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ADFA assumiu-se como a "força justa das vítimas de uma guerra injusta"

No dia em que se assinalou o 45º aniversário da Associação dos Deficientes das Forças Armadas, o esquerda.net publicou uma entrevista com o Coronel António Calvinho, militar de Abril, fundador e ex-presidente da direção da ADFA. Por Mariana Carneiro.

Qual era a situação dos Deficientes das Forças Armadas (DFA) no período anterior ao 25 de Abril?

Era uma situação que apontava para que qualquer coisa pudesse acontecer. Não sabíamos se seria o 25 de Abril ou como se daria a rutura. Isto dadas as circunstâncias da condição de vida a que a maior parte dos deficientes eram sujeitos, principalmente os deficientes de menor graduação, os soldados, que eram a grande maioria. Toda essa gente mutilada era recebida cá, a “carne para canhão”, cegos, já amputados ou que viriam a ser amputados.

E o objetivo do Regime era solucionar o mais rapidamente possível o problema para evitar a ideia de que existiam muitos feridos e para ganhar espaço para os outros que haviam de vir. Os equipamentos existentes já estavam sobrelotados. Os soldados que chegavam ficavam amontoados em enfermarias. Chegavam a ser 40, 50 num espaço exíguo, uns sem pernas, outros sem braços… Portanto, a maioria dos soldados feridos, que eram oriundos do interior do país - ainda não se verificava a atual desertificação de Portugal - eram rapidamente exportados para as suas aldeias, as suas vilas, sem quaisquer condições, sem qualquer assistência médica nos locais onde viviam. E sem qualquer reabilitação. Era uma situação deplorável.

Era toda uma dinâmica caracterizada por uma insuficiência quer de meios operacionais de terapia, quer em termos de médicos e enfermeiros, quer também em termos de meios para assegurar a subsistência dos indivíduos. Haviam carências de toda a natureza e um sofrimento constante. Para além disso, existia uma limitação da saída dessas pessoas que adquiriam alguma mobilidade, por exemplo, quando lhes era atribuída uma cadeira de rodas. Na porta de armas impediam-nos de sair daquele espaço, a não ser que viesse algum familiar buscá-los. Era como que uma clausura daqueles que, para além de serem feridos em combate, estavam ainda sujeitos a esse género de prisão.

Os deficientes eram considerados inválidos e, segundo o Salazar, eram um peso morto para a Nação

Para além de uma grande taxa de mortalidade que existia entre os deficientes que tinham ferimentos com maior gravidade, não era dada uma resposta no sentido do aproveitamento das potencialidades que restavam a essas pessoas, não existia um reencaminhamento para uma recuperação técnico-profissional daquelas pessoas que eram ceifeiros, que eram pedreiros… para que fossem reorientados para uma nova profissão. Eram inválidos e, segundo o Salazar, eram um peso morto para a Nação. E eram um peso morto que tinha de ser sustentado. Então inventavam umas formas de compensação com uma pensãozeca e umas esmolas.

Estamos a falar de uma juventude que era a minha. Fui ferido já na 2ª comissão, com 26 anos, mas a maioria tinha 20, 21 ou 22 anos. Essa rapaziada, e nós próprios, oficiais, sargentos e muitos praças, estávamos conscientes de que o futuro iria ser muito longo, e não se podia traduzir na cada vez maior avalanche de mortos e feridos, principalmente com maior gravidade: mais cegos, mais biamputados, mais tetraplégicos...

Em que momento chegaram à conclusão de que teriam de ser os militares a assumir o comando e a mudar o rumo do país?

Perante a situação que já descrevi, gerou-se uma necessidade quase intrínseca do próprio ser humano, de nós próprios, que víamos o resultado da Guerra, e que todos os dias recebíamos camaradas de lá, de fazer qualquer coisa. Para tal, também contribuíram as outras fontes de informação que estavam ao nosso dispor, das Nações Unidas, das moções que existiam contra Portugal, do “Portugal orgulhosamente só”.

Coronel António Calvinho, militar de Abril, fundador e ex-presidente da direção da ADFA.

É precisamente na mesma altura que nasce na própria dinâmica dos militares no ativo não feridos a necessidade de alterar a situação. Porque esses capitães eram oriundos de uma geração que já não era aquela geração de senhores de uma classe burguesa ou de uma classe altamente posicionada no Estado, filhos de generais e almirantes, etc, que entravam na academia. Houve um afastamento de toda a classe de elite que ia para as academias militares, para a escola naval. Ao falhar esse recrutamento nessas academias para cargos de chefia, foi necessário recrutar milicianos. Esses milicianos vieram substituir, em termos operacionais, a classe oriunda da academia militar. Foi o meu caso e o caso da maioria dos militares que eram alferes e que comandaram pelotões, sendo depois convidados a passarem a capitães na 2ª comissão, sendo-lhes dada a benesse da promoção automática. A esses capitães foi-lhes dada a possibilidade de entrarem na academia e em três meses terem um curso superior e serem considerados oficiais do quadro permanente de pleno direito. E sendo já alunos com o vencimento de capitães, enquanto os outros entravam na escala zero. Temos o exemplo do Vasco Lourenço, do Diniz de Almeida, do Salgueiro Maia, que eram filhos da classe média. Na altura do 25 de Abril, estes homens são todos capitães. Isto está na origem da chamada disputa entre os puros e os espúrios.

