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Estilhaços de uma guerra maldita

Em novembro de 1970, o meu pai foi evacuado de Mueda para o Hospital Militar Principal, em Lisboa. Parte do seu corpo ficou em Moçambique. Consigo trouxe a certeza de que era preciso acabar com a guerra. E trouxe estilhaços, com os quais eu cresci. Por Mariana Carneiro.
Jorge Carneiro, Montepuez, Moçambique.
Jorge Carneiro, Montepuez, Moçambique.

Nasci a 1 de abril de 1980. Seis anos após o 25 de Abril. Sou filha de uma resistente antifascista, militante do PCP, que esteve presa, foi torturada, passou pela clandestinidade. E de um pai Deficiente das Forças Armadas (DFA), que perdeu a mão em Moçambique, um militar de Abril, que integrou o Movimento das Forças Armadas (MFA), e cuja atividade política no pós-revolução na esquerda revolucionária passou pela militância no PRP (Partido Revolucionário do Proletariado) e pela participação nas campanhas presidenciais de Otelo Saraiva de Carvalho, com passagem pelos GDUP’s (Grupos Dinamizadores de Unidade Popular), FUP (Força de Unidade Popular) e OUT (Organização Unitária de Trabalhadores).

Antes de saber o que foi a ditadura, antes de saber o que foi a Guerra Colonial, senti-as. Da minha mãe, herdei o desconforto face a espaços fechados, a impossibilidade de trancar portas, o receio do barulho produzido pelos ferrolhos. Do meu pai, o sobressalto com barulhos estridentes, o estado de permanente vigilância.

Na vida do meu pai existe um antes e um depois da Guerra Colonial. Do antes, do durante e do imediatamente a seguir, fui construindo um puzzle, e só tive informações mais concretas após a sua morte. Mas não foi preciso muito para perceber que, se não antes, a revolução dentro do meu pai emergiu na guerra.

Das várias horas passadas no Arquivo Geral do Exército, no Arquivo Histórico Militar, das conversas com ex-combatentes da 21ª Companhia de Comandos, com os seus companheiros da Associação dos Deficientes das Forças Armadas (ADFA), surgiram respostas que nunca tive enquanto o meu pai era vivo. Aliás, que nunca ousei procurar enquanto o meu pai era vivo. Porque não era possível ter uma conversa tranquila com ele sobre a Guerra Colonial. Alguns assuntos só vinham à baila nos momentos mais conturbados. Quando o vulcão irrompia. Esse era um deles.

“E assim, posso andar?”

Por influência do meu avô adotivo, um homem do regime e que era bastante severo, o meu pai alistou-se a 15 de julho de 1966, sendo incorporado, como recrutado, a 8 de outubro de 1968. Entre as suas habilitações profissionais militares, constam o curso de sargentos milicianos e o curso de comandos, com aproveitamento no ano de 1969. Dos seus registos militares consta também a formação no Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE) de Lamego.

Em abril de 1969, o meu pai partiu para Luanda a bordo do navio Vera Cruz. No mesmo ano, fez a viagem, no navio comercial Império, para Moçambique. A base da 21ª Companhia de Comandos, à qual o meu pai pertencia, era em Montepuez. Participaram em várias operações, entre as quais a Operação Nó Górdio, a maior e mais dispendiosa campanha militar portuguesa em Moçambique, que durou seis meses (1 de julho a 6 de agosto de 1970).

Montepuez, Moçambique. O meu pai, Jorge Carneiro (na foto, é o segundo a partir da esquerda), com os elementos da sua unidade.

Às 8h15 de 9 novembro de 1970, o meu pai, então furriel miliciano, feriu-se em Montepuez, ao manipular um dispositivo explosivo que estava a preparar. “Desarticulação atípica da mão esquerda, desarticulação da mão direita”, é o que consta do seu processo médico. Foi evacuado para Mueda na mesma data. Posteriormente, a 24 de novembro de 1970, foi evacuado para o Hospital Militar Principal, em Lisboa. Passou ainda vários períodos no Hospital de Hamburgo, um dos quais superior a um ano. Portugal tinha um acordo com as Forças Armadas alemãs. Uma das contrapartidas pela utilização do aeroporto de Beja, que tinha as características ideais para o treino de voo a baixa altitude, passava pela garantia de tratamentos médicos nos hospitais alemães e pelo fornecimento das próteses dos “estropiados de guerra”. O meu pai esteve em Hamburgo três ou quatro vezes. Ia nos aviões militares alemães e ficava internado no hospital onde se faziam as próteses e a adaptação, bem como o treino e fisioterapia.

