Momentos galegos do Zé Mário Branco

Dou conta de três situações que vivi e deixam, na minha opinião, bem palpável a enorme personalidade de um músico, criador de múltipla expressão e imenso homem de palco, assim como o permanente compromisso de um lutador sem concessões. Por Carlos Méixome.

22 de novembro 2019 - 10:30
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Começo a escrever esta nota no mesmo dia (2 de junho de 2016) que se vai estrear, numa sala comercial lisboeta, o documentário Mudar de Vida. José Mário Branco vida e obra realizado e produzido por Nelson Guerreiro e Pedro Fidalgo. O filme que segue o itinerário da vida e obra do músico do Porto oferece um percorrido pela história política e social do Portugal contemporâneo.

Não pretendo nem criticar a obra musical nem a ação cultural, política e humana do Zé Mário. Imensa. Só dar conta de três situações que vivi e deixam, na minha opinião, bem palpável a enorme personalidade de um músico, criador de múltipla expressão e imenso homem de palco assim como o permanente compromisso de um lutador sem concessões. Ora bem, aproveito para presentar-lho tal e como ele mesmo fez nesse intenso alegado vital que é FMI; dizia: “Sou português, pequeno-burguês, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim e para o resto”. E recomendar a que não o fez ainda que coloquem a orelha e os olhos de vez em quando no Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (1971), Margem de certa maneira (1973), Ser solidário (1982), o já referido FMI (1982), e o seu último trabalho em CD Resistir é vencer (2004). Com a primeira achega ao Zé Mário Branco procuraram saber do resto da sua obra.

Tratei-o fugazmente. Primeiro com motivo do festival que teve lugar no auditório vigués do Parque de Castrelos, com o objetivo de recolher fundos para ajudar na aquisição dos caros medicamentos que precisava o Zeca Afonso quando a sua doença estava já muito avançada. Um grupo de pessoas, Xico de Cariño, Manuel Álvarez, Xosé Manuel Estévez, Antón Mascato e eu mesmo, com a ajuda da Federación de Asociacións Culturais de Galicia, a Asociación Cultural de Vigo e as Xuventudes Musicais e a colaboração de muitas outras pessoas de uma e outra beira da raia organizamos aquele espécie de macrofestival que começou à volta das cinco da tarde do último dia de agosto e acabou avançada a noite do primeiro dia de setembro de 1985. Doze horas de música e poesia e mais de 20.000 pessoas no público. Os detalhes estão registados no livro que elaborou Antón Mascato para acompanhar o duplo CD que editou Edicións do Cumio no ano 2000. Com muita pena não se conseguiram incluir as duas peças que interpretou o Zé Mário. As fotografias que ilustram estas notas são de Xan Carballa, outro dos “fazedores” daquela jornada.

Uma das condições que colocamos para acolher tantas pessoas que generosamente se brindaram a participar foi que os grupos musicais só poderiam interpretar duas composições, enquanto que os oradores teriam uns escassos minutos. O ambiente do festival estava já animado quando subiu ao palco o José Mário Branco. Uma parte do público conhecia os seus CDs dos primeiros anos setenta e oitenta e sabiam do seu trabalho nos arranjos das gravações do Zeca (Cantigas do Maio (1971), Venham mais cinco (1973), Fura, fura (1979)...). A este trabalho colaborativo dedicou-se com permanente constância fazendo arranjos e/ou a produções de discos de Carlos do Carmo, Amélia Muge (outra das surpresas do festival de Castrelos), Sérgio Godinho, Fausto e, nos últimos anos, de forma quase permanente, de Camané. O que não conhecia o público era a força dele como homem de palco. A plateia entusiasmou. Ele só com uma guitarra elevou um ambiente que se manteve “no topo” até o encerramento com a interpretação do Grândola, vila morena, com todas as pessoas participantes em cima do palco. Quando acabou o Zé Mário, entre fervorosos aplausos, começou a ouvir-se o de “outra, outra, outra....” que aos poucos converteu-se num clamor; o Zé Mário voltou até ao micro e disse com a sua força declamatória: “Disciplina camaradas” e abandonou o palco.