Criou-se uma resposta para os quadros, mas não se criou uma resposta para as massas, para o exército em si, aquilo em que se consubstancia o corpo militar do exército, que são os seus soldados, a tal “carne para canhão”.

Quando um exército atinge um terço de refratários, de compelidos e de desertores, que são os três grupos de indivíduos que se recusam a ir à guerra, é impossível sustentá-lo. Em 1972, essa média já estava em 31%.

Em 1972, eu estava no Depósito de Indisponíveis, na Graça, e tínhamos debates sobre o que se estava a passar. Um dos intervenientes, o então Major Durão, que tinha ficado sem um braço, disse que nós estávamos no limiar da derrota. Porque existe um limite técnico nas guerras convencionais e nas guerras de outros tipos: quando um exército atinge um terço de refratários, de compelidos e de desertores, que são os três grupos de indivíduos que se recusam a ir à guerra. Essa média já estava em 31% do total dos chamados mancebos. Estávamos a 2 p.p dos 33%, o tal terço a partir do qual, tecnicamente, dizem os militares, é impossível sustentar um exército. Nessas condições, ou recorre-se a mercenários ou arranja-se uma forma para sustentar o exército.

A ideia do Spínola foi captar os militares dentro das populações indígenas, autóctones. Surgiram assim as companhias africanas. Isso fez com que mais militares, africanos, que ainda hoje não têm o seu problema resolvido, passassem a ser considerados na sua pátria traidores, porque não aderiram à FRELIMO, nem ao PAIGC, nem ao MPLA, nem à FNLA, a nenhum grupo, e lutaram contra os próprios irmãos. O Estado lá não reconhece o seu estatuto para serem beneficiários de quaisquer direitos, e o exército português descartou-se de qualquer responsabilidade, alegando que foi um tempo conturbado. Esses homens vivem em sofrimento constante. Além de serem marginalizados pela própria comunidade, o Estado português também lhes coloca imensos entraves no acesso à saúde, à medicação, às próteses.

Há uma perceção absoluta e tranquila da realidade por parte de todos os militares que não são oriundos da tal elite, que conviveram mais de perto com a situação do povo, de falta, de carência. A consciencialização de todos esses capitães que participaram no 25 de Abril foi quase que automática. Com a chamada “primavera marcelista”, parecia que se ia abrir um caminho para conversar, para falar, para encontrar uma via pacífica para a transição para a autodeterminação e depois para a independência, mas tal não aconteceu. Continuou na mesma política do “para Angola já e em força”. Essa aspiração desses capitães ficou gorada, e, a partir daí, concluímos que tínhamos de ser nós a mudar a situação.

Coronel António Calvinho, militar de Abril, fundador e ex-presidente da direção da ADFA, na sede desta associação. 13 de maio de 2019.

Podes falar-me sobre as movimentações dos deficientes militares no período conspirativo que antecedeu o 25 de Abril e como se fez a articulação entre o movimento dos DFA e o Movimento dos Capitães?

Os Deficientes das Forças Armadas (DFA) foram como que um despertar dessa necessidade de fazer qualquer coisa para além da discussão, dos discursos das Nações Unidas. É aí que nasce o Movimento dos Capitães, que depois seria chamado MFA (Movimento das Forças Armadas). O movimento clandestino ou semiclandestino que tínhamos dentro dos DFA, que se agitavam e que achavam que a nossa carne não exigia mais carne, que queriam paz e acabar com a chacina, deu o seu empenho máximo no sentido de acabar com a Guerra e a opressão. E é aí que os DFA entram em força. Dentro desse espírito do Movimento dos Capitães para que um dos principais D’s fosse Descolonizar.

Eu tinha sido ferido na 4ª Companhia de Comandos onde o Diniz de Almeida também era alferes. Foi ele que preparou a minha evacuação e ficámos sempre amigos desde então.

Os Deficientes das Forças Armadas, que  achavam que a nossa carne não exigia mais carne, deram o seu empenho máximo no sentido de acabar com a Guerra e a opressão.

Reencontrámo-nos depois cá já numa fase em que o Movimento dos Capitães está a evoluir. Ele transmite-me a necessidade de agrupar o nosso movimento, e de os DFA participarem na feitura de várias iniciativas; na recolha de assinaturas para a exposição a ser entregue ao Marcelo Caetano, onde o teu pai [Jorge Carneiro] participou também, bem como o José Arruda; na elaboração de vários comunicados dos milicianos que foram clandestinamente impressos pelo Diniz de Almeida na unidade dele, o Ralis. Eram em stencil ainda. Esses comunicados eram difundidos pelas unidades. A participação dos deficientes foi muito intensa e profícua, e conseguiu dar uma dinâmica e um sentimento de luta pela dignidade do homem e pela componente social da igualdade de cidadania. E nós também participámos ativamente com as G3 no derrube do fascismo durante o 25 de Abril. Os DFA também fizeram a Revolução.

Tiveram também previamente uma participação no 16 de março…

O capitão António Ramos, que também é DFA, ainda participou na antecipação do 25 de Abril, nas Caldas da Rainha. Houve ali uma confusão muito grande. Existiam dois grupos, um mais ligado ao Costa Gomes e outro mais ligado ao Spínola. O grupo das Caldas da Rainha saiu antecipadamente sem haver coordenação com os outros grupos. O Ramos estava preso quando se deu o 25 de Abril.

