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As feridas abertas da Guerra Colonial

A Guerra Colonial durou mais do dobro da Segunda Guerra Mundial e fez milhares de mortos portugueses e africanos. Urge quebrar o silêncio e desconstruir os mitos em torno deste conflito e do passado colonialista de Portugal. Assim como é imperativo dar visibilidade e garantir direitos às suas vítimas. Dossier organizado por Mariana Carneiro.
(1964), "“Guerra Colonial”: exército português em operações.", Fundação Mário Soares / AMS - Arquivo Mário Soares - Fotografias Exposição Permanente, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114094
(1964), "“Guerra Colonial”: exército português em operações.", Fundação Mário Soares / AMS - Arquivo Mário Soares - Fotografias Exposição Permanente, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114094

O regime fascista desdobrava-se em esforços para esconder as vítimas da Guerra Colonial e para ocultar as vitórias dos Movimentos de Libertação Nacional. Era fundamental manter o delírio de uma guerra ganha à partida e não permitir a desmobilização dos militares e o descontentamento generalizado da população. No seu artigo, o coronel Carlos Matos Gomes explica-nos como este era um conflito perdido a dois níveis: ao nível da moral e ao nível da razão.

Já os investigadores Bruno Sena Martins e Miguel Cardina escrevem sobre como a constituição de Estados-nação cujas independências se afirmaram contra a dominação colonial produzirá um contexto marcado pela tensão entre a herança colonial e a celebração das possibilidades para novos começos.

O massacre de Batepá (1953), em São Tomé e Príncipe, o massacre de Pindjiguiti (1959), em Bissau, o massacre de Mueda (1960), em Moçambique, e o massacre de Wiriamu (1972), também em Moçambique, são aqui evocados nos textos de Inês Nascimento Rodrigues, Sílvia Roque, Michel Cahen e Carmo Vicente, respetivamente.

Do lado dos Movimentos de Libertação Nacional, recuperamos um texto de Amílcar Cabral sobre Libertação e Cultura e reunimos os contributos de Manuel Boal, que dá o seu testemunho sobre o setor da Saúde na Luta de Libertação da Guiné-Bissau, e de Adolfo Maria que, na sua adolescência, escolheu o campo para agir: lutar pela independência de Angola e pela liberdade do povo angolano.

A jornalista Diana Andringa nasceu no Dundo, Luanda Norte, Cresceu em tempo de guerra, e os seus heróis não eram generais, mesmo de luvas e monóculo, mas guerrilheiros e, mais ainda, aqueles dirigentes dos movimento de libertação que tinham avançado a proposta de negociações com vista às independências, os que, como Cabral, declaravam ter preferido fazer a guerra não com armas, mas com livros. Helena Cabeçadas, por outro lado, esteve dois anos em Moçambique durante a sua infância e descreve-nos o choque entre a África imaginada e a África vivida e o sistema de apartheid que se vivia em Lourenço Marques (atual Maputo). Ambas vieram a engrossar em Portugal as fileiras dos resistentes antifascistas.

No documentário “Poeticamente Exausto, Verticalmente Só - A história de José Bação Leal”, a realizadora Luísa Marinho dá voz a um jovem e promissor poeta, falecido em Moçambique durante a guerra colonial. Fernando Mariano Cardeira relata, por sua vez, a deserção coletiva de 10 ex-oficiais-alunos da Academia Militar.

“Descolonização e retorno à antiga metrópole: a memória difícil do fim do império” é o título do artigo de Elsa Peralta, que defende que a Guerra colonial, descolonização e retorno de África, é uma herança que ainda aguarda por uma plena inscrição no discurso da história e da memória do Portugal contemporâneo.

Sofia Palma Rodrigues traz-nos uma história que muitos esqueceram ou querem ignorar: a dos comandos africanos da Guiné, traídos por Portugal e abandonados à sua sorte sem piedade. Mas as vítimas desta guerra injusta não se esgotam por aqui: Catarina Gomes fala-nos sobre os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial e a necessidade de os retirar da invisibilidade e de lhes conceder a cidadania portuguesa; e o militar de Abril António Calvinho conta como a Associação dos Deficientes das Forças Armadas se assumiu como “a força justa das vítimas de uma guerra injusta” e como tem sido longa a luta dos DFA pelo reconhecimento dos seus direitos.  

Em “Estilhaços de uma guerra maldita”, Mariana Carneiro partilha parte da história do seu pai, Jorge Carneiro, evacuado de Mueda em 1970 para o Hospital Militar Principal, em Lisboa. Escreve que parte do seu corpo ficou em Moçambique e que com ele trouxe consigo a certeza de que era preciso acabar com a guerra. E estilhaços, com os quais Mariana cresceu.