Há um episódio marcante, relatado por um ex-combatente da 21ª Companhia de Comandos que, numa das visitas do meu pai a Portugal, entre tratamentos, o acompanhou ao Ministério da Defesa. À porta, repreenderam o meu pai por estar fardado e apresentar um cabelo até aos ombros, totalmente desgrenhado. Imediatamente, ele mostrou o coto e perguntou: “E assim, posso andar?”

Em Portugal, o meu pai foi colocado no Depósito de Indisponíveis, na Graça, onde ainda viveu bastante tempo. “Depósito” é uma boa palavra para descrever estas instalações e a falta de acompanhamento dos militares aí destacados. Diariamente chegavam mais estropiados, e cada vez mais novos.

Os documentos que encontrei no Arquivo Geral do Exército (AGE) foram uma fonte de informação importante, permitindo-me concluir partes do puzzle que se mantinham indecifráveis. Infelizmente, este espólio, que contém não só a história do meu pai, como a História de todas e todos nós, nunca foi, e não se prevê que alguma vez seja, digitalizado, e revela um estado avançado de degradação. Entre os papéis já amarelados, alguns a desfazerem-se nos cantos, com agrafos ferrugentos, consta um longo, burocrático e revoltante processo que o meu pai foi obrigado a enfrentar pelo reconhecimento dos seus direitos. Por despacho datado de 5 de setembro de 1975, e após recolhidos inúmeros depoimentos e pareceres, esse processo culminou na sua classificação como “ferido em serviço” e não “ferido em campanha”, como reivindicava. Só em 1977, com a sua qualificação como Deficiente das Forças Armadas, nos termos do Decreto-Lei n.º 43/76, de 20 de janeiro, o meu pai viu reconhecido o seu direito “à plena reparação de consequências sobrevindas no cumprimento do dever militar” e a “obrigação de a Nação lhe prestar assistência económica e social, garantindo a sobrevivência digna”. Do dossier do meu pai consta ainda a passagem para a situação de reforma, por “ter sido julgado incapaz de todo o serviço”, em novembro de 1976, e a subida de posto, para 2º sargento miliciano, em 1984.

Antes do 25 de Abril, o meu pai integrou o movimento clandestino ou semiclandestino que existia dentro dos DFA, que queria paz e acabar com a chacina, e que, dentro do espírito do Movimento dos Capitães, lutou para que um dos principais D’s fosse Descolonizar. O meu pai também fez o 25 de Abril. Na rua. De arma na mão.

Palácio da Independência, Lisboa, no pós-25 de Abril. O meu pai está na mesa da direita, ao meio, de cabelo e barba comprida. Na foto estão ainda vários companheiros, entre os quais os militares de Abril Capitão António Calvinho e Sargento Mor Carmo Vicente.

Estilhaços

Os ex-combatentes da 21ª Companhia de Comandos invocam o meu pai como um ótimo militar, enérgico, respeitado por todos, física e psicologicamente muito resistente, fiável, um pouco rebelde, uma pessoa divertida e brincalhona. Os seus companheiros da ADFA lembram-no como um ser cabalístico, leal, sedutor, que “tão depressa tinha acabado de dar com a mão de ferro [leia-se, a prótese] na cabeça de alguém como ficava melado e começava a derreter quando vinha uma moça”.

Eu nunca olhei para o meu pai como um “coitadinho”. Também não tinha qualquer margem para o fazer. O meu pai era um furacão, uma força da natureza. Era um revolucionário. Desde que regressou da guerra, passou toda a sua vida a lutar por causas. E eu reconheço-me em todas elas. Sabia que tinha visto e vivido coisas que ninguém devia ver e viver. Que tinha sobrevivido sozinho. Que era um lutador. Que, envolto em traumas como estava, também era alegria em movimento. Que sorria para o mundo. Que era imensamente inteligente e capaz. Vi-o trabalhar, com uma dedicação incansável, uma entrega total, até aos últimos dias da sua vida. Lembro-me também que, quando era pequena, o meu pai pegava nas suas duas filhas, eu e a Marta, e na minha irmã Rita, filha da minha mãe, só com uma mão. E que nos dava grandes “abadas nos matrecos”. Recordo-me ainda de uma ocasião em que o Bernardo, um dos meus irmãos mais novos (o Gonçalo é o caçula), com apenas 3 ou 4 anos, anunciou, orgulhoso, que, quando fosse grande, não iria ter uma mão, como o pai. E ninguém podia convencê-lo do contrário. Porque não havia maior aspiração na vida do que ser igual ao pai.