Falaste na exposição a ser entregue ao Marcelo Caetano, que nunca lhe chegou às mãos. Houve nessa altura uma divergência sobre o conteúdo da exposição. Podes explicar-me qual foi?

A minha proposta, que não foi aceite, era frontalmente anti Guerra Colonial e anti governo. Punha em cheque tudo o que acontecia em Portugal. Era bastante radical. Eu chegava a questionar numa frase que inclui na proposta quem é que tinha eleito o governo para continuar no destino desta guerra que matava tantos inocentes e ia acabar com uma geração. Depois aprendi a ser mais moderado, contra a vontade do teu pai [Risos]. A proposta do Lavouras era mais comedida, evitando antecipar uma revanche contra nós.

Como surgiu, em todo este contexto, a ideia da formação da ADFA (Associação dos Deficientes das Forças Armadas)?

O Lavouras é uma peça fundamental na criação da ADFA. Quando se deu o 25 de Abril, estava tão esperançado que tudo se ia resolver, que as pessoas iam ter todos os direitos, que me esqueci um bocado da ADFA, da necessidade da organização dos deficientes militares. Quatro ou cinco dias após o 25 de Abril, fui ao Hospital da Estrela e encontrei o Lavouras, que me disse que não podíamos deixar morrer a nossa ideia e tínhamos de formar uma associação. Concordei de imediato e disse-lhe para convocar uma reunião. Este clique entre duas pessoas gerou uma dinâmica.

Na primeira reunião, a 14 de maio de 74, em que houve quem pusesse a hipótese de nos fundirmos com a Liga dos Combatentes, ficou logo claro no primeiro ponto da ordem de trabalhos que defendíamos a extinção da Liga dos Combatentes. Era uma organização que não fazia serviço nenhum, estava fascizada. Formámos uma comissão que elaborou um primeiro documento reivindicativo dirigido à Junta de Salvação Nacional. Nessa reunião foram eleitos os dez membros que formaram a comissão ad hoc. Aquele com quem trabalhei mais de perto e de forma mais profícua foi o Lavouras.

Havia quem defendesse que devíamos manter-nos como comissão, mas a opção de formar uma associação vingou. A constituição da ADFA foi formalmente anunciada à Junta de Salvação Nacional, aos chefes dos três ramos das Forças Armadas e ao ministro da Defesa num comunicado datado de 23 de maio de 74.

Conseguimos uma sala no Palácio da Independência, onde estava a Mocidade Portuguesa, e, posteriormente, mais salas do mesmo espaço.

Como ficou a vossa relação com a Liga dos Combatentes e com a União dos Inválidos de Guerra?

A União dos Inválidos de Guerra praticamente acabou. A pessoa que estava à frente da União, inclusive, aderiu à ADFA. A Liga dos Combatentes era uma instituição do Estado, não era eleita. Era um general que é nomeado pelo Estado, um coronel, um capitão… Não podia defender os direitos das pessoas, porque defendia à partida os interesses do Estado. Hoje convivemos pacificamente. O Arruda [ex-presidente da ADFA que faleceu recentemente] foi um homem muito importante nessa dinâmica.

E a relação com o Spínola?

Na tese do Spínola, todos nós éramos heróis. E um culto que nós tivemos sempre foi o anti-herói. Não aceito heroicidade nenhuma em qualquer combate. Tenho uma cruz de guerra e nunca me considerei herói por isso. Havia um general francês que dizia: “Ai dos exércitos que tenham muitos heróis”. Defendia que o trabalho no exército não é ter muitos heróis, é fazer heróis do outro lado da barricada. Porque se um exército não tiver heróis é porque funciona na perfeição.

E um culto que nós tivemos sempre foi o anti-herói. Não aceito heroicidade nenhuma em qualquer combate.

Toda a nossa dinâmica na ADFA foi de pacificação. Há como que um bálsamo que caiu sobre o espírito da ADFA, que é o espírito que eu continuo a tentar divulgar. Não é um espírito místico, não é nada disso. É como que uma força interior desta gente toda que foi ferida que convergiu para um determinado vértice e que tornou quase que invencível esse esforço coletivo.

Mas a vossa luta ainda foi dura no início…

Ainda fui preso duas vezes.

E dentro da ADFA houve a eleição de uma direção, a 22 de junho de 74, liderada pelo Duarte Pamplona, que caiu pouco depois, sendo que, nessa altura, tu passaste de vice-presidente a presidente...

Havia naquela altura um culto muito grande, mesmo no seio dos DFA, principalmente na classe de oficiais e sargentos, da personalidade. Sob o ponto de vista pessoal e humano, até tinha uma boa relação com o Major Pamplona. Ele batizou-me como “a enguia dialética” [Risos]. As suas teses eram neocolonialistas. Passavam por arranjar uma federação de Estados, Portugal, Angola, Moçambique… Era toda uma dinâmica completamente diferente da nossa. Coincidia com a dinâmica do Spínola. Aquando da sua demissão, disse-lhe que também me demitiria e iríamos a eleições, mas o Lavouras opôs-se e convenceu-me que era urgente continuar. O Lavouras, de vez em quando, dava-me a volta ao miolo, mas ainda bem.