Por ocasião da apresentação da última edição do livro “Nó Cego”, de Carlos Vale Ferraz, Carlos de Matos Gomes, António-Pedro Vasconcelos e João de Melo deram conta de como a Guerra Colonial ainda é um tabu e de como este é um conflito que, entre nós nunca existiu.

Beatriz Dias escreve como, passados mais de 45 anos das independências das nações ocupadas por Portugal, o colonialismo continua vivo, sendo o racismo o seu maior legado.

Por fim, André Amálio, que se tem dedicado ao teatro documental sobre o passado colonial português, explica como surgiu a companhia de teatro Hotel Europa, e defende que “o sector cultural tem que estar na vanguarda destas mudanças, trabalhando ao lado de outro tipo de agentes que estejam a refletir sobre estas temáticas na nossa sociedade”.

Para que alguns destes temas possam ser aprofundados, Mariana Carneiro compilou ainda uma seleção de filmes, documentários, séries, livros e artigos sobre a Guerra Colonial ou relacionados com esta temática.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do trabalho
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Resto dossier

(1964), "“Guerra Colonial”: exército português em operações.", Fundação Mário Soares / AMS - Arquivo Mário Soares - Fotografias Exposição Permanente, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114094

As feridas abertas da Guerra Colonial

A Guerra Colonial durou mais do dobro da Segunda Guerra Mundial e fez milhares de mortos portugueses e africanos. Urge quebrar o silêncio e desconstruir os mitos em torno deste conflito e do passado colonialista de Portugal. Assim como é imperativo dar visibilidade e garantir direitos às suas vítimas. Dossier organizado por Mariana Carneiro.

A velha questão da política e da guerra, a propósito das mágoas do fim do império

As forças armadas portuguesas fizeram em abril de 1974 o que as eleições fazem (ou podem fazer) nos regimes democráticos: o corte com uma solução inviável, demasiado custosa e que se tornara anacrónica. Por Carlos Matos Gomes.

Hastear da bandeira da Guiné Bissau após o arrear da de Portugal em Canjadude. Foto (original a cores) de João Carvalho, Wikimedia - domínio público.

Da guerra colonial às independências africanas

A constituição de Estados-nação cujas independências se afirmaram contra a dominação colonial produzirá um contexto marcado pela tensão entre a herança colonial e a celebração das possibilidades para novos começos. Por Bruno Sena Martins e Miguel Cardina.

Mural em batepá. Foto de Inês Nascimento Rodrigues.

O "Massacre de Batepá" em São Tomé e Príncipe: ecos desde 1953 à atualidade

Tendo-se desenrolado em 1953, anos antes da eclosão das guerras coloniais e de libertação, o "Massacre de Batepá" demonstra como o recurso à violência física (e simbólica) não foi uma exceção na gestão e domínio dos territórios colonizados por portugueses. Por Inês Nascimento Rodrigues.

Massacre de Pindjiguiti, Bissau. Reprodução.

3 de Agosto de 1959, Massacre de Pindjiguiti, Bissau

Marinheiros, estivadores e trabalhadores das docas foram violentamente reprimidos por funcionários coloniais, polícia e militares, e alguns civis, repressão esta que viria a resultar em cinquenta mortos e cerca de uma centena de feridos. Por Sílvia Roque.

Massacre de Mueda. Foto publicada na página de internet do Governo da Província de Tete.

16 de Junho de 1960. Massacre de Mueda, Moçambique

Portugal no seu todo muito simplesmente não tinha percebido que já se estava nos anos sessenta. Dez ou seiscentos mortos, o significado político de Mueda não muda, abriu uma nova era. Por Michel Cahen.

Wiriamu: O massacre esquecido

O massacre de que vos quero falar aconteceu connosco. Os intervenientes eram portugueses. Aconteceu em Moçambique. E é estranho que já ninguém pareça recordar-se dele: é incómodo e por isso tenta-se esquecê-lo. Por Carmo Vicente.

Amílcar Cabral - Foto wikipedia

Amílcar Cabral: Libertação nacional e cultura

O domínio “só se pode manter com uma repressão permanente e organizada da vida cultural desse povo [o povo dominado], não podendo garantir definitivamente a sua implantação a não ser pela liquidação física de parte significativa da população dominada”. Por Amílcar Cabral.

Socorristas num posto sanitário simples e descartável aquando de ameaças de bombardeamento aéreo.

O Sector da Saúde na Luta de Libertação da Guiné-Bissau

Não se pode deixar de valorizar, e com vénia, a dedicação, o empenho e a solidariedade de todos quantos se prestaram a esse esforço, sem salários nem qualquer tipo de compensação! Que pena não poder citar os nomes de todos eles. Por Manuel Boal.

Um combate pela Liberdade

Oriundo dum país colonizado, participei desde jovem no combate contra o domínio colonial e pude assistir ao fim dessa dominação sobre a maior parte da Humanidade de então. Por Adolfo Maria.

Margens do rio Onzo, Angola. Foto Wikipedia.

