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Uma viagem pelo mundo em 2019 (22): A América do Sul

No último capítulo desta "viagem pelo mundo", Jorge Martins analisa os acontecimentos políticos recentes em vários países da América do Sul.
Manifestação no Chile em novembro de 2019. Foto Vivian Morales C./Flickr

Desigualdades persistentes, viragem à direita e revoltas populares

Os países latino-americanos da América do Sul possuem uma história semelhante aos da América Central, com desigualdades sociais semelhantes. Porém, a região é, em geral, mais industrializada que a do istmo centro-americano e daí que, além da oligarquia rural terratenente, são importantes, também, os setores oligárquicos afetos aos setores industrial e financeiro. Por isso, apresenta maiores taxas de urbanização, fruto de um enorme êxodo rural, em especial a partir dos anos 50, o que gera elevados índices de pobreza urbana. Também aqui os breves períodos democráticos foram, frequentemente, interrompidos por golpes de Estado, que instauraram ditaduras, por vezes brutais. A ingerência dos EUA, embora de forma mais indireta e encapotada, é, igualmente, algo que influencia enormemente a evolução política da região. Após uma década de 90 onde prevaleceu o neoliberalismo, a primeira do séc. XXI ficou marcada por uma acentuada viragem à esquerda. Porém, tanto por pressões alheias como por erros próprios, as esquerdas falharam a prova do poder e a direita, em certos casos a mais reacionária, recuperou posições e controla novamente a maioria do continente. Contudo, o ano que findou ficou marcado por revoltas populares contra as políticas neoliberais, reacionárias e/ou autoritárias em vários países. 

Alguns episódios mais antigos da história política destes países podem ser consultados, de forma mais detalhada, aqui, nas minhas previsões para 2019.