A nível legislativo, as vossas reivindicações ficaram muito tempo sem qualquer resposta…

Sim, durante muito tempo.

Um momento importante da vossa luta foi a manifestação de 23 de novembro de 1974, que foi muito participada.

Foi no dia da ocupação do Palácio da Independência, que ficou totalmente a abarrotar. Seguimos até ao Marquês pela Avenida da Liberdade e descemos até São Bento. À época, liguei para o Otelo para informá-lo da nossa iniciativa. Ele disponibilizou imediatamente duas viaturas: uma para ir à frente e outra para ir atrás, para que ninguém se metesse connosco. O Diniz de Almeida e o Mário Tomé foram duas pessoas fundamentais no apoio que nos deram, quer nessa manifestação, quer depois na luta que se lhe seguiu.

Paralelamente às reivindicações de ordem legislativa que permaneciam sem resposta, essa manifestação era a afirmação pública, perante Portugal, os portugueses e o Estado, da nossa identidade

Paralelamente às reivindicações de ordem legislativa que permaneciam sem resposta, essa manifestação era a afirmação pública, perante Portugal, os portugueses e o Estado, da nossa identidade. Aparecemos com uma premissa de valores, de integrar não só os coxos da guerra, os feridos na Guerra Colonial, mas todo o deficiente, que era encarado pelo Estado como um coitadinho a quem devia ser dada uma esmola. Defendíamos que podíamos ter uma profissão e que tínhamos de acabar com esse paradigma do aleijadinho, do coitadinho. Essa foi uma das principais vitórias da manifestação. Fizemos coincidir a ação com o lançamento do número 0 do nosso jornal, o ELO, onde estavam as nossas reivindicações, e que explicava na primeira página que estávamos aqui para mudar mentalidades e acabar com a estigmatização dos deficientes. Essa revelação da ADFA como instrumento de luta era completamente diferente de qualquer outra organização, que era praticamente mendicante. Não havia um estatuto de valorização do homem deficiente. E nós conseguimos isso.

Foi nessa altura que se deu aquele episódio no Rádio Clube Português com o jornalista Rui Pedro…

O Rui Pedro fez várias críticas ao movimento. Nós ficámos muito ofendidos e houve algumas reações de sócios mais acaloradas, mas depois eu, o Lavoura e mais dois companheiros, acabámos por ir lá pessoalmente e tivemos oportunidade de, durante a emissão, repor a verdade e rebater os seus argumentos. O programa acabou com a Grândola, Vila Morena. E ele percebeu que estava enganado, que não íamos reivindicar colónias. Essa era a linha de um programa que existia anteriormente, dedicado à Liga dos Combatentes, e que nós conseguimos ocupar. Era na Rádio Renascença, com o António Sérgio. Comecei a ir lá ao programa e esclareci o que pretendíamos. A Guerra tinha acabado e era tempo de pacificar e dar liberdade às colónias, às pessoas. Aí começou também um pouco a luta da Rádio Renascença, com a comissão de trabalhadores. Nós interviemos em muitas coisas. Tínhamos também um programa que era dado pela comissão dinamizadora do MFA.

Qual era a relação da ADFA com o MFA?

Participávamos nas campanhas de dinamização do MFA e tivemos sempre uma ligação muito direta. Para isso contribuiu, novamente, a minha relação com o Diniz de Almeida e com um homem excecional, o Ramiro Correia, um primeiro-tenente médico. Pela coincidência de ele ser um homem de esquerda, um homem revolucionário e ser médico, chamávamos-lhe Che Guevara. Só não tinha asma. Foi ele que me chamou, através do Diniz de Almeida, para integrar as iniciativas e chamar malta deficiente. Houve várias pessoas que participaram nessas campanhas de dinamização, entre as quais eu e o teu pai.

Que papel tiveste aquando da tentativa de golpe de estado dirigida por Spínola a 11 de março de 75 e do golpe contrarrevolucionário de 25 de novembro de 75?

Até 11 de março de 1975, o Grupo dos Nove estava todo homogéneo. A tentativa de golpe de estado dirigida por Spínola foi um insucesso, obrigando-o a fugir. No 11 de março eu estava no Ralis, com o Diniz de Almeida, e participei em toda a dinâmica, a defender o Ralis e a Revolução. Depois disso, o Diniz de Almeida foi enviado para a Figueira da Foz. A partir dessa data dão-se as ocupações de empresas e propriedades e a nacionalização da banca, dos seguros… Os poderes instalados reagiram e começaram a preparar o 25 de novembro. Aí entraram já os Carlucci, os Mário Soares…

Depois de alcançar o poder, a direita não perdoou e prendeu centenas de militares, daqueles que poderiam representar alguma resistência

Durante o verão quente, o 5º Governo Provisório, do General Vasco Gonçalves, é como que sufocado pelo documento do Grupo dos Nove, que defende a transição imediata do poder para os partidos, e é obrigado a demitir-se. É nessa altura que o Mário Soares consegue a união de toda a direita, nomeadamente do CDS, do PSD, do MDLP… Convergiu tudo para uma reunião na Alameda que deixou o Governo inoperacional. Conseguiram também sensibilizar as forças mais à esquerda, o COPCON, liderado pelo Otelo Saraiva de Carvalho. Retiraram ao Otelo o comando da Região Militar de Lisboa, que acabou por confluir, ainda que com boas intenções, também para essa amálgama de forças para a expulsão do Vasco. A direita mais esperta aproveitou a onda, soube surfá-la e veio a impor os seus ditames. Depois de alcançar o poder, a direita não perdoou e prendeu centenas de militares, daqueles que poderiam representar alguma resistência, um dos quais o nosso sócio Carmo Vicente, sargento paraquedista, que tu conheces bem. Eu tive uma estratégia diferente. Fui mandado apresentar-me mas não me apresentei. E elaborei um plano para retirar os músicos de intervenção do país, se necessário, o Vitorino, o Zeca, o Adriano, o Fausto… Felizmente, o plano não chegou a ser executado.