Crescer em tempo de guerra

Há ainda um longo caminho a percorrer, para que se acalmem as guerras da memória, quer as que perturbam o trabalho dos historiadores, quer as que se travam na memória daqueles que as viveram. Por Diana Andringa.

Lourenço Marques, atual Maputo, nos anos 50: Uma cidade colonial. Foto publicada em https://delagoabayworld.wordpress.com

Moçambique, final dos anos cinquenta

Era estranha esta invisibilidade dos indígenas, a sua quase não humanidade. Uma imensa maioria, 98 % da população, e eram como que inexistentes, surgiam silenciosamente quando necessários e desapareciam quando desnecessários. Por Helena Cabeçadas.

José Bação Leal: “Tentarei o canto mesmo de gatas”

Neste artigo, no qual reproduzimos, na íntegra, o documentário “Poeticamente Exausto, Verticalmente Só - A história de José Bação Leal”, um jovem e promissor poeta, falecido em Moçambique durante a guerra colonial, a realizadora, Luísa Marinho, explica o que a levou a desenvolver este projeto.

A deserção colectiva de 10 ex-oficiais-alunos da Academia Militar

Devo começar por dizer que se trata da mais importante deserção colectiva organizada durante os 14 anos de duração da guerra em África. Não apenas pelo número de elementos nela envolvidos mas também por outras razões que dela fazem um acontecimento singular. Por Fernando Mariano Cardeira.

Comandos Africanos: “Os portugueses traíram-nos, fomos abandonados sem piedade”

Mário Sani é um dos mais de 600 Comandos Africanos das Forças Armadas portuguesas na Guiné que Portugal abandonou à sua sorte, depois de a colónia que explorava ter conquistado a independência. Por Sofia da Palma Rodrigues.

Ponte Aérea Luanda-Lisboa. Fotografia reproduzida em Júlio Magalhães, Os Retornados. Um Amor Nunca se Esquece (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008), p. 119.

Descolonização e retorno à antiga metrópole: a memória difícil do fim do império

Guerra colonial, descolonização e retorno de África, uma herança que ainda aguarda por uma plena inscrição no discurso da história e da memória do Portugal contemporâneo. Por Elsa Peralta.

Foto de Barnabé Freixo, Flickr.

“É urgente tirar filhos de militares portugueses da invisibilidade”

Catarina Gomes, jornalista, e autora do livro Furriel não é nome de pai, defende que é preciso romper com o “silêncio social” em torno deste assunto e reconhecer a cidadania portuguesa aos filhos que os militares deixaram na Guerra Colonial. Entrevista conduzida por Mariana Carneiro.

ADFA assumiu-se como a "força justa das vítimas de uma guerra injusta"

No dia em que se assinalou o 45º aniversário da Associação dos Deficientes das Forças Armadas, o esquerda.net publicou uma entrevista com o Coronel António Calvinho, militar de Abril, fundador e ex-presidente da direção da ADFA. Por Mariana Carneiro.

Estilhaços de uma guerra maldita

Em novembro de 1970, o meu pai foi evacuado de Mueda para o Hospital Militar Principal, em Lisboa. Parte do seu corpo ficou em Moçambique. Consigo trouxe a certeza de que era preciso acabar com a guerra. E trouxe estilhaços, com os quais eu cresci. Por Mariana Carneiro.

Imagem que figura na capa da última edição do livro Nó Cego, de Carlos Vale Ferraz.

“Esta é uma guerra que, entre nós, nunca existiu”

Para que a memória não se apague, e para desconstruir alguns dos mitos que ainda persistem sobre a Guerra Colonial, vale a pena (re)visitar o livro “Nó Cego”, de Carlos Vale Ferraz. A nova edição desta obra foi apresentada em Lisboa e sobre ela conversaram o autor, António-Pedro Vasconcelos e João de Melo. Por Mariana Carneiro.

Racismo institucional, legado do colonialismo

Passados mais de 45 anos das independências das nações ocupadas por Portugal, o colonialismo continua vivo, sendo o racismo o seu maior legado. Por Beatriz Gomes Dias.

“É preciso romper com o mito de que fomos bons colonizadores”

André Amálio tem-se dedicado ao teatro documental sobre o passado colonial português. O fundador da companhia de teatro Hotel Europa defende que “o sector cultural tem que estar na vanguarda destas mudanças, trabalhando ao lado de outro tipo de agentes que estejam a refletir sobre estas temáticas na nossa sociedade”. Entrevista conduzida por Mariana Carneiro.

AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos Gomes. Guerra Colonial. Edição: Editorial Notícias, abril de 2000

Guerra Colonial na Literatura e Cinema

Neste artigo disponibilizamos uma seleção de filmes, documentários, séries, livros e artigos sobre a Guerra Colonial ou relacionados com esta temática. Por Mariana Carneiro.