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José Mário Branco, a voz da inquietação que nos deixou

2019 foi o ano em que nos deixou José Mário Branco, o músico, cantor e compositor que marcou a música portuguesa das canções de resistência ao fascismo até à nova geração do fado.
Foto de Arlindo Camacho.

Morreu a 19 de novembro José Mário Branco, o músico que ao longo de meio século de carreira deixou a sua marca na cultura portuguesa e em várias gerações de artistas. A sua vida foi marcada igualmente pela intervenção política, pelo combate às opressões e à desigualdade social.

Por ocasião da sua morte, o esquerda.net reuniu num dossier testemunhos de gente que o acompanhou em diversas fases da sua vida, como o do seu filho João Branco,, músicos como Rui Júnior, Carlos Guerreiro, Afonso Dias, João Lóio, Luís Cília e  José Fanha, e figuras do mundo da política e da cultura como Francisco Louçã, Soraia Simões de Andrade, Pedro Fidalgo, Manuel Pedro Ferreira, Antón Mascato, Carlos Méixome, Mário Tomé, Carlos Vieira, Tiago Ivo Cruz, Helena Pinto e José Manuel Pureza. 

Nascido no Porto em maio de 1942, grava o seu primeiro EP “Cantigas de Amigo” em 1967, a convite de Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça. É no exílio em França que compõe as músicas para textos de Natália Correia, Alexandre O’Neill, Luís de Camões e Sério Godinho que formam o seu primeiro álbum de longa duração “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” em 1971. 

Regressa a Portugal após a revolução do 25 de Abril e torna-se uma das figuras da cultura portuguesa nos primeiros tempos de liberdade. Para além das inúmeras intervenções musicais, estende a sua atividade ao teatro, integrando o grupo A Comuna, onde veio a conhecer a sua companheira Manuela de Freitas, mas também ao cinema e à ação cultural, fundando com Fausto, Tino Flores e Afonso Dias o GAC - Grupo de Ação Cultural - Vozes na Luta logo após chegar a Portugal. O GAC dinamizou centenas de sessões de canto em aldeias, fábricas e quartéis por todo o país, participando inclusivamente no Festival da Canção de 1975 com o tema “Alerta”.

Num contexto cultural marcado também pela luta entre as diferentes orientações políticas da esquerda revolucionária, a intervenção política de José Mário Branco nesse tempo foi orientada para o agrupamento das correntes maoístas que viriam a dar origem à UDP, da qual foi fundador e dirigente, tendo sido eleito para a direção da UDP em 1980.

O período pós-revolucionário foi marcado por cisões tanto ao nível partidário como cultural, com as divergências a determinarem igualmente a sua saída do GAC e também da Comuna. É neste período que compõe e edita duas das suas maiores obras musicais, “FMI” e “Ser Solidário”, que ficariam para sempre como a marca da desilusão por parte de uma geração que entregou a sua juventude ao processo revolucionário e assistia então ao desfazer das esperanças de construir uma sociedade socialista em Portugal. O cantor conclui o período com a canção e autêntico manifesto: "Eu vim de longe, eu vou para longe" do disco "Ser Solidário".

Os anos seguintes seriam parcos em edições originais - “A Noite” em 1985 e “Correspondências” em 1990, ambos editados pela editora que criou, a UPAV - , mas férteis em colaborações com outros artistas, assumindo a orquestração, composição e arranjos musicais em trabalhos de velhos parceiros, como José Afonso, Fausto, Sérgio Godinho ou Janita Salomé, mas também de novos companheiros como os Gaiteiros de Lisboa e Amélia Muge e um novo interesse pelo fado, onde colabora com Carlos do Carmo ou Camané. Edita um álbum de canções ao vivo em 1997 e dois anos depois participa na fundação do Bloco de Esquerda, de que foi membro da Mesa Nacional, num tempo marcado pela mobilização pela independência de Timor, da qual viria a tomar o título do álbum seguinte, já em 2004, “Resistir é Vencer”.

Cinco anos depois, regressa aos palcos ao lado de Fausto e Sérgio Godinho no projeto “Três Cantos” (na foto), com vários dias de concertos no Campo Pequeno, depois editados e álbum e DVD.

Em 2018 deu a conhecer um conjunto de canções e composições gravadas com o  álbum “Inéditos 1967-1999” e já este ano viu um grupo de artistas prestarem-lhe tributo com o álbum “Um disco para José Mário Branco”, que reuniu nomes como Camané, Ana Deus, Mão Morta, Walkabouts, Peste & Sida, Ermo, Osso Vaidoso, Batida, JP Simões e João Grosso, entre outros.

Os cinquenta anos de carreira de José Mário Branco estão reunidos num arquivo digital criado pelo Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

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