Fui falar com o Álvaro Cunhal porque tinha uma certa quantidade de armamento e homens capazes de intervir se necessário, um dos quais o teu pai. Durante a entrevista com o Álvaro Cunhal, tentei beber da sua sabedoria sobre para onde é que isto iria caminhar. Disse-me que tinha de haver contenção e que as coisas se iriam recompor. Que tínhamos de continuar unidos e lutar mas que essa via “guevarista”, digamos assim, não tinha viabilidade. Por outro lado, também tinha alguma confiança no General Ramalho Eanes, que foi meu comandante e era uma pessoa, sob o ponto de vista ético, íntegro, com uma moral elevada. Isso fazia-me prever que não haveria um derramamento de sangue ou guerra civil.

Os DFA foram uma força importante no processo. Houve uma altura que até, de certa forma, fomos um bocado turbina com as nossas lutas.

Podes falar-me sobre aquele período quentíssimo, que começou com a manifestação de 20 de setembro de 1975, durante o qual se deu a ocupação das portagens da ponte?

A efervescência da luta deveu-se à necessidade por parte dos DFA de verem todas as suas reivindicações garantidas no imediato. A ADFA aí tentava fazer a moderação daquelas vontades todas que, se não fossem coordenadas, poderiam pôr em causa as negociações.

A luta acabou por ser determinante e resultou de dois fatores principais que se encontraram. Primeiro, a reivindicação oficial perante o presidente da República General Costa Gomes da deslocação de uma manifestação a Belém. Depois de marcharmos desde o Palácio da Independência até Belém, uns de cadeira de rodas, outros de muletas (só tínhamos ainda uma carrinha) fomos confrontados com um palácio fechado.

Depois de marcharmos desde o Palácio da Independência até Belém, uns de cadeira de rodas, outros de muletas (só tínhamos ainda uma carrinha) fomos confrontados com um palácio fechado.

A direção da ADFA bateu à porta do Palácio de Belém com as suas reivindicações. Fomos recebidos pelo capitão Marques Júnior. Mandou-nos entrar, a mim, ao Lavouras e aos outros. Explicámos-lhe que o nosso objetivo era sermos recebidos pelo nosso General Costa Gomes. O Marques Júnior respondeu-nos que ele não estava disponível, estava doente. Depois de insistirmos, ligou ao Costa Gomes. No final da chamada, transmitiu-nos que seria completamente impossível reunirmos com o General naquele dia porque ele estava com uma febre elevada, mas que garantia que na semana seguinte nos iria receber. Coube-me a mim pegar no megafone no varandim do Palácio e falar para a malta. Expliquei-lhes a situação e disse-lhes que tínhamos entregue ao Marques Júnior, que era do Conselho da Revolução e adjunto do Costa Gomes, o caderno de reivindicações, e que ele se tinha comprometido a levá-lo ao Conselho da Revolução e a entregar ao General para ele analisar o documento e se preparar para, no espaço de uma semana, nos receber. Afirmei que, não cumprindo o objetivo total da nossa missão, parcialmente estava resolvido e que não valia a pena ficarmos ali. Cá estaríamos novamente para nos mobilizarmos, se fosse caso disso. A direção da ADFA desmobilizou.

Um grupo de DFA, descontentes com o desfecho da manifestação, responderam ao apelo de Armindo Roque para não desmobilizarem e continuarem a luta. Constituíram uma “comissão de luta” autónoma, constituída pelo Vítor Borges, Ramalho Pires, Armindo Roque, Fernando Carvalho e o teu pai, entre outros.

Por volta das quatro ou cinco da manhã, bateram-me à porta a avisar que um grupo de comandos não desmobilizou e estava a parar o trânsito e os comboios que vinham de Cascais. Lá me meti no carro e quando cheguei à estação, os comboios estavam todos parados.

Lembrei-lhes aos DFA presentes que o nosso objetivo era ter o povo do nosso lado e que naqueles comboios estavam muitas mães que iam levar os filhos ao infantário. Era importante ter essa gente do nosso lado. Não devíamos criar inimigos. Redigi ali, em menos de nada, um pequeno comunicado e fui com um membro da comissão de luta ler o documento aos passageiros, através do microfone. Pedi desculpa pelo atraso, expliquei que éramos DFA, vítimas de uma guerra injusta, e que estávamos em luta para ver satisfeitos os nossos direitos. Depois mandei seguir o comboio. E foi assim com os comboios que iam passando. Conseguimos uma adesão da população espetacular com coisas feitas em cima do joelho. Se não tivéssemos ganho a empatia da população, teria vindo a polícia de intervenção e o próprio Otelo teria de desmobilizar aquilo, porque a luta não era contra as pessoas, era contra o Estado.

