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Cori Bush, a ativista que destronou a dinastia dos interesses instalados

As primárias democratas no Missouri trouxeram uma novidade. A vitória de uma trabalhadora, ex-sem-abrigo e ativista do Black Lives Matter que se pode tornar a primeira mulher negra a ocupar o lugar de congressista por este Estado.
Cori Bush na conferência de imprensa após ter vencido as primárias democratas no Missouri. Foto do seu Twitter.
Cori Bush na conferência de imprensa após ter vencido as primárias democratas no Missouri. Foto do seu Twitter.

Enfermeira, ex-sem abrigo, pastora, ativista do movimento Black Lives Matter, Cori Bush tem 44 anos e acaba de derrotar o congressista democrata William Lacy Clay nas primárias do Missouri com 49% dos votos contra 46%. Clay estava há cerca de vinte anos no lugar e, antes dele, tinha sido o seu pai a ocupá-lo desde os anos 60.

Esta vitória foi alcançada na sua segunda tentativa. A primeira tinha sido em 2018. Na altura, foi uma das quatro candidatas, apoiadas pelos Justice Democrats, seguidas pelo documentário da Netflix, Knock Down the House, cuja protagonista foi Alexandria Ocasio-Cortez.

Considerada uma outsider, a sua falta de experiência política foi alvo de ataque cerrado durante o período de campanha. Por isso, na sua declaração de vitória, sublinhou: “eu sou só a manifestante, sou só a ativista sem nome, sem título, sem dinheiro real. Era isso que eles diziam que eu era. Mas Saint Louis compareceu hoje.” Não é certo que se torne congressista mas, candidatando-se num distrito fortemente democrata, as suas possibilidades de eleição são muito elevadas.

Cori Bush pertence à ala esquerda do partido Democrata tendo trazido para a campanha temas como o salário mínimo, fim das propinas e a criação de um sistema de saúde universal. A sua campanha foi financiada por pequenos donativos, em claro contraste com a do seu adversário que contava com o apoio das grandes empresas locais.

 Um dos grupos que a apoiou, os Justice Democrats felicitou-a por ter derrotado “uma dinastia política apoiada pelas grandes empresas”. Também os Democratic Socialists of America estiveram do seu lado nesta eleição. O ramo de Saint Louis desta organização manifestou o seu “entusiasmo” por vir a tê-la como representante em Washington para “ajudar a liderar as nossas lutas pelo Medicare para todos, por um Green New Deal, pela redução do financiamento das polícias”. Bush, que tinha apoiado Bernie Sanders na sua corrida à nomeação presidencial democrata, também recebeu saudações deste pelo resultado e por ser “uma verdadeira progressista que está do lado dos trabalhadores e que vai responsabilizar a elite corporativa deste país quando chegar ao Congresso”.

A ala esquerda do partido saiu igualmente reforçada no Michigan onde a congressista Rashida Tlaib ganhou as primárias com cerca de dois terços dos votos. Junto com Ocasio-Cortez, Tlaib faz parte do grupo de novas congressistas, conhecido como “the squad” que tem desafiado o conformismo da instituição. Depois de ser eleita declarou que esta foi “uma mensagem clara de que os eleitores estão fartos de esperar por uma mudança transformadora” e que provou que “o “esquadrão” é grande e inclui todos os que acreditam que devemos estar presentes para os outros e dar prioridade às pessoas sobre os lucros”.

De sem-abrigo a congressista?

Cori Bush nasceu em Saint Louis no Missouri. Foi mãe solteira. Depois, em 2001, quando estava grávida do seu segundo filho, adoeceu e foi despedida da escola pré-primária onde trabalhava. Despejada de sua casa, acabou por ficar a viver no carro, com o marido e os dois filhos, durante vários meses.

Depois disso formou-se em enfermagem e tornou-se pastora. Tem supervisionado serviços de enfermagem em várias instituições de saúde mental destinadas a acolher sem-abrigo e pessoas sem seguros de saúde.

Foi uma das caras do movimento de protesto pela justiça racial em Ferguson em 2014, na sequência do assassinato de Michael Brown, um jovem negro desarmado, por parte da polícia. Também tem estado muito envolvida na recente onda de manifestações que deu uma segunda vida ao movimento Black Lives Matter.

É atualmente co-diretora do The Truth Telling Project , um projeto comunitário que pretende lutar contra a “violência estrutural”.

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