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“É preciso romper com o mito de que fomos bons colonizadores”

André Amálio tem-se dedicado ao teatro documental sobre o passado colonial português. O fundador da companhia de teatro Hotel Europa defende que “o sector cultural tem que estar na vanguarda destas mudanças, trabalhando ao lado de outro tipo de agentes que estejam a refletir sobre estas temáticas na nossa sociedade”. Entrevista conduzida por Mariana Carneiro.
Foto publicada na página de facebook de Hotel Europa.

Como surgiu a companhia Hotel Europa?

A companhia Hotel Europa surge do encontro entre dois criadores, eu e a Tereza Havlíčková, no mestrado de Performance Making da Goldsmiths University em Londres. O espectáculo fim de curso desse mestrado chamava-se Hotel Europa e era sobre os nossos pais e os regimes políticos que eles viveram (fascismo e comunismo). Anos mais tarde, decidimos voltar a trabalhar juntos e criámos uma companhia de teatro. Utilizamos esse nome, Hotel Europa, em homenagem a esse espectáculo e ao tipo de teatro que desenvolvemos nesse projecto, que está na base daquilo que fazemos hoje.

Este projeto tem-se dedicado ao teatro documental em torno do tema do colonialismo e da Guerra Colonial. Qual a razão desta escolha?

Nesse mestrado que fiz em Londres fui questionado sobre o passado colonial português por vários colegas meus, e sobretudo pela Tereza. Eram perguntas para as quais eu não tinha resposta, coisas que eu não sabia de todo ou sobre as quais nunca tinha pensado. Apercebi-me com essas perguntas que os portugueses contavam uma versão sobre a história colonial que não correspondia de todo com o que tinha acontecido. A partir deste momento, nasceu em mim o desejo de saber o que, de facto, aconteceu e os porquês para esta narrativa mitificada que criámos de nós próprios e do nosso passado. Decidi para isso começar um doutoramento como forma de aprofundar esta minha investigação. No decurso desse processo de pesquisa, encontrei o teatro documental e percebi que era a estética onde queria fazer este trabalho.

Desde 2015, já levaram ao palco várias peças: “Portugal Não É Um País Pequeno”; "Passa-Porte"; “Libertação; “Amores Pós-Coloniais”; “Os Filhos do Colonialismo”; e “O Fim do Colonialismo Português” (5 outubro). Podes falar-me um pouco deste percurso, de como este trabalho foi evoluindo e quais as abordagens presentes em cada uma destas criações?

O percurso que fomos construindo neste ciclo de criação acabou por se ir desenhando a si próprio. No final de cada espectáculo percebi o que deveria fazer a seguir. Comecei pelo Portugal Não É Um País Pequeno a partir de entrevistas a antigos colonos portugueses e apercebi-me que as histórias de vida que andava a recolher estavam cheias de nostalgia colonial, muito pouco críticas em relação ao passado colonial português. No final desse espectáculo, quis fazer o Passa-Porte, onde colocava em cena entrevistas de colonizadores e colonizados dando ao público a possibilidade de as comparar e olhar criticamente. Com este espetáculo nasceu a vontade de perceber as histórias das pessoas que resistiram e lutaram contra o colonialismo português, que é uma parte do nosso passado recente que não é muito acessível ao público português. Nasceu assim o Libertação. Estes três espectáculos foram aqueles que fizeram parte do meu doutoramento. Mas, concluído este processo, eu fiquei ainda com duas questões que ficaram por trabalhar. Uma era sobre o amor, como é que o amor era condicionado pelo colonialismo durante o período colonial, mas também como é que ele ainda se mantém presente  nos dias de hoje (Amores Pós-Coloniais); e também quis falar de mim, da minha geração, a que não viveu o período colonial ou a ditadura, como é que nós nos relacionarmos com este passado, com esta herança dos nossos pais ou avós e que implicações é que isto tem para aquilo que somos hoje (Os Filhos do Colonialismo). Finalmente, concluímos todo este processo de 7 anos de investigação com uma performance duracional de treze horas, em analogia com os treze anos de guerras de libertação travadas pelas antigas colónias portuguesas. Esta performance, O Fim do Colonialismo Português  analisava todo o percurso feito neste anos, as escolhas que fiz, as análises ao que ia ouvindo dos meus entrevistados, e mostrava material recolhido (entrevistas) que nunca tinha utilizado anteriormente. Interessava-me também fugir à pressão de fazer um espectáculo curto onde apenas se podiam ouvir 2 ou 3 minutos de uma entrevista de 3 horas. Nesta performance o público podia entrar e sair quando quisesse e ter acesso a excertos bastante mais longos de cada testemunho escolhido. 

Espectáculo PASSA-PORTE. Na imagem (da esquerda para a direita): Tereza Havlickova, Selma Uamusse e André Amálio. Foto: José Frade.

Ao procurarem ir “ao encontro da História vivida, e não apenas da História escrita” quais são os maiores constrangimentos com que se têm confrontado?