Chamámos a “comissão de luta” para reunir e frisámos que tínhamos cumprido a nossa palavra, e que aquela ação tinha sido formada pela comissão de luta autónoma que se formou e lutou. Fizemos um pacto com eles. Estaríamos nas lutas mas íamos coordenar as ações, para não entrarmos numa espiral de vandalismo. Eles traziam a proposta e a direção da ADFA coordenava e arranjava apoios para levar alimentos, convocando pessoas como o Mário Tomé e o Campos Andrada.

O teu pai, ainda que, nesse momento, tenha integrado a comissão de luta, estava sempre do meu lado. E sabia reconhecer quando se precipitava.

A luta concentrou-se no Palácio de Belém, na ponte 25 de Abril, na ponte General Carmona, em Vila Franca de Xira, e na Emissora Nacional. E depois culminou na Assembleia da República.

Na reta final, eu já não estava cá, porque fui à Alemanha no âmbito de uma campanha de dinamização do MFA para emigrantes. Havia uma crise, porque eles tinham deixado de enviar dinheiro para Portugal. Fui eu, o Sérgio Godinho, o Vitorino, e vários outros, percorrer as cidades alemãs a informar que eles podiam continuar a confiar em Portugal. Que o país já era uma democracia. Foi um êxito essa campanha. Estive lá cerca de dez dias. Passei, inclusive, por Berlim Oriental. Fiz lá um discurso numa manifestação de rua. O Baader Meinhof estava muito bem organizado na altura. Creio que cheguei a ficar num dos seus locais de encontro. Um italiano que lá estava entrevistou-me, perguntando-me o que é que eu pensava dos movimentos revolucionários. Levei dois filmes do MFA com a máquina do movimento. Olha, foi o teu pai que ficou com essa máquina. Pediu-me emprestada para fazer um filme lá em Viseu. Quando lhe perguntei pela máquina, disse-me que o Estado lhe tinha vindo pedir a máquina para o espólio [Risos].

A aprovação do decreto-lei 43/76 de 20 de janeiro não gorou, parcialmente, as vossas reivindicações?

O decreto-lei acabou por ser uma vitória. O documento não era só sobre a hipótese de os militares poderem continuar no ativo, se assim o desejassem; de terem direito às promoções; de, com mais de 60% de incapacidade, terem direito à compra de carro, etc, etc. O decreto-lei não é apenas isso. É, na realidade, o reconhecimento mais amplo de uma condição que deixa de ser inválido de guerra, que era o conceito da lei anterior. Passa a haver um código de deficiente. Esses pequenos nadas mentais, morais, inorgânicos fazem com que as mentalidades se alterem.

O decreto-lei é o reconhecimento mais amplo de uma condição que deixa de ser inválido de guerra, que era o conceito da lei anterior. Passa a haver um código de deficiente.

Foi como quando o então ministro da Defesa Aguiar Branco, do PSD, veio aqui condecorar a ADFA. Falei com o Arruda no sentido de ele conseguir, como sedutor que era, que o Aguiar Branco colocasse: “ADFA: A força justa das vítimas de uma guerra injusta”. E não é que isso saiu no Diário da República? [Risos]

E o decreto prevê também que a deficiência possa ter sido adquirida em combate ou na formação e preparação para o combate. Isso permitiu que o Lavouras, por exemplo, que não foi ferido nas Colónias, pudesse ser abrangido pela legislação. O decreto veio a ter em conta toda a perigosidade de cariz militar, tudo o que foi feito com nexo de causalidade. Nós queríamos que todos fossem abrangidos. No dia em que a malta entrasse para a tropa, iniciava-se um ciclo, uma vida completamente diferente. E, a partir daí, tudo o que acontecesse tinha de ser coberto pelo Estado, com uma espécie de um seguro global. E acho que isso foi conseguido.

É evidente que ficaram franjas, como é o caso das mulheres, das viúvas. Esse problema permanece. E os casos de stress pós-traumático. Ainda continuam a existir muitas dificuldades em fazer juízos de valor sobre se a origem está relacionada com a vida militar.

Mas o decreto-lei foi uma lufada de ar fresco. Uma porta que se abriu, até porque, depois disso, já surgiram muitos outros decretos.

Por que é que continua a fazer sentido a existência da ADFA?

Porque ainda estamos vivos. E porque, para além da nossa luta pelas reivindicações próprias do homem com deficiência, existe a luta global do povo português. Estamos absolutamente absorvidos dentro dessa dinâmica. Sempre participámos em todas as lutas. A ADFA estava sempre presente nas manifestações dos trabalhadores na Alameda Afonso Henriques. Tínhamos lá sempre a nossa banca, com o nosso material. Fomos diretamente responsáveis pela comercialização do material do MFA.

E achas que a ADFA não contribui também para acabar com o tabu ainda existente sobre a Guerra Colonial e o colonialismo português?

Foi sempre mais difícil justificar perante os homens da nossa geração, dos combatentes de 60 e 70, essencialmente, a existência da ADFA. O Grupo dos Nove era quase todo contra a ADFA. Hoje já consideram que foi útil. A posteriori viram que realmente é um organismo pró-Revolução que ajudou muito e continua a ajudar. Mas as novas gerações, os filhos e os netos dos que foram à Guerra, estão recetivos à ADFA.

