por isso, a esquerda tem aí votos potenciais e significativos a conquistar, embora, ao mesmo tempo, esta situação augure momentos de tensão social, sobretudo se o vencedor da segunda volta o fizer por uma margem estreita.

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Consistência na esquerda

Apesar do sabor amargo do resultado, o PH não só conseguiu manter o núcleo dos seus eleitores, como atraiu pessoas que desconfiavam das intenções de Gustavo Petro. A Colômbia não se transformou em Cuba ou na Venezuela e o modelo económico, por mais que a direita se esforce por o desacreditar, está a funcionar: o dinheiro flui de baixo para cima e tem efeitos tangíveis no dia-a-dia da sociedade. Por isso, os resultados nas eleições para o Congresso de 8 de março passado e os da primeira volta presidencial demonstraram consistência na esquerda: se compararmos os resultados com os de há quatro anos, o PH passou de 8,5 para 9,6 milhões de votos, com um aumento de apenas meio ponto percentual devido a uma participação histórica de 57,8%, mais três pontos do que em 2022.

O governo cessante de Gustavo Petro tem sido de cunho social e tem-se centrado na dinamização da economia dos setores mais carenciados. Por isso, as medidas implementadas têm ajudado a criar oportunidades e a reduzir a pobreza na Colômbia. As propostas de Iván Cepeda são de continuidade, centradas em dar voz àqueles que nunca foram ouvidos, em manter a aposta na paz total com os diferentes grupos armados e em dinamizar a economia com um Estado que tenha um papel preponderante em setores cruciais. Filósofo e advogado, acima de tudo defensor dos direitos humanos, Cepeda aposta também em reforçar o protagonismo das vítimas do conflito colombiano: ele próprio é uma vítima, uma vez que o seu pai foi assassinado num plano urdido pelos militares, e a sua candidata a vice-presidente, Aída Quilcué, é uma líder da etnia nasa que luta há décadas pelos direitos indígenas e cujo marido foi assassinado por paramilitares.

Apesar do projeto ambicioso, se for eleito presidente, Cepeda deparar-se-ia com os mesmos obstáculos que Petro enfrentou: não controla as instituições que articulam o país nem tem a maioria necessária no Congresso; por conseguinte, as medidas continuariam a ser aprovadas por decreto, enquanto que, para uma mudança profunda e estrutural, precisaria de negociar com outros grupos políticos da Colômbia.

Iván Cepeda a votar na primeira volta das presidenciais
Iván Cepeda a votar na primeira volta das presidenciais. Foto publicada nas redes sociais do candidato.

O uribismo desmorona-se, mas não desaparece

O uribismo obteve um mau resultado: as piores sondagens davam a Paloma Valencia cerca de 14% dos votos. Com 6,9%, é evidente que a estratégia de Álvaro Uribe de se posicionar no centro com a aposta na vice-presidência do economista Juan Daniel Oviedo, que não conseguiu captar votos nas cidades, não funcionou. Nas zonas rurais, mais conservadoras e religiosas, a fórmula desmoronou-se: as pessoas preferiram De la Espriella, um ateu convertido ao cristianismo.

No entanto, e apesar da derrota retumbante, o uribismo não será um mero espectador político. É a segunda força no Congresso e um aliado indispensável para qualquer medida que De la Espriella pretenda implementar. O candidato de extrema direita carece de uma estrutura partidária e a coligação na qual foi incluído conta com apenas quatro deputados. Mais cedo ou mais tarde, terá de negociar com “os de sempre” — a quem tanto criticou durante a campanha — e passar pelo uribista Centro Democrático. Embora a aliança para esta segunda volta presidencial esteja assegurada, mais tarde poderão surgir as disputas próprias da competição pelo mesmo eleitor. O mau resultado faz com que Uribe encare a situação como uma questão de sobrevivência.

A relação entre a família De la Espriella e Álvaro Uribe vem de longa data, cimentada na região de Córdoba, onde o pai de De la Espriella foi político do Partido Liberal. Em 2001, o então pré-candidato presidencial Uribe recebeu o apoio eleitoral de De la Espriella e, anos mais tarde, quando Uribe se tornou presidente, retribuiu o favor à família. De facto, como reflete um perfil de La Silla Vacía, “Abelardo pai celebrou o seu último aniversário com o ex-presidente Uribe e Lina Moreno, num jantar cujo anfitrião foi Abelardo filho”. Estas relações amigáveis podem estar por trás da timidez nos ataques durante a campanha: Uribe limitou-se a sublinhar que De la Espriella pediu para entrar no Centro Democrático, enquanto o ultradireitista afirmou ser o verdadeiro representante do uribismo.