Em Santarinho, Viseu, nos anos 80.

Mas eu sabia, sentia, ouvia, vivia, os seus estilhaços. Os que lhe saíam do corpo, literalmente, ao longo dos anos e aqueles que não se viam mas estavam lá.

O meu pai nunca me explicou que foi comando. A versão era outra. Creio que nunca fez as pazes consigo próprio por isso. Ou, pelo menos, nunca conseguiu apaziguar-se. Por ter marchado para o matadouro. Por se ter tornado carne para canhão. Por ter matado, visto morrer. Pelos horrores que fez, os horrores que viu fazer. “Tu não imaginas o que eu fiz”, dizia-me.

Um olhar pesado e sombrio. Era assim que sabia que iríamos falar, ou melhor, que ele iria falar, sobre a guerra. Não consigo perceber bem que idade tinha aquando da primeira conversa de que me recordo. Era mesmo muito pequena. Geralmente, ficávamos os dois num quarto de luz apagada. Ele olhava-me fixamente e começava a falar sobre os seus demónios. Eram episódios fragmentados, sempre. Muitas vezes, o seu discurso já estava completamente incoerente e descoordenado. Eu absorvia palavra a palavra como se fossem as últimas que fosse ouvir em toda a minha vida. E esforçava-me o mais que podia para pesar bem as minhas. Não conseguia imaginar o que era carregar aquelas memórias. Matar, ver morrer. Morrer aos poucos.

Entre os vários relatos que ouvi ao longo da minha vida, há três que retive com maior pormenor. A imagem de um companheiro estendido no chão, com parte dos intestinos de fora, os outros a rodeá-lo, sabendo que nada havia a fazer. Um deles arranca o crucifixo que tinha pendurado no pescoço, enterra-o no chão e anuncia que renuncia naquele momento a Deus. Um momento em que um companheiro leva um tiro no cantil e, ensopado de água, julga estar a esvair-se em sangue, anuncia a sua morte e atira-se para o chão, sendo motivo de chacota geral. A visita da primeira paixão ao Hospital de Hamburgo, onde o meu pai estava internado. Sentou-se ao seu lado com um profundo olhar de pena e disse-lhe: “Jorge, o que vai ser agora da nossa vida?”. O meu pai pediu-lhe para nunca mais voltar.

As mortes dos companheiros de luta, da guerra, da ADFA, da resistência antifascista, eram momentos limites. Eram a sua família e era assim que o meu pai os chorava. Todo ele era tristeza, todo ele era revolta, todo ele era mágoa, todo ele era perda. Todo ele era vulcão.

Mercado do Povo, em Belém. O meu pai (na foto é o primeiro do lado direito) com vários companheiros, entre os quais o Pulga, Calvinho, Carmo Vicente.

Herdei, também, essa família. O meu pai foi um dos fundadores e dirigentes da Associação dos Deficientes das Forças Armadas em Lisboa e em Viseu, tendo igualmente sido um dos construtores da Cooperativa dos Deficientes das Forças Armadas. Recordo os tempos passados na ADFA, em Lisboa e em Viseu, tardes e dias inteiros, com feridos de guerra: uns sem pernas, outros sem braços, outros cegos, outros surdos… E outros cujos pensamentos ficaram permanentemente perdidos na Guiné, ou em Moçambique, ou em Angola. Muitos deles viviam ainda a guerra.

O meu pai no funeral do Zeca Afonso, seu grande amigo, em Setúbal, 23 de fevereiro de 1987. Foto de António Sequeira.