Hoje, a ADFA colabora em muitas universidades, muitos mestrandos e doutorandos vêm aqui recolher informação. Somos um agente até de cultura. Muitos dos nossos sócios escreveram memórias, escreveram livros. Temos o próprio livro da história da ADFA também. E participamos em várias exposições.

Quando o Arruda ainda era vivo, surgiu a ideia de promover uma feira do livro sobre colonialismo e Guerra Colonial, organizada pela ADFA.

Que maravilha…

Queremos disponibilizar toda a literatura que existir no próximo ano. Vamos tentar apoios nesse sentido. E depois começar a programar, a médio prazo, para o 50º aniversário da ADFA, levar essa exposição, com outras congéneres nossas da Europa que tenham tido guerras coloniais, como a França, a Bélgica, à sede da União Europeia, onde confluam todas essas dinâmicas antiguerra. Com exposição de fotografias, livros… Fazer a literatura europeia contra o colonialismo. Isso é sempre o Calvinho lunático a imaginar. Se fizermos em Portugal, já é bom.


* António Calvinho - Coronel, militar de Abril, fundador e ex-presidente da direção da ADFA - Associação de Deficientes das Forças Armadas. Escritor. Entre as suas obras publicadas encontram-se: Trinta Facadas de Raiva - Prefácios do Historiador César Oliveira e da Associação dos Deficientes das Forças Armadas - ADFA. Lisboa, 1976. 1ª edição; O Deus que a Igreja nos Vende.  Edição de Autor.  Lisboa 1977; Gritos de Guerra (poesia). 1979 (com Carmo Vicente, Manuel Geraldo e Gabriel Raimundo.

(...)

Resto dossier

(1964), "“Guerra Colonial”: exército português em operações.", Fundação Mário Soares / AMS - Arquivo Mário Soares - Fotografias Exposição Permanente, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114094

As feridas abertas da Guerra Colonial

A Guerra Colonial durou mais do dobro da Segunda Guerra Mundial e fez milhares de mortos portugueses e africanos. Urge quebrar o silêncio e desconstruir os mitos em torno deste conflito e do passado colonialista de Portugal. Assim como é imperativo dar visibilidade e garantir direitos às suas vítimas. Dossier organizado por Mariana Carneiro.

A velha questão da política e da guerra, a propósito das mágoas do fim do império

As forças armadas portuguesas fizeram em abril de 1974 o que as eleições fazem (ou podem fazer) nos regimes democráticos: o corte com uma solução inviável, demasiado custosa e que se tornara anacrónica. Por Carlos Matos Gomes.

Hastear da bandeira da Guiné Bissau após o arrear da de Portugal em Canjadude. Foto (original a cores) de João Carvalho, Wikimedia - domínio público.

Da guerra colonial às independências africanas

A constituição de Estados-nação cujas independências se afirmaram contra a dominação colonial produzirá um contexto marcado pela tensão entre a herança colonial e a celebração das possibilidades para novos começos. Por Bruno Sena Martins e Miguel Cardina.

Mural em batepá. Foto de Inês Nascimento Rodrigues.

O "Massacre de Batepá" em São Tomé e Príncipe: ecos desde 1953 à atualidade

Tendo-se desenrolado em 1953, anos antes da eclosão das guerras coloniais e de libertação, o "Massacre de Batepá" demonstra como o recurso à violência física (e simbólica) não foi uma exceção na gestão e domínio dos territórios colonizados por portugueses. Por Inês Nascimento Rodrigues.

Massacre de Pindjiguiti, Bissau. Reprodução.

3 de Agosto de 1959, Massacre de Pindjiguiti, Bissau

Marinheiros, estivadores e trabalhadores das docas foram violentamente reprimidos por funcionários coloniais, polícia e militares, e alguns civis, repressão esta que viria a resultar em cinquenta mortos e cerca de uma centena de feridos. Por Sílvia Roque.

Massacre de Mueda. Foto publicada na página de internet do Governo da Província de Tete.

16 de Junho de 1960. Massacre de Mueda, Moçambique

Portugal no seu todo muito simplesmente não tinha percebido que já se estava nos anos sessenta. Dez ou seiscentos mortos, o significado político de Mueda não muda, abriu uma nova era. Por Michel Cahen.

Wiriamu: O massacre esquecido

O massacre de que vos quero falar aconteceu connosco. Os intervenientes eram portugueses. Aconteceu em Moçambique. E é estranho que já ninguém pareça recordar-se dele: é incómodo e por isso tenta-se esquecê-lo. Por Carmo Vicente.

Amílcar Cabral - Foto wikipedia

Amílcar Cabral: Libertação nacional e cultura

O domínio “só se pode manter com uma repressão permanente e organizada da vida cultural desse povo [o povo dominado], não podendo garantir definitivamente a sua implantação a não ser pela liquidação física de parte significativa da população dominada”. Por Amílcar Cabral.

Socorristas num posto sanitário simples e descartável aquando de ameaças de bombardeamento aéreo.

O Sector da Saúde na Luta de Libertação da Guiné-Bissau

Não se pode deixar de valorizar, e com vénia, a dedicação, o empenho e a solidariedade de todos quantos se prestaram a esse esforço, sem salários nem qualquer tipo de compensação! Que pena não poder citar os nomes de todos eles. Por Manuel Boal.

