Eu não cantei com o Zé Mário…

Confessei ao Zé Mário o meu arrependimento [por não ter cantado com ele em Lisboa] e ele disse-me: "tranquilo pá… existirão outras oportunidades!!". Mas nunca mais existiram… ou talvez sim! Ainda ontem cantei que “A cantiga é uma arma” (contra a burguesia) no Val do Límia. E continuarei a cantar!! Por Xose Constenla.

11 de dezembro 2019 - 14:16
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Creio que por volta de 2001, fui convidado para cantar nos atos do Dia da Pátria organizada pela NOS-Unidade Popular em Compostela. Naquele 25 de julho, na praça de Mazarelos, estavam entre o público algumas pessoas e delegações convidadas pela organização, entre as quais suponho que figurassem a Ana Barradas e o Francisco "Chico" Martins (representando a Política Operária portuguesa).

Nessa ocasião - volto a supor - aconteceu o convite que recebi para ir atuar a Lisboa no mês de dezembro daquele mesmo ano, no âmbito da celebração do XVI Aniversário da Política Operária. Penso que foi o Carlos Morais quem me transmitiu o convite e, sobretudo, que me alertou: "olha...vais partilhar o palco com o José Mário Branco!!".

Aceitei com muito gosto. Era a primeira vez que saía do País para cantar. Eu, naquela altura, era um moço de 21 anos que tocava em bares, festas e assembleias universitárias. Tinha algumas músicas, ainda assim utilizava muito versões dos maiores autores mas… nunca, nunca tinha cantado nem ouvido falar de José Mário Branco… já podem imaginar!

Deram-me uma "cassete" para conhecer o seu trabalho mas foi pouco o tempo que tive. E também é certo que o nível de excitação era imenso à medida que ouvia os detalhes: anfiteatro da Faculdade de Belas Artes (no Chiado), cartaz com Tino Flores e Manuela de Freitas....

Lembro-me que viajei de comboio. Três etapas: Vigo-Porto-Lisboa. Já lá estavam o Carlos e outras pessoas que iam participar no ato político. Aproveitámos algumas horas para visitar a cidade e, na tarde do dia 8 de dezembro de 2001, fui fazer a prova de som. Não me lembro muito bem de como foi o primeiro contacto com o José Mário, mas recordo-me que, durante toda a prova, ele estava muito atento. Fez-me algum comentário sobre deixar os nervos fora do palco e ouviu com atenção a minha prova de som, ofereceu-me a sua guitarra para cantar, se o desejasse!

A seguir fez ele a prova. Surpreendeu-me muito. Entoação, presença… o palco todo ficava pequeno com o Zé Mário a bordo. E, simplesmente, fiquei sentado a observar, ouvir e aprender. Entraram umas pessoas no teatro e, quando o José Mário reparou que ali estavam, disse na brincadeira: "assistir à prova de som tem outro preço!". A prova de som é um momento íntimo do artista.

Depois, levaram-nos a jantar. Sentei-me à sua frente. Ao seu lado, a Manuela, ao meu, o Tino. Uma mesa comprida com todas as pessoas convidadas para o aniversário. Lembro-me que jantámos caldo verde e bacalhau e vinho verde. Muito típico e muito português. Foi quando o Zé Mário falou da Galiza. Das suas lembranças com Miro Casabella em Paris e com Beiras na campanha do BNG em 1985. Descobri que era um anti-imperialista convicto, que estava muito preocupado com o direito à autodeterminação dos povos (coisa que combinava com a sua luta anticolonial) e que sentia um profundo respeito pela luta independentista galega.

E dali ao teatro. Cheio. Eu nervoso. Cheio. Público militante. Sobrelotado.

Começou Tino Flores. As pessoas cantavam as suas músicas. Eu histérico. Mas o momento chegou e chamaram por mim ao palco. Acabei com "Foram Anos" (que já existia naquela altura)....mas no meio… ai! no meio! (sinto um pouco de vergonha ao lembrá-lo). Tinha uma música preparada que tinha escrito com o título "Cara o sul". Lembro-me que, para a apresentar, falei sobre o naufrágio de um barco de pesca português que ocorreu naquelas semanas. Os corpos sem vida apareceram na costa galega e eu não me lembrei de dizer mais nada senão que os corpos não foram dar ao estrangeiro; que apareceram "na Terra", "em casa". Caras de estranheza no público, eu 21 anos, nervoso… enfim!

Cara o sul esténdese a terra
libre que me veu nacer,
cara o sul os homes enxergan
a bandeira dun novo mencer.

Cara o sul as nosas esperanzas
toman un novo sentir,
vístense de gala branca
cara o sul semellan revivir.

E o REFRÃO....

Cando a terra se xunte
Galiza e Portugal,
un novo futuro
habemos de loitar.
Máis alá do Miño,
habemos retornar,
os bos e xénerosos
En Grândola imos ficar!

(uma pessoa depois do concerto perguntou-me se os galegos tinham pensado conquistar Portugal...e ficar em Grândola!)

e a PARTE final....

Santiago de pedra non arde,
Lisboa insurxente non cae,
a única loita perdida,
é a que morre esquecida no mar.

Non hai revolta sen cravos
nen frente que venza sen mans,
mulleres e homes unidos
até a vitoria que está por chegar!

E pronto, já estava! Fiquei muito tranquilo!!

As pessoas batiam palmas, eu bati palmas...e mesmo as generosas crónicas do dia seguinte diziam: "Xosé Constenla brindou-nos com diversas composições, ora sentimentais, ora celebrando a aspiração do povo galego à independência".

E no final, saiu o Zé Mário. Lembro-me que disse antes de começar: "parabéns Política Operária" e o teatro rompeu num estrondoso aplauso. Eu no camarim um pouco (muito) envergonhado. E foi cantando músicas, cada uma mais cantada e aplaudida. Até que chegou o momento do encerramento. Então chamou pelo Tino e logo pelo Manuela. Saíram. E, no final, chamou-me a mim. Disse que não. Insistiu. E não saí!!

Cantaram "A cantiga é uma arma". Arrependimento absoluto e profundo até o dia de hoje. Não saí porque não sabia a música, porque já tinha passado pelo ridículo. Porque era muito novo para saber que nem cantar tinha que fazer, só acompanhar, só estar. Arrependimento, agora que já não está cá mais Zé Mário.

Exato… eu não cantei com José Mário Branco… e agora sempre que se proporciona, canto-o, brindo-o e emociono-me!!

Anos mais tarde tive outro encontro com ele na Corunha. Num concerto dele no Teatro Rosalía organizado pela AC Alexandre Bóveda. Estivemos juntos e com o Beiras. Confessei-lhe o meu arrependimento daquela vez em Lisboa e ele disse-me: "tranquilo pá… existirão outras oportunidades!!". Mas nunca mais existiram… ou tal vez sim! Ainda ontem cantei que “A cantiga é uma arma” (contra a burguesia) no Val do Límia. E continuarei a cantar!!

Muito obrigado Zé Mário!! Boa viajem… nunca sozinho!!


Tradução do galego por Diego Garcia para o esquerda.net.

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