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“Galveias”, José Luís Peixoto - uma homenagem ao imaginário rural

30 de maio 2026 - 11:44

“‘Galveias’ é um painel muito vasto de personagens que vivem naquela terra, mas que podem viver em qualquer aldeia ou vila do país”, realça Almerinda Bento.

porAlmerinda Bento

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"Galveias", José Luís Peixoto, 2014
"Galveias", José Luís Peixoto, 2014

Mais um excelente livro de um jovem escritor português. “Galveias” teve um pré-lançamento em Setembro de 2014, no dia dos 40 anos do autor e é uma homenagem à sua terra natal e ao imaginário rural que marca profundamente a sua escrita.

A acção está balizada entre Janeiro e Setembro de 1984. Precisamente nove meses, o tempo de uma gestação. “Uma coisa sem nome” chega durante a noite a Galveias e vai impregnar o ar da terra, tornando-se omnipresente na vida dos galveenses. O cheiro permanente a enxofre, o sabor amargo no pão são presenças inexplicáveis, sendo o pano de fundo das diversas histórias das personagens retratadas neste livro. “A coisa sem nome” traz uma chuva repentina e inclemente durante sete dias seguidos, a que se seguem nove meses de seca. Para fazer face à imensa seca, o padre Daniel acaba por aceder a um ritual considerado milagroso de fazer uma missa, seguida da distribuição de papas de milho a todos os habitantes, aguardando que se concretize o milagre tão necessário.

“Galveias” é um ciclo de vida, um ciclo que começa com um acto de amor protagonizado pelos Sem Medo e termina com o nascimento de uma menina filha do casal, que restitui aos habitantes a memória do tempo sem o cheiro pestilento a enxofre. “Galveias” é um painel muito vasto de personagens que vivem naquela terra, mas que podem viver em qualquer aldeia ou vila do país.

As personagens e as suas vidas entrelaçam-se ao longo da narrativa, vão desvendando segredos, partilham com o leitor os seus rancores, sonhos, fantasias, fragilidades. Há um tom de dureza nas relações que se estabelecem, os ciúmes, a maledicência própria dos lugares pequenos, a violência física, a tragédia e a morte que pairam sobre Galveias, mas também há lugar para a reconciliação e para o amor improvável, como acontece com Justino e o irmão o senhor Cordato, desavindos durante cinquenta anos ou Rosa Cabeça e Joana Barreta. O carteiro Joaquim Janeiro ligado às memórias da guerra na Guiné, que ciclicamente volta a Bissau onde deixou mulher e filhos, a quem desfia as histórias dos seus conterrâneos, deixando-os presos às suas palavras e para quem Galveias “era um lugar imenso”. A professora, uma estranha vinda de fora, cujo voluntarismo é considerado sobranceria e que é “castigada” e violentada. As mulheres que querem o melhor para os seus filhos, mesmo opondo-se aos maridos, ou aquelas que tudo fazem para dar um sentido e uma vida digna aos filhos com incapacidades físicas ou mentais. As prostitutas, seres humanos com emoções, com sentimentos, ignoradas e discriminadas, mas a quem todos recorrem para comprar o pão, o único que consegue não ter o terrível sabor a enxofre que contaminou tudo e todos. Isabella, desejosa de regressar ao Brasil natal, mas irremediavelmente presa a Galveias por amor a um homem. O padre Daniel dominado pelo alcoól e cujas homilias são verdadeiros sermões para si próprio.

E depois há os cães, leais aos seus donos, escorraçados e maltratados, que vagueiam pela terra à procura de uma sombra, de um degrau para descansar, de algum petisco que pode ser a sua morte. Podem ser o único amigo de alguém que vive só, surgem como os únicos que conhecem segredos inconfessáveis e povoam Galveias como verdadeiras personagens.

O nascimento da menina no final do livro é o sinal de esperança na vida de Galveias. “Tinha o cheiro normal das crianças acabadas de nascer. Não cheirava a enxofre”. … “Há muitas formas de estar morto”. … “A coisa sem nome conservava ainda o seu mistério, talvez nunca viesse a perdê-lo, mas as ruas estavam já cheias de gente a caminhar na sua direcção. Galveias não pode morrer.”

Artigo de Almerinda Bento, escrito em 2015 e republicado em Lendo e Escrevendo em 2026

Almerinda Bento
Sobre o/a autor(a)

Almerinda Bento

Professora aposentada, feminista e sindicalista
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