A Venezuela é um exemplo do que referimos acima. O país é um dos grandes produtores mundiais de petróleo, o que gera grandes “apetites” externos, tanto da parte das multinacionais do setor como das grandes potências. Em 1989, após um acordo com o FMI, o presidente Andrés Pérez tomou um conjunto de medidas altamente impopulares, que, a par com uma corrupção cada vez maior, geraram protestos generalizados, conhecidos como o Caracazo, cuja repressão provocou centenas de mortos. Em 1992, ocorreram duas tentativas de golpe de Estado, a primeira das quais liderada pelo tenente-coronel Hugo Chávez, cuja rendição em direto na televisão lhe granjeou grande popularidade, especialmente entre as classes populares. Nas presidenciais de 1998, com os dois partidos alternantes - a social-democrata Ação Democrática (AD) e o democrata-cristão COPEI - totalmente desacreditados, Hugo Chávez, à frente do Movimento Revolucionário Bolivariano (MRB), vence com 56% dos votos. Dá, então, início a um processo que designa por Revolução Bolivariana, com o objetivo declarado de construir o que designou por “socialismo do séc. XXI”. Após um referendo que lhe outorgou uma maioria esmagadora, convocou, em 1999, uma assembleia constituinte. Esta elaborou uma nova Constituição, amplamente democrática, que procurava conciliar a democracia representativa com a participativa. Aprovado o novo texto constitucional, o presidente decidiu, então, convocar eleições para todos os cargos eletivos, a nível nacional, estadual e local. Estas tiveram lugar em 2000 e Chávez foi reeleito com perto de 60% dos votos. Inicia, então, um conjunto de reformas económicas e sociais, entre as quais uma lei sobre o petróleo e o gás e outra dando início a uma reforma agrária. Os setores empresariais e as classes altas opõem-se a estas medidas e começam a atacar o governo, organizando manifestações e greves, com o apoio dos EUA. Em 2002, um golpe de Estado coloca no poder Pedro Carmona, líder da principal federação empresarial, mas, dois dias depois, um contragolpe repõe a legalidade constitucional. No ano seguinte, apesar da greve que paralisou a produção petrolífera, Chávez inicia um conjunto de programas sociais, as chamadas “missiones”, que levam a educação e a saúde às populações mais pobres. A oposição não desarma e, em 2004, utiliza um instrumento previsto na nova Constituição: a convocação de um referendo revogatório do presidente. Contudo, o resultado é favorável a Chávez, com 59% dos eleitores votando contra a sua destituição. Em 2006, é reeleito com perto de 63% dos sufrágios, derrotando o oposicionista Manuel Rosales. Em 2007, federa os apoiantes da revolução, criando o Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV), e apresenta uma proposta de revisão constitucional, que lhe daria amplos poderes. Contudo, esta é rejeitada, em referendo, por curta margem, e Chávez aceita a derrota. Entretanto, nacionaliza uma série de empresas estratégicas, algumas pertencentes a companhias estadunidenses. Dois anos depois, consegue ver aprovado o fim da limitação dos mandatos dos cargos públicos para permitir a sua recandidatura. Entretanto, a descida dos preços do petróleo provocou sérias dificuldades económicas. Ao mesmo tempo, o regime começou a resvalar para o autoritarismo, com a prisão de alguns opositores, sob a acusação de golpismo, a intimidação de outros pelos coletivos “chavistas” e pressões crescentes sobre a comunicação social. Em 2012, já doente, Chávez foi reeleito com 55% dos votos, batendo o oposicionista moderado Henrique Capriles, que aceitou a derrota. Vítima de cancro, faleceu em 2013, o que levou à convocação de novas presidenciais. Nestas, o candidato do PSUV, Nicolás Maduro, vence tangencialmente Capriles, da Mesa de Unidade Democrática (MUD), mas os resultados foram contestados pela oposição. A queda contínua dos preços do petróleo, a partir de 2014, agravou a situação económica e o país começa a enfrentar uma grave crise social. Também a má gestão de uma administração ineficiente, “enxameada” de “boys” do regime, a corrupção endémica, o boicote de certos setores empresariais e as sanções dos EUA contribuíram para o agravamento da crise. Para tentar atrair capitais, o governo aprova o projeto do “arco mineiro do Orinoco”, que abre às companhias mineiras internacionais a exploração dos recursos aí existentes, o que se traduzirá em danos ambientais irreparáveis. Nas eleições parlamentares de 2015, a MUD vence com mais de 56% dos votos e consegue uma maioria constitucional de 2/3. Maduro e o PSUV não aceitam o resultado e, em 2017, o presidente convoca uma assembleia constituinte, que seria eleita não apenas com base no voto dos cidadãos, mas também no de organismos corporativos (associações patronais, sindicais, profissionais, coletivos e outras), todos eles controlados pelo PSUV. No fundo, procurava ganhar na “secretaria” o que perdera nas urnas. Todas as formações oposicionistas boicotam a sua eleição e aquela, só com partidários do regime, assume, ilegitimamente, as funções do Parlamento. A partir daqui, dá-se a rutura total entre governo e oposição, ao mesmo tempo que a situação económica e social se agrava, levando mais de três milhões de venezuelanos a fugir do país. Também alguns setores da esquerda que apoiaram Chávez, os chamados “chavistas críticos”, repudiam a atuação de Maduro, a quem acusam de deriva ditatorial. Em 2018, aquele é reeleito com 68% dos votos, num ato eleitoral onde os principais candidatos da oposição foram inabilitados e que não foi reconhecido nem pela maioria da comunidade internacional nem pelas organizações de direitos humanos como livre e justo. Em janeiro de 2019, o presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, declarou a ilegitimidade de Maduro e autoproclamou-se presidente interino, com o apoio dos EUA e outros países aliados. No dia 30 de abril, com um pequeno grupo de militares, libertou o seu correligionário Leopoldo López, detido desde 2014, sob acusações de conspiração e terrorismo, e tentou ocupar uma base aérea. Sem deserções significativas nas forças armadas e com as manifestações rapidamente reprimidas, a intentona falhou e Lopéz acabou por refugiar-se na embaixada espanhola. A oposição esmoreceu e Maduro aproveitou para consolidar o poder. No início deste ano, Guaidó encetou uma viagem pela Europa, tentando obter apoios. Esta terminou com a detenção de um seu tio, acusado de, alegadamente, transportar explosivos em lanternas no avião da TAP, onde o líder oposicionista viajou. A verdade é que a sociedade venezuelana se encontra profundamente dividida e nem o regime nem a oposição (também ela muito dividida) têm soluções para resolver o grande problema estrutural do país: a excessiva dependência das exportações petrolíferas, cujas oscilações determinam os ciclos económicos do país. E sem um diálogo mínimo entre o governo e os seus opositores, que leve à realização de eleições gerais livres, fiscalizadas pela ONU, o país corre o risco de entrar em guerra civil. No entanto, os EUA, que, apesar de toda a retórica, são os principais compradores do petróleo venezuelano, embora apostem todas as “fichas” numa mudança de regime, não estarão interessados num caos generalizado que paralise a produção petrolífera. Veremos o que nos reservam os tempos mais próximos, mas, infelizmente, o futuro próximo do país é tudo menos risonho e o sofrimento do povo venezuelano vai continuar!...