Entre os Deficientes das Forças Armadas e os companheiros de outras lutas do meu pai estava em casa, em família. Estou em casa, e em família. Sempre lidei com a deficiência com a maior naturalidade, como apenas mais uma característica de cada um deles. E habituei-me a brincar com as suas próteses espalhadas pela casa, porque sempre vivemos rodeados dos seus companheiros. Sempre estiveram presentes nas nossas vidas. Habituei-me a passar de colo em colo e a crescer e aprender com eles. É também graças a pessoas como o Carmo Vicente, o Calvinho, o Marcelino, o Godinho, o Arruda, o Correia..., que tanto admiro, que soube, desde sempre, o que foi, de facto, o passado colonial português e os horrores de uma guerra injusta, imoral, maldita.

Eu, ao colo do meu pai, na ADFA, em Lisboa.

Com os Deficientes das Forças Armadas, com o meu pai, descobri que é possível ter dores em membros amputados: a chamada dor do membro fantasma. E que essas dores podem permanecer toda uma vida e ser totalmente esmagadoras e incontroláveis. E aprendi que não só os DFA tinham de aprender a viver com a sua deficiência, não só tinham de lidar com o fantasma da guerra, e com o stress pós-traumático que muitos “herdaram”, como também se viam confrontados com todos os obstáculos que lhes eram impostos: logísticos, burocráticos, assistencialistas. Assisti à sua revolta quando obrigados a pedinchar para usufruírem dos seus direitos. Das burocracias infindáveis: os atrasos nos pagamentos da ADME; a obrigação de renovação permanente do Atestado Médico de Incapacidade Multiusos, necessário, nomeadamente, para ter isenção do IUC (como se o braço do meu pai fosse brotar do nada e a sua deficiência de 65% desaparecesse por obra do espírito santo); a dificuldade e a morosidade dos processos para assegurar a manutenção e substituição das próteses…

Eu, ao colo do Rendeiro, junto ao palácio da Independência. Na foto aparece também o Carmo Vicente.

E também assisti à sua revolta quando os tentavam manipular para fins puramente eleitoralistas, quando o puro assistencialismo misericordioso pregado nada mais fazia do que retirar a sua dignidade. Quando tomavam consciência de que a nossa História, a história do colonialismo português, que não teve nada de brando, a história da Guerra Colonial, eram permanentemente branqueadas, e que eles próprios se tornavam num estorvo difícil de gerir. E a sua perplexidade quando, ainda hoje, a Guerra Colonial é nomeada de guerra do ultramar, quando as ex-colónias são chamadas de províncias ultramarinas. Quando o discurso lusotropicalista lhes invade casa adentro.

Jantar da ADFA de Viseu. O Correia em primeiro plano, à direita na foto, logo a seguir o meu pai e eu no seu colo.

O meu pai pegou nos seus estilhaços e fez deles força, protesto, ação. Mas viveu com eles toda a sua vida. E, como não podia deixar de acontecer numa relação tão cúmplice como a nossa, partilhou-os comigo. Foi assim que a Guerra Colonial chegou até mim.

E termino como sei que o meu pai gostaria que eu terminasse, com um poema do António Calvinho, publicado no livro Trinta Facadas de Raiva:

INTRÓITO

Eu não canto o épico da guerra!
Não, não canto!
Eu canto a agressão
que fui e suportei!
- Eu fui à guerra:
MATEI!
- Aqui estou, hoje e agora, 
amanhã e sempre,
para gritar em verso ou prosa
aquilo que vi, fiz e vivi:
- Porque acordei!
E dou testemunho de tudo quanto canto
pois tudo vivi como instrumento
e hoje sinto como canto!
- Não quero esquecer a guerra!
Ninguém a deve esquecer!...
A lembrança
Há-de ser
até morrer
o permanente estigma
que todas as madrugadas
me há-de mobilizar!
        (E não me venham falar de esponjas).

O meu pai, numa das últimas tardes de Verão que passámos juntos, na sua casa em Viseu, num alpendre florido que exibia orgulhosamente a quem passava, a partilhar cumplicidades.

 

(...)

Resto dossier

(1964), "“Guerra Colonial”: exército português em operações.", Fundação Mário Soares / AMS - Arquivo Mário Soares - Fotografias Exposição Permanente, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114094

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AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos Gomes. Guerra Colonial. Edição: Editorial Notícias, abril de 2000

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