Porque é que Nova Iorque continua a homenagear Israel em 2026?

30 de maio 2026 - 16:38

A quem é que estão a saudar? Como é que conseguem continuar a desfilar como se nada tivesse acontecido, como se Israel não tivesse cometido crimes, como se não se tivesse tornado um Estado pária em todo o mundo? Não têm vergonha?

porGideon Levy

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Manifestação de solidariedade com a Palestina em Nova Iorque, 2024.
Manifestação de solidariedade com a Palestina em Nova Iorque, 2024. Foto de Eden, Janine and Jim

Há 62 anos que a cidade de Nova Iorque homenageia Israel todas as primaveras. Começou com um desfile de jovens, continuou com David Ben-Gurion a percorrer a Quinta Avenida ao som dos aplausos dos transeuntes, tornando-se um desfile anual de apoio, a maior demonstração de simpatia por Israel na maior cidade judaica do mundo, com toda a Yiddishkeit dos funcionários americanos, sionistas e israelitas.

No próximo domingo, vão marchar novamente, aplaudindo Israel em voz alta, como de costume. Mas os organizadores estão preocupados. Este ano, haverá menos participantes. Já têm uma explicação: é por causa do medo do antissemitismo.

Quão ridículo. Não poderia haver maior prova da sua obtusidade. Se menos pessoas marcharem este ano, será porque muitas pessoas, incluindo membros da comunidade judaica de Nova Iorque, já não são capazes de homenagear Israel. Não este Israel.

Também não há melhor prova da cegueira e do caráter automático do apoio a Israel por parte da elite sionista judaica do que estes desfiles. Este desfile bajulador e enjoativo terá lugar também este ano; até mesmo este ano. A tempestade vai grassar à nossa volta, assim como o genocídio, e eles vão saudar Israel.

O presidente da câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, afirmou que irá boicotar o desfile. Boom. Esta será a primeira vez na história destes desfiles que o presidente da câmara estará ausente. Responsáveis judeus e israelitas já começaram os seus gritos habituais, acusando o presidente da câmara de antissemitismo e ódio a Israel. Mas este ano, mais do que em qualquer outro, deve-se dirigir perguntas às pessoas que ainda participam. Por que estão a marchar? A quem estão a saudar? A quem estão a abraçar? Acreditam mesmo que Israel, em 2026, merece um desfile a expressar apoio nas ruas da vossa cidade? Para quê, exatamente?

O Israel que irão saudar na próxima semana não merece tal homenagem. Está simultaneamente envolvido em várias guerras que escolheu, todas elas desnecessárias, algumas manchadas por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, e Israel quer que elas continuem indefinidamente, contrariando até mesmo a posição dos EUA.

O que há para saudar? Um Estado que matou mais de 70.000 pessoas em Gaza enquanto arrasava as suas terras? Um Estado que deslocou milhões de pessoas por todo o Médio Oriente, deixando-as sem casa e sem bens? Um Estado que deixou dezenas de milhares de crianças com deficiência ou órfãs? Um país que abusa cruelmente de milhares de detidos palestinianos, bem como de centenas de pessoas conscienciosas que tentam chegar a Gaza por mar? Um Estado que agora também está a destruir o sul do Líbano?

A quem é que estão a saudar? Estamos no ano de 2026. Como podem continuar a desfilar como se nada tivesse acontecido, como se Israel não tivesse cometido crimes, como se não se tivesse tornado um Estado pária em todo o mundo e só em Nova Iorque marchassem, agitando a sua bandeira? Não têm vergonha?

Bem-vindos, caros manifestantes, a delegação de ministros que vem à vossa manifestação em nome do governo de Israel. Os ministros Ofir Sofer, Yitzhak Wasserlauf e Amichay Eliyahu. Dois deles pertencem ao partido de Bezalel Smotrich e o terceiro ao partido de Itamar Ben-Gvir, que disputam quem é mais racista e quem é mais messiânico. É a eles que irão saudar. É pelo Israel deles que irão cantar.

Um deles, Eliyahu, afirmou que “o governo está a avançar a toda a velocidade para a aniquilação total de Gaza. Louvado seja Deus por estarmos a eliminar este mal. Toda a Gaza será judaica.” Saudar Eliyahu é saudar um genocídio explícito e declarado. E depois de tudo isto, queixam-se de que um defensor dos direitos humanos como Mamdani está a boicotar o vosso evento repugnante?

Não há pessoa sensata no mundo que não boicote um evento destes nos dias de hoje. Muita coisa mudou desde que Ben-Gurion desfilou neste desfile, assim como muito sangue inocente no Médio Oriente. Realizar o desfile este ano é cuspir na cara da maioria dos americanos, que sentem repulsa por Israel; é um desprezo pelo direito internacional e pelos valores morais, ignorando o destino de dois milhões de habitantes de Gaza que vivem pelo terceiro ano em tendas, sem eletricidade nem água corrente, sem presente nem futuro, sem nada em seu nome.

Um desfile de solidariedade em Nova Iorque? Agora é o momento de um desfile de solidariedade em apoio ao povo oprimido de Gaza, não aos seus opressores.


Artigo publicado no Haaretz a 24 de maio de 2026.

Gideon Levy
Sobre o/a autor(a)

Gideon Levy

Jornalista israelita e activista da defesa dos direitos humanos.