“A doutrina uribista já não pertence a Uribe, nem a Paloma, nem ao Centro Democrático. É um legado para a democracia colombiana. É uma doutrina que não tem dono e o que eu fiz foi acolhê-la e atualizá-la”, reconheceu De la Espriella numa entrevista à revista Semana, na qual destacou o seu profundo respeito por Uribe: “Gosto dele, admiro-o e ele tem sido motivo de inspiração para toda esta batalha patriótica que estou a travar. Precisamos de Uribe na batalha e, onde quer que eu esteja, vou sempre honrá-lo”. De facto, as propostas de Valencia e De la Espriella são semelhantes, e a principal diferença reside nas formas políticas: ela apresenta-se como uma tecnocrata afastada dos extremos, enquanto ele aposta em abraçar esses extremos.

De la Espriella, o auge do tigre

Abelardo de la Espriella, de 47 anos, de luxo opulento na sua vida privada, que em 1997 tentou tornar-se vereador de Chapinero, em Bogotá, é um outsider bem conhecido pelo sistema. Advogado de mafiosos, paramilitares e políticos, também relacionado com Alex Saab, o testa-de-ferro de Maduro, a sua ideologia é o dinheiro e a sua paixão, a fama. A sua estratégia é o espetáculo, e ele estimula os sentimentos primários enquanto ridiculariza os opositores e demonstra o seu machismo com referências constantes aos seus “cojones”. Para além das características pessoais regionais, cumpre à risca o dogma da extrema-direita moderna e, por isso, conta com o apoio dos conservadores cristãos e, oficiosamente, também da ala dura do uribismo.

O líder do movimento Defensores da Pátria, que se autodenomina “el tigre”, é o protótipo do populista que apoia incondicionalmente os Estados Unidos e Israel, que pretende implementar uma segurança ao estilo de Bukele e que detesta o Estado tal como Milei. Por isso, e por carecer de força parlamentar, promete governar à base de decretos. Entre as suas medidas destacam-se a redução do número de burocratas em 40%, a construção de dez megaprisões e o fim dos processos de paz com os diferentes grupos armados que operam na Colômbia. Se se tornar presidente, regressaria o punho de ferro uribista, apesar de, após décadas de conflito, se ter demonstrado ineficaz contra grupos que, atualmente, têm mais a ver com organizações criminosas do que com guerrilhas ideológicas de esquerda. De facto, as propostas de De la Espriella centram-se na antipolítica, no anticomunismo e no antipetrismo, e refletem a deriva ideológica da direita: há décadas, quer se goste ou não, tinha programas de governo reais, enquanto atualmente apenas tem slogans próprios de publicitários.

“As elites deste país vangloriavam-se de serem das mais cultas e ilustradas, e, de certa forma, não estavam assim tão longe da realidade. Durante muito tempo, nas famílias mais abastadas, foi dada grande importância a valores como a educação, a cultura, os bons modos e os princípios republicanos”, recorda o politólogo Federico García Naranjo numa análise da revista Raya. “No entanto, as novas gerações dessas elites políticas, as mesmas que foram criadas sob o paradigma neoliberal da competitividade, do enriquecimento fácil e do triunfo a qualquer custo, claramente não possuem a mesma formação nem o mesmo refinamento das suas antecessoras. Formadas para buscar a eficiência, a produtividade e a mercantilização de tudo o que existe, uma parte dessas elites do século XXI parece mais à vontade na superfície do marketing, da gestão e da opinião instantânea do que na elaboração de um projeto histórico para o país”, acrescenta.

É evidente o antagonismo entre os dois advogados que disputam a presidência da Colômbia: Iván Cepeda, candidato sério, tem um argumento sublime e foge da fama; enquanto Abelardo de la Espriella, de slogan fácil e mentira constante, forjou a sua carreira como se fosse um espetáculo. Estas duas formas de ver o mundo e de fazer política irão defrontar-se no próximo dia 21 de junho. E embora a esquerda parta em desvantagem, uma vitória da extrema-direita não mudará uma realidade: a Colômbia não voltará a ser a mesma após a primeira experiência de esquerda na sua história moderna.


Miguel Fernández Ibáñez é jornalista e escreve a partir de Bogotá. Artigo publicado em El Salto.

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