É inegável que nos últimos dois anos se assistiu a um recrudescimento do antissemitismo: para além do aumento geral das manifestações de racismo de todos os tipos, verificou-se um recrudescimento específico de ataques violentos dirigidos contra judeus enquanto tais. Abordar esta questão exige um diagnóstico correto quanto à causa profunda do fenómeno.
O aumento dos atos antissemitas está obviamente correlacionado com a sequência de acontecimentos que teve início no Médio Oriente com o ataque liderado pelo Hamas, em 7 de outubro de 2023. Isso marcou o início de uma ofensiva das mais brutais e mortíferas por parte das forças armadas israelitas contra a Faixa de Gaza: um bombardeamento intensivo e indiscriminado de um dos territórios mais densamente povoados do planeta, levando à destruição sistemática do seu tecido urbano e a dezenas de milhares de mortes diretas, além de um número ainda desconhecido de mortes indiretas resultantes do bloqueio, da destruição da infraestrutura de saúde de Gaza, da fome organizada e das condições de vida altamente precárias em tendas.
Independentemente de se aceitar ou não a caracterização deste terrível ataque como um genocídio, o facto é que se tratou de um massacre hediondo em escala gigantesca. Além disso, teve a singularidade de ser o primeiro massacre televisionado de tal amplitude, graças à cobertura ao vivo por redes que continuaram a poder transmitir a partir do interior da Faixa. Compreensivelmente, este massacre em massa, perpetrado a um ritmo intenso ao longo de dois anos sob os olhos do mundo, criou uma onda global de protestos pacíficos em solidariedade com as vítimas palestinianas – uma onda da qual Londres tem sido um dos palcos proeminentes, se não o mais proeminente.
Perante estes factos – a guerra genocida conduzida por um Estado que insiste em definir-se como judeu e em fingir falar em nome de todos os judeus do mundo, e os protestos contra essa hecatombe –, pode parecer supérfluo questionar-se se é o primeiro ou o segundo que explica o aumento dos atos antissemitas. Os rabinos progressistas mais importantes do Reino Unido foram diretos ao reconhecer o que deveria ser óbvio para qualquer pessoa honesta: a trajetória de extrema-direita e cada vez mais assassina de Israel representa uma “ameaça existencial” para o judaísmo. Este é um desfecho sobre o qual inúmeros críticos judeus do sionismo têm alertado desde antes mesmo da fundação do Estado de Israel. Hannah Arendt alertou em 1944 que o projeto sionista na Palestina “levará inevitavelmente a uma nova onda de ódio aos judeus”. Muitos dos críticos judeus do sionismo expressaram o receio de que um Estado nascido em condições coloniais às custas de uma população autóctone acabasse por se comportar de uma forma que consideravam “incompatível com os valores judaicos”, como observaram os rabinos progressistas mais importantes do Reino Unido.
Em vez deste diagnóstico inequívoco, o governo de Starmer, ele próprio acusado de cumplicidade no massacre israelita, tem vindo a tentar instrumentalizar o aumento do antissemitismo para sufocar ainda mais a solidariedade com a Palestina e marcar pontos contra os adversários políticos. Tem atribuído a culpa pelo aumento do antissemitismo às marchas de Londres em solidariedade com a Palestina – incluindo uma interpretação muito distorcida de um slogan como “Globalizar a Intifada” – e tentado explorar a onda de atos antissemitas para difamar Zack Polanski hoje, da mesma forma que Jeremy Corbyn foi difamado ontem, com a peculiaridade adicional de que o lider dos Verdes é ele próprio judeu.
A futilidade deste pretexto deveria ser óbvia para qualquer pessoa de boa-fé e com um mínimo de conhecimento dos factos. Tomemos, por exemplo, o slogan incriminado: refere-se obviamente àquilo que continua a ser, de longe, a fase mais importante da longa luta dos palestinianos contra a ocupação das suas terras, ou seja, a impressionante revolta popular não violenta que atingiu o seu auge em 1988 na Cisjordânia e em Gaza e levou à entrada do termo Intifada no vocabulário internacional. Interpretar um apelo à “globalização” dessa revolta como um caso de antissemitismo não é apenas confundir deliberadamente o Estado israelita com todos os judeus do mundo, mas é até mesmo confundi-los com a ocupação de terras por parte desse Estado, em flagrante violação do direito internacional.
Na verdade, as várias tentativas do governo Starmer de instrumentalizar o antissemitismo são, elas próprias, de certa forma, uma instigação ao antissemitismo. São tão transparentemente desonestas — por parte de um primeiro-ministro que se encontra entre os mais impopulares da história britânica, com uma reputação devastadora de falta de credibilidade — que acabam por despertar sentimentos antijudaicos entre aqueles que são politicamente ignorantes e tolos ao ponto de aceitarem sem questionar a pretensão de Israel de falar em nome de todos os judeus. Se o governo de Starmer quisesse verdadeiramente combater o antissemitismo, começaria por pôr fim à sua colaboração com o governo israelita e traria para a ribalta os inúmeros judeus britânicos progressistas que dizem, face ao comportamento assassino de Israel: não em nosso nome!
Adaptado do original em árabe publicado em Al-Quds al-Arabi a 19 de maio de 2026 e republicado no blogue do autor.