O representante de todos os ouvintes futuros

Lisboa vai ser homenageada com o nome José Mário Branco numa das suas ruas, praças ou avenidas. Numa conferência em 2018, organizada pelo Bloco de Esquerda, falou sobre o processo de criação. Retirei umas notas que vale a pena deixar aqui. Por Tiago Ivo Cruz

23 de novembro 2019 - 23:06
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Jose Mário Branco 1942-2019

Lisboa vai ser homenageada com o nome José Mário Branco numa das suas ruas, praças ou avenidas. Foi por proposta do Bloco de Esquerda, e foi unânime. Quem o conheceu, mesmo que em conversa fugaz, fala com enorme admiração. Uma pessoa humana. Um político com espinha de aço. Um artista profissional. Numa conferência em 2018, organizada pelo Bloco de Esquerda, falou sobre o processo de criação. Retirei umas notas que vale a pena deixar aqui.

O trabalho artístico de José Mário Branco não tinha nada de místico mas sim uma ética simples: não existe criação sem comunidade. É na partilha com o público que um artista constrói. O que quer isto dizer? Quem já esteve em palco saberá do que ele fala. Por muito que se trabalhe e estude, e um músico profissional trabalha e estuda muito, a exposição ao público reorganiza tudo. A obra ganha forma. Torna-se distinta como nunca o foi até então.

O seu trabalho era organizado em três momentos. Primeiro, o momento da criação não-partilhada, consigo mesmo “a mandar qualquer coisa para o ar”, lendo, vendo e ouvindo outros autores até surgir algo. “Não sou bem eu que estou a fazer aquilo. São momentos em que me sinto muito despersonalizado”, caracterizou.

Depois, o momento da criação partilhada, “aqui há essa entidade concretíssima mas anónima que é o público. “Eu canto a canção mas já não é bem a mesma coisa lá de casa. Está a acontecer um fluxo de emoções entre público e palco. É um momento de recriação. Sem público não há teatro, pintura, escultura, poema, edifício... sem público não há nada. A partilha é que provoca o re em recriação”.

Por último, coloca-se o problema da gravação do seu trabalho, ou o que chama de partilha em diferido. “Pôr uma canção num disco passou a ser um problema de sonoplastia. Para que atingisse um máximo de probabilidade para que alguém, nas mais diversas condições, receber aquilo que eu faria se estivesse a cantar para ela. Passei a ser o representante de todos os ouvintes futuros. Que não sei quem são”.

Assim trabalhava José Mário Branco.

Texto de Tiago Ivo Cruz

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