O Zeca colocara algumas condições para que se celebrasse o festival que retirei do livro citado de Antón Mascato “... tinha que participar uma delegação de Timor Leste (naquele momento a antiga colónia portuguesa foi invadida pela Indonésia e estava submersa numa segunda luta pela independência, acabariam expulsando os indonésios -1999 e seria o primeiro estado soberano constituído no século XXI; à luta deste povo está dedicado o CD do Zé Mário Resistir é vencer), as pessoas tinham que cobrar, e havia que fazer do ato uma enorme reivindicação do galego. A representação do Timor foi de sessenta pessoas –crianças, adultos e velhos- , envoltos em vestidos coloridos, a dançarem e cantarem, mesmo com a leitura de um comunicado de denúncia da FRETILIN. Todos os participantes cobraram, cada um o que quis; algum, como o impecável José Mário Branco, fez-nos a conta partilhando a gasolina consumida por um carro de ida e volta de Lisboa a Vigo entre as cinco pessoas que viajaram, o que deu um total de oitocentos escudos. Cobrado isso, já podiam contar-lhe ao Zeca que “sim, senhor, que ele também tinha cobrado”.

Poucos meses depois, novembro 1985, aconteciam as eleições galegas. Como aconteceu em 1981, a esquerda nacionalista apresentava-se dividida. O BNG tinha nascido três anos antes e Xosé Manuel Beiras (que tinha falado no festival de Castrelos em representação da organização) era o candidato pelo círculo eleitoral da Corunha. Naquele tempo os comícios políticos ainda congregavam pessoas que desejavam ouvir o que se dizia, conhecer os candidatos, ir deitar uma olhadela e sobretudo compareciam animados e animadas. Para o BNG eram muito importantes estas eleições depois de que os três deputados do BN-PG-PSG foram expulsos do Parlamento por negarem-se a obedecer um regulamento aprovado com posterioridade a ser eleitos deputados. A outra candidatura, a do PSG-EG, estava encabeçada pelo Camilo Nogueira.

O BNG entrou em contacto com o José Mário Branco para que com as suas músicas animasse os eleitorais, creio que nas sete maiores cidades. Se não me engano, e também não é uma coisa da maior importância, acredito que o último, o “encerramento da campanha”, como se dizia, foi em Vigo. Não lembro do lugar. O Zé Mário passou aqueles dias percorrendo as nossas cidades, conhecendo ativistas e entusiasmando o público que participava nos atos de uma força política que era unha duvidosa incógnita.

 A campanha eleitoral acabou. Alguém me entregou um envelope fechado para fazer-lhe chegar ao nosso músico. Era a compensação económica que se tinha combinado. Combinei com ele num local, bem sinistro que se diga, da rua Loriga, em Vigo. Num pequeno escritóriozinho, cheio de vassouras e baldes cheios de cola, paus para pancartas, propaganda impressa, papéis, envelopes e outras coisas de utilidade semelhante, entreguei-lhe o envelope. Pensei que a coisa já estava. Para a minha surpresa pegou numa cadeira e sentou; fiz o mesmo, ao outro lado da mesa. Abriu o envelope e começou a contar as notas. Surpreendi-me perante uma atitude que tomei como desconfiança. Esta foi aumentando quando, acabada a inicial contagem, voltou a contar pela segunda vez. O Zé Mário é homem sério e de abastado bigode. Mas desta vez a contagem das notas não chegou ao fim; parou mesmo na metade. Apanhou os dois molhos de papéis assinados pelo Banco de Espanha, entregou-me um deles e disse-me: “Isto é o meu contributo à campanha do Bloque”. O Mascato, que estava presente e passou aqueles dias levando-o de um local para o outro, lembra-me da cara de surpresa com que ficou. Sabíamos que não lhe sobrava o dinheiro.

Fiquei com vontade de descer até Lisboa. Espero poder olhar, algum dia, o documentário sobre este homem que me impressionou faz tantos anos. Sei que a Margarita Ledo, que também esteve aquele dia em Castrelo, anda a fazer contactos para projetá-lo na sala Numax de Santiago de Compostela. Enquanto espero, ouço a sua música e a sua voz que me diz com Camões, “Mudam-se os tempos mudam-se as vontades”.


* Carlos Méixome - historiador e escritor galego.

Texto publicado a 2 de junho de 2016 no blogue Pé do Galiñeiro.
Tradução de Diego Garcia para o esquerda.net

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