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Governo dos EUA admite não ter provas de que Soleimani planeasse atacar embaixadas

A justificação das armas de destruição massiva no Iraque durou bem mais do que a da “ameaça iminente” representada por Soleimani. Mark Esper, Secretário de Defesa dos EUA admitiu não haver provas que o general iraniano assassinado por Trump estivesse a preparar qualquer ataque a embaixadas dos EUA.
Exército americano na Embaixada em Bagdade. Janeiro de 2020. Foto de LUSA/EPA/KYLE TALBOT.

No seguimento da notícia de que Trump tinha decidido assassinar o general iraniano Qassem Soleimani, os mais altos representantes do governo norte-americano esforçaram-se para apresentá-lo como uma das maiores ameaças à paz na região.

Mike Pence, o vice-Presidente do país, por exemplo, tratou de ligá-lo aos atentados do nove de setembro de 2001. Afirmou que “Soleimani ajudou na viagem clandestina para o Afeganistão de dez dos 12 terroristas que levaram a cabo os ataques terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos”. A declaração que pretendia incriminar o general iraniano não correspondia à verdade e tinha como base um documento do Departamento de Estado que referia que vários membros da al Qaeda puderam viajar através do Irão com conhecimento do governo. O relatório final da Comissão do Nove de Setembro é claro sobre o facto de não haver provas do envolvimento ou do conhecimento do Irão sobre o atentado. Para além do mais, não houve 12 atacantes mas 19.

A declaração do Departamento de Estado do dia do atentado foi outra das peças deste jogo. Nela se podia ler que que Soleimani e as Forças Especiais Quds que ele liderava “foram responsáveis pelas mortes de centenas de Americanos e de membros da coligação” e “estava ativamente a desenvolver planos para atacar diplomatas Americanos e membros ao serviço da coligação no Iraque e por toda a região”. Nenhuma destas afirmações era sustentada.

Depois disso, o próprio Trump especificou em entrevista à Fox News que Soleimani planeava atacar quatro embaixadas dos Estados Unidos na região.

Só que no domingo passado o secretário da Defesa norte-americano admitiu que não existiam provas concretas sobre tal. No programa da CBS News Face the Nation, Mark Esper afirmou explicitamente que “o presidente não referiu uma prova em concreto e eu não vi nenhuma, no que diz respeito às quatro embaixadas”. Acrescentou ainda que “o que o presidente disse foi que provavelmente poderiam haver ataques adicionais contra embaixadas. Partilho essa visão.”

Robert O'Brien, Conselheiro Nacional de Segurança de Trump, também juntou mais achas à fogueira quando declarou na NBC que existia “informação requintada” de que “eles [governo iraniano] estavam à procura de instalações dos EUA em toda a região e de que queriam causar baixas em soldados, marinheiros, aviadores e também diplomatas americanos”. “A ameaça era iminente, eu vi as provas”, acrescentou, afirmando que essa informação só poderia ser partilhada com o grupo limitado de congressista que tem acesso a este tipo de informações.

E causou assim mais um problema para a administração Trump já alguns destes congressistas vieram imediatamente a terreiro dizer que não tiveram acesso a essas alegadas provas. Adam Schiff, democrata da Califórnia que pertence ao grupo restrito que deveria ter conhecimento das informações de segurança, declarou no domingo que o grupo não tinha qualquer informação sobre a questão das quatro embaixadas. E mesmo republicanos como o Senador Mike Lee do Utah têm expressado “preocupação” acerca da integridade da informação prestada aos representantes pelo presidente e restante governo a propósito do Irão. Lee confirmou na CNN que “vários dos meus colegas disseram o mesmo” e que “certamente isso não foi algo que me lembre ter sido mencionado no briefing de informação classificada”.

O desconforto nas duas câmaras do parlamento norte-americano é notório pelo facto do presidente não ter consultado ou informado previamente congressistas e senadores sobre o ataque a um alto responsável militar de um país com o qual não existia um estado de guerra mas também pelo facto das informações posteriores serem demasiado genéricas.

“Estado Islâmico” saúda morte de Soleimani, o aliado dos americanos

Convém recordar que nem sempre Soleimani foi pintado como o inimigo número um dos Estados Unidos.

Depois da invasão norte-americana do Iraque, em 2003, foi estabelecido um Conselho Governativo Transitório do qual faziam parte os homens que respondiam a Soleimani no Iraque: os corpos Badr, forças paramilitares do Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque, que foram treinados por este general.

Mais recentemente, na Síria e no Iraque, Soleimani foi também aliado dos norte-americanos no combate às forças ligadas ao “Estado Islâmico do Iraque e do Levante” e à al-Qaeda. Quando o exército do Daesh avançou no Iraque conquistando cidades importantes como Ramadi, Fallujah, Mosul e Tikrit e passando a governar 4,5 milhões de iraquianos, em 2014, foram as milícias xiitas que defenderam o governo.

Na reconquista de Tikrit, as forças aéreas dos EUA colaboraram até diretamente com estas milícias xiitas bombardeando as posições inimigas. Qasem Soleimani era o seu principal organizador e estratega.

Certamente por isso, a morte do general Soleimani foi saudada pelo “Estado Islâmico”. Depois do atentado promovido por Trump, este grupo emitiu um comunicado em que descrevia a morte do alto responsável iraniano como um ato de intervenção divina que os beneficiava na sua luta. Nesse documento não se referia que a ação tinha sido efetivada pelos militares norte-americanos através de um ataque de drone.

O “Estado Islâmico do Iraque e do Levante” saiu derrotado do conflito em 2017. Contudo, continua a fazer ataques no país. Uma notícia da BBC de dezembro do 2019 afirmava mesmo que a organização se estava novamente a fortalecer, citando fontes dos serviços secretos ocidentais.

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