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Transição reabre porta giratória entre Casa Branca e indústria de armamento

Os nomes anunciados por Joe Biden para a área da segurança e diplomacia incluem vários consultores ligados a think tanks financiados pela indústria militar. Derrotado nos tribunais, Trump disse à sua equipa para cooperar na passagem de testemunho.
Casa Branca
Mudam os inquilinos da Casa Branca, mas nos corredores continuarão a circular figuras ligadas à indústria das armas. Foto Tia Dufour/Casa Branca/Flickr

Depois de no fim de semana ter visto um juiz da Pensilvânia arrasar o pedido que visava impedir a certificação do resultado eleitoral, a campanha de Trump sofreu outra derrota na segunda-feira, desta vez no estado do Michigan, que confirmou a vitória de Biden. Somando derrotas na justiça e críticas mesmo por entre os republicanos, não restou outra hipótese ao ainda presidente norte-americano do que dar instruções ao seu governo para cooperar na transição de poder para a nova administração. No twitter, Trump promete lutar até ao fim contra o que chama de fraude eleitoral gigantesca. Mas tudo indica que esta rede social venha a ser a única arma a que poderá recorrer na batalha para manter mobilizada a sua base eleitoral após a derrota de 3 de novembro.

O atraso no processo de transição não tem impedido o novo presidente de anunciar alguns dos nomes escolhidos para os postos-chave do seu futuro governo, um processo que continuará ao longo dos próximos dias. Depois das críticas recebidas pelas nomeações na área do ambiente, que incluíram políticos financiados pela indústria fóssil e ex-responsáveis da agência de proteção ambiental (EPA) que depois se tornaram consultores da indústria química em processos contra aquela agência, também os nomes já conhecidos para a área da defesa e serviços de informações estão a ser escrutinados.

Da administração Obama para a administração Biden, com passagem pelos negócios privados com acesso ao Pentágono

No site Daily Poster, dirigido pelo jornalista e ex-diretor de campanha de Bernie Sanders nas últimas primárias, David Sirota, traça-se o percurso de alguns dos nomes já anunciados para liderar a diplomacia dos EUA e para cargos importantes de segurança nacional. À frente da Secretaria de Estado, que corresponde aos Negócios Estrangeiros, estará Tony Blinken, enquanto Jake Sullivan ocupará o lugar de conselheiro do Presidente para a segurança nacional. Ambos já trabalharam com Biden durante a administração Obama. Enquanto Sullivan é considerado um dos conselheiros mais próximos de Hillary Clinton, Blinken foi durante muitos anos o braço direito de Biden e autor de muitos dos seus discursos.

Após sair da administração Obama, Blinken fundou a firma de consultoria WestExec Advisors em conjunto com Michèle Flournoy, sub-secretária da Defesa entre 2009 e 2012 e considerada agora uma das favoritas para ficar à frente da pasta da Defesa na administração Biden. Depressa a firma se encheu de figuras assíduas na Casa Branca, como a ex-diretora adjunta da CIA e uma das autoras do programa de drones usados para assassinatos extrajudiciais, Avril Haines, agora apontada como potencial futura diretora da agência de serviços secretos.

Embora a lista de clientes seja secreta, sabe-se que a WestExec (o West vem de “West Wing”, a Ala Oeste da Casa Branca onde se situa o centro do poder e por onde andaram muitos dos membros da firma durante vários anos) trabalhou com a Google para garantir à empresa oportunidades de negócio junto do Pentágono. Uma delas foi um projeto de tecnologia de inteligência artificial a aplicar nos drones militares, o Project Maven. Quando a relação se tornou pública em 2018, deu origem a uma vaga de demissões na Google e a um abaixo assinado subscrito por milhares de trabalhadores a defender que a empresa não devia estar no negócio da guerra, levando-a a não renovar o contrato com o Pentágono.

Indústria e governo deram mil milhões aos think tanks nos últimos cinco anos

A ligação entre a futura administração Biden e a indústria de armamento não representa uma surpresa para quem tem acompanhado os nomes que fizeram parte dos conselheiros do novo presidente e também da sua vice Kamala Harris. No mês passado, o Center for International Policy (CIP) publicou um relatório acerca do financiamento dos 50 principais think tanks por parte quer do governo, quer da indústria de defesa. Estes grupos têm tido uma importância central na definição da política de defesa do país nas últimas décadas, embora poucos cidadãos saibam como eles funcionam e quem os compõe e financia. “Em resumo, os think tanks são o motor que conduz o debate público sobre políticas públicas”, assinala o CIP.

Os conflitos de interesse multiplicam-se num setor que vive do aconselhamento, da produção de relatórios, do comentário nos jornais e televisões ou até do testemunho em sessões do Congresso, sempre na qualidade de especialistas independentes. O CIP conclui que entre 2014 e 2019, a indústria de defesa e o governo pagaram pelo menos mil milhões de dólares aos 50 principais think tanks do setor, com  a RAND Corporation, o Center for a New American Security e a New America Foundation à cabeça. Entre os doadores privados, destacam-se a Northrop Grumman, Raytheon, Boeing, Lockheed Martin e Airbus.

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