A vizinha Colômbia é outro país que tem uma história conturbada. Após o fim da guerra civil entre conservadores e liberais, em 1958, os dois partidos acordaram em repartir entre si o poder durante os 16 anos seguintes, alternando na presidência em cada quadriénio. Esta solução impediu a formação de alternativas de esquerda no seio do sistema político, o que levou à formação de vários movimentos revolucionários: as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o Exército de Libertação Nacional (ELN) e o Movimento 19 de Abril (M19). Nos anos 70, o narcotráfico iniciou a sua expansão e os carteis da droga, em especial os de Medellín e o de Cali, foram responsáveis pelo aumento da violência urbana. Uma das figuras mais sinistras desse período foi Pablo Escobar, líder do cartel de Medellín. Em 1982, o presidente conservador Belisario Betancur conseguiu um acordo de paz com as FARC, que criaram um partido legal, a União Patriótica (UP). Porém, vários dos seus dirigentes foram assassinados e o movimento voltou à guerrilha. Em 1990, na presidência do liberal Virgilio Barco, assistiu-se à desmobilização do M-19, que se transformou em partido político. Nesse ano, o cartel de Medellín assassinou três candidatos presidenciais e efetuou vários atentados e ataques terroristas. Em 1993, o seu líder foi abatido pela polícia, após ter fugido da luxuosa prisão onde se encontrava, e a violência dos carteis enfraqueceu. Em 1997, surge uma organização paramilitar de extrema-direita, as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), formadas com o apoio de latifundiários, traficantes de droga locais e alguns militares, destinada a combater os guerrilheiros. Foram responsáveis pela instauração de um clima de terror nas áreas rurais, onde levaram a efeito uma série de massacres de camponeses, sindicalistas e indígenas. Em 1998, o conservador Andrés Pastrana iniciou novo processo de paz com as FARC, com a criação de uma “zona de distensão”, onde os guerrilheiros podiam concentrar-se sem serem atacados pelo exército. Porém, nas eleições de 2002, a vitória coube a Álvaro Uribe, um liberal dissidente e candidato do movimento Primeiro Colômbia, que se transformaria, mais tarde, no Partido Social de Unidade Nacional (popularmente conhecido como Partido de la U), terminando com o bipartidarismo. Adepto da linha dura, abandonou o acordo firmado pelo seu antecessor e apostou na solução militar do conflito. Numa altura em que a esquerda pontificava no continente, tornou-se o mais fiel aliado dos EUA na região, o que levou estes a compensá-lo com a venda de armamento militar sofisticado e envio de peritos na contrainsurreição. Conseguiu um acordo de cessar-fogo com as AUC, após uma investigação ter provado a ligação destas com congressistas e militares. Contudo, a sua abordagem “musculada” apenas contribuiu para uma nova escalada de violência. Após ter aprovado uma emenda constitucional permitindo a reeleição, venceu as presidenciais de 2006, mas o candidato do Polo Democrático Alternativo (PDA), da esquerda, ficou no segundo lugar. Em 2010, sucedeu-lhe o seu “vice”, Juan Manuel Santos. Este deu uma viragem ao centro e procurou uma solução política para o conflito e voltou às negociações com as FARC, o que levou Uribe a deixar o partido e criar uma nova formação direitista, o Centro Democrático (CD). Em 2012, o governo colombiano assinou um plano de paz com aquela organização guerrilheira, que, em troca de uma amnistia, se transformaria num partido político. Santos foi reeleito em 2014, com uma pequena vantagem sobre Iván Zuluaga, do CD de Uribe. Em 2016, o acordo foi rejeitado por uma margem mínima (50,2%) num referendo popular, após uma agressiva campanha conduzida pelos “uribistas”. Contudo, após algumas alterações de pormenor, acabou por ser ratificado no Parlamento, no ano seguinte. Nas eleições de 2018, a antiga guerrilha apresentou-se como a Força Alternativa Revolucionária do Comum (FARC), mas os seus resultados foram muito pobres, não ultrapassando os 0,5% dos votos. É certo que o tempo de organização foi pouco e vários dos seus dirigentes locais foram (e continuam a ser) assassinados, mas, mesmo assim, o desempenho eleitoral foi muito fraco. Nas presidenciais de maio, o direitista Iván Duque, do CD, derrotou, na 2ª volta, o candidato da esquerda, Gustavo Petro, do PDA. Apesar de, durante a campanha, ter prometido reverter o acordo de paz, a verdade é não o fez. Contudo, interrompeu as negociações com o último grupo guerrilheiro, o ELN, iniciadas por Santos. As eleições autárquicas de outubro saldaram-se por uma derrota governamental. Em Bogotá, Claudia Lopéz, lésbica assumida, apoiante dos acordos de paz e ativista ambientalista e anticorrupção, apoiada pela Aliança Verde, foi eleita alcaldeza. Em novembro, rebentaram grandes protestos populares contra as políticas austeritárias, a corrupção e o negacionismo climático do governo de Duque, acusado igualmente de cumplicidade no assassinato quotidiano de líderes sindicais, camponeses, indígenas, feministas e ex-guerrilheiros. Organizadas por setores oposicionistas, as manifestações da chamada “greve nacional” ocorrem em dias não consecutivos em várias cidades e continuam ativas, enquanto o poder reage, ora com a repressão dos protestos, ora com medidas tendentes a aplacar o descontentamento popular.