Para mim, este trabalho acarreta consigo questões éticas muito importantes. Estamos a trabalhar a partir das histórias de pessoas reais que tiveram a generosidade de falar connosco e essas pessoas têm que ser tratadas com muito respeito, mesmo quando têm visões do passado ou do mundo diferentes das nossas. Os maiores constrangimentos estão relacionados com o respeitar as pessoas, assim como a ética deste tipo de trabalho. Todas as entrevistas são tratadas como fonte anónima. A maior parte das vezes, o material de entrevistas é transmitido por um actor e quando, em alguma situação, decidimos utilizar a voz da pessoa a autorização foi pedida. Além disso, tem sido também importante para nós explicarmos às pessoas com que falamos quem somos, qual é nossa posição política sobre o tema que estamos a investigar, para que a pessoa que vamos entrevistar possa tomar uma decisão informada e consciente.

Quais são, para ti, os principais tabus sobre o colonialismo português e a Guerra Colonial que persistem na nossa sociedade e quais os mitos que é urgente desconstruir?

Penso que é preciso falar abertamente do passado colonial português, rompendo com o mito e ideologia lusotropicalista de que fomos uns bons colonizadores. Os portugueses não foram bons colonizadores, foram tão maus como todos os outros e não há bom colonialismo. É preciso conhecer melhor a história do colonialismo português, o que implica reconhecer o papel histórico de Portugal no tráfico de pessoas escravizadas no Atlântico, reconhecer a opressão colonial, o trabalho forçado e os massacres feitos pelo sistema colonial português. Há tanto por fazer nestas matérias e, na verdade, só agora é que estamos a começar a fazer mudanças. Ainda temos um longo caminho a trilhar. Por exemplo, o mito de que os portugueses não são racistas é uma criação do fascismo e do colonialismo português que ainda hoje se continua a perpetuar; toda a romantização da nossa história à volta dos “descobrimentos” é outro aspecto que importa desconstruir. Claro que custa muito falar sobre isso, é difícil reconhecer que os Portugueses durante muito tempo fizerem mal a outros povos, ainda mais quando se criou um conto de fadas à volta desta história que diz que nós fomos bons. Penso que a minha geração quer saber a verdade da nossa história e está pronta a reconhecer todo o mal que foi feito e do qual somos herdeiros. É urgente falar sobre isto, re-escrever a nossa história. 

E qual é a importância que consideras que o setor cultural – seja ao nível dos domínios dos livros e publicações, das artes do espetáculo ou do audiovisual & multimédia – tem na desconstrução desses mesmos mitos e no que concerne a dar visibilidade às vítimas de cerca de 14 anos de uma Guerra imposta pelo fascismo?

Para mim o sector cultural tem que estar na vanguarda destas mudanças, trabalhando ao lado de outro tipo de agentes que estejam a refletir sobre estas temáticas na nossa sociedade. Na minha opinião, o mais relevante é que este tipo de mudanças aconteçam em rede, ou seja, que existam vários meios a discutir isto no país, nas universidades, nas artes, nos grupos de activistas. Julgo  só assim é possível produzir mudança. Mas penso que a arte consegue chegar às pessoas de uma forma diferente, trazendo uma qualidade que é inerente à própria arte.

 A companhia Hotel Europa já está a preparar um novo projeto?

A companhia Hotel Europa vai continuar a desenvolver os ciclos do Amor e das Pós-Memórias que começámos este ano, levando agora estas temáticas à ditadura e à história da resistência ao fascismo em Portugal. Vamos começar com um espectáculo que se vai chamar Amores na Clandestinidade, criado a partir de histórias de amor de pessoas que estavam a lutar contra o Estado Novo, e outro que se vai chamar Os Filhos do Mal, sobre a relação que pessoas que foram filhos de agentes da ditadura portuguesa têm em relação ao passado dos seus pais. Estes trabalhos irão estrear no próximo ano.


* André Amálio - Formado pela Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC), André Amálio tirou o mestrado de Performance Making na Goldsmiths University, em Londres, e o doutoramento na University of Roehampton, também em Londres. Participou em espetáculos dirigidos por diretores e coreógrafos como Ajaykumar, Anna Furse, Antonia Terrinha, António Feio, Francisco Alves, Giacomo Scalisi, João Brites, Lucia Sigalho, Luís Castro, Madalena Vitorino, Marie-Gabrielle Rotie e Luís Brites. Fez parte do filme “Sombras, dirigido por João Trabulo. André Natálio criou programas como "Estamos Agora Sós", "Construction Revisited" e "Amalio VS Amália". É fundador da companhia de teatro Hotel Europa. Em Lisboa fundou ainda o espaço artístico Liberdade Provisória, onde é artista residente e diretor artístico. É professor visitante no Departamento de Teatro da Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha desde 2011.

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Resto dossier

(1964), "“Guerra Colonial”: exército português em operações.", Fundação Mário Soares / AMS - Arquivo Mário Soares - Fotografias Exposição Permanente, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114094

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AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos Gomes. Guerra Colonial. Edição: Editorial Notícias, abril de 2000

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