Um combate pela Liberdade

Oriundo dum país colonizado, participei desde jovem no combate contra o domínio colonial e pude assistir ao fim dessa dominação sobre a maior parte da Humanidade de então. Por Adolfo Maria.

Margens do rio Onzo, Angola. Foto Wikipedia.

Crescer em tempo de guerra

Há ainda um longo caminho a percorrer, para que se acalmem as guerras da memória, quer as que perturbam o trabalho dos historiadores, quer as que se travam na memória daqueles que as viveram. Por Diana Andringa.

Lourenço Marques, atual Maputo, nos anos 50: Uma cidade colonial. Foto publicada em https://delagoabayworld.wordpress.com

Moçambique, final dos anos cinquenta

Era estranha esta invisibilidade dos indígenas, a sua quase não humanidade. Uma imensa maioria, 98 % da população, e eram como que inexistentes, surgiam silenciosamente quando necessários e desapareciam quando desnecessários. Por Helena Cabeçadas.

José Bação Leal: “Tentarei o canto mesmo de gatas”

Neste artigo, no qual reproduzimos, na íntegra, o documentário “Poeticamente Exausto, Verticalmente Só - A história de José Bação Leal”, um jovem e promissor poeta, falecido em Moçambique durante a guerra colonial, a realizadora, Luísa Marinho, explica o que a levou a desenvolver este projeto.

A deserção colectiva de 10 ex-oficiais-alunos da Academia Militar

Devo começar por dizer que se trata da mais importante deserção colectiva organizada durante os 14 anos de duração da guerra em África. Não apenas pelo número de elementos nela envolvidos mas também por outras razões que dela fazem um acontecimento singular. Por Fernando Mariano Cardeira.

Comandos Africanos: “Os portugueses traíram-nos, fomos abandonados sem piedade”

Mário Sani é um dos mais de 600 Comandos Africanos das Forças Armadas portuguesas na Guiné que Portugal abandonou à sua sorte, depois de a colónia que explorava ter conquistado a independência. Por Sofia da Palma Rodrigues.

Ponte Aérea Luanda-Lisboa. Fotografia reproduzida em Júlio Magalhães, Os Retornados. Um Amor Nunca se Esquece (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008), p. 119.

Descolonização e retorno à antiga metrópole: a memória difícil do fim do império

Guerra colonial, descolonização e retorno de África, uma herança que ainda aguarda por uma plena inscrição no discurso da história e da memória do Portugal contemporâneo. Por Elsa Peralta.

Foto de Barnabé Freixo, Flickr.

“É urgente tirar filhos de militares portugueses da invisibilidade”

Catarina Gomes, jornalista, e autora do livro Furriel não é nome de pai, defende que é preciso romper com o “silêncio social” em torno deste assunto e reconhecer a cidadania portuguesa aos filhos que os militares deixaram na Guerra Colonial. Entrevista conduzida por Mariana Carneiro.

ADFA assumiu-se como a "força justa das vítimas de uma guerra injusta"

No dia em que se assinalou o 45º aniversário da Associação dos Deficientes das Forças Armadas, o esquerda.net publicou uma entrevista com o Coronel António Calvinho, militar de Abril, fundador e ex-presidente da direção da ADFA. Por Mariana Carneiro.

Jorge Carneiro, Montepuez, Moçambique.

Estilhaços de uma guerra maldita

Em novembro de 1970, o meu pai foi evacuado de Mueda para o Hospital Militar Principal, em Lisboa. Parte do seu corpo ficou em Moçambique. Consigo trouxe a certeza de que era preciso acabar com a guerra. E trouxe estilhaços, com os quais eu cresci. Por Mariana Carneiro.

Imagem que figura na capa da última edição do livro Nó Cego, de Carlos Vale Ferraz.

“Esta é uma guerra que, entre nós, nunca existiu”

Para que a memória não se apague, e para desconstruir alguns dos mitos que ainda persistem sobre a Guerra Colonial, vale a pena (re)visitar o livro “Nó Cego”, de Carlos Vale Ferraz. A nova edição desta obra foi apresentada em Lisboa e sobre ela conversaram o autor, António-Pedro Vasconcelos e João de Melo. Por Mariana Carneiro.

Racismo institucional, legado do colonialismo

Passados mais de 45 anos das independências das nações ocupadas por Portugal, o colonialismo continua vivo, sendo o racismo o seu maior legado. Por Beatriz Gomes Dias.

“É preciso romper com o mito de que fomos bons colonizadores”

André Amálio tem-se dedicado ao teatro documental sobre o passado colonial português. O fundador da companhia de teatro Hotel Europa defende que “o sector cultural tem que estar na vanguarda destas mudanças, trabalhando ao lado de outro tipo de agentes que estejam a refletir sobre estas temáticas na nossa sociedade”. Entrevista conduzida por Mariana Carneiro.

AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos Gomes. Guerra Colonial. Edição: Editorial Notícias, abril de 2000

Guerra Colonial na Literatura e Cinema

Neste artigo disponibilizamos uma seleção de filmes, documentários, séries, livros e artigos sobre a Guerra Colonial ou relacionados com esta temática. Por Mariana Carneiro.