O Equador é o segundo país mais pequeno da América do Sul e a sua história é, igualmente, marcada por uma instabilidade política constante. Apesar de ser produtor de petróleo, a maioria da população continua pobre. Entre 1996 e 2006, nenhum presidente conseguiu terminar o seu mandato, tendo-se registado, inclusive, uma tentativa de golpe de Estado, em 2000, que levou à demissão do presidente Jamil Mahuad, substituído pelo seu “vice”, Gustavo Noboa. Em 2002, Lucio Gutiérrez, um dos militares golpistas, foi o primeiro indígena a ser eleito presidente, batendo o incumbente. Eleito com os votos da esquerda, acabou a governar à direita e a querer controlar o poder judicial, face a acusações de nepotismo e corrupção de que o seu governo era alvo. Em 2005, os protestos populares foram crescendo e, após uma gigantesca manifestação em Quito, acabou por abandonar o poder. No ano seguinte, as eleições levaram ao poder o candidato da esquerda, Rafael Correa, da Aliança PAIS. Convoca uma assembleia constituinte, que aprova, em 2008, uma nova Constituição, ratificada em referendo. No ano seguinte, são convocadas eleições gerais e Correa é reeleito à 1ª volta, o mesmo sucedendo em 2013. O seu programa, denominado Revolução Cidadã, caracterizou-se pelo aumento da intervenção estatal da economia, em especial no setor petrolífero e do investimento público em infraestruturas e programas sociais. Ao mesmo tempo, promoveu a reestruturação da dívida externa sem recorrer à austeridade e reformou o setor financeiro. Ficou célebre por ter concedido asilo político a Julian Assange, refugiado na embaixada equatoriana em Londres. Entre os pontos negativos, a hostilização da comunicação social, contra a qual elaborou leis que, na prática, restringiam a plena liberdade de imprensa. Não podendo apresentar-se a nova reeleição, foi candidato da Aliança PAIS o vice-presidente Lenín Moreno, que obteve uma vitória apertada sobre o liberal-conservador Guillermo Lasso. O novo presidente rapidamente se distanciou do seu antecessor, a quem acusou de autoritarismo e corrupção. Prometeu um combate sem tréguas a esta última e convocou um referendo com várias questões, a principal das quais a cláusula “anti-Correa”, que veda o retorno à presidência a quem já tenha cumprido dois mandatos. Na política internacional, rompeu com a ALBA e entregou Assange às autoridades britânicas. No plano económico, rompeu com a orientação anterior, implantando medidas de austeridade, após um acordo com o FMI. Em outubro, estalou uma revolta popular, promovida pela Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE), com o apoio de organizações sindicais e estudantis e forças políticas de esquerda, que incluiu várias manifestações e uma greve geral. Após violentos confrontos em Quito, o governo decretou o estado de emergência e transferiu-se temporariamente para Guayaquil. Após a mediação da ONU e da Igreja Católica, o executivo recuou, repondo o subsídio aos combustíveis, cujo fim tinha sido o rastilho da revolta, levando ao fim dos protestos. Contudo, tomou medidas repressivas, perseguindo e detendo vários líderes da revolta e parlamentares da esquerda, alguns dos quais se refugiaram na embaixada mexicana. A Revolução Cidadã já não é mais que uma saudade!...

Também o Perú, pátria da civilização inca, é uma sociedade desigual, com grande percentagem de população pobre e, por isto, onde a instabilidade política e social são constantes. Nas eleições de 1990, Alberto Fujimori, do movimento populista Cambio 90 derrotou, na 2ª volta, o escritor Mario Vargas Llosa, da coligação de centro-direita FREDEMO, graças aos votos da esquerda. Porém, rapidamente revelou a sua ideologia direitista. Sob a orientação do FMI, aplicou as tradicionais receitas neoliberais, com destaque para a privatização da maioria das empresas estatais. As suas tendências autoritárias foram visíveis desde o início e, em 1992, deu um autogolpe, dissolvendo o Congresso, após os que elaborou uma nova Constituição. Nesse ano, logrou capturar Abimael Guzmán, líder do Sendero Luminoso, a sanguinária guerrilha maoista, e outros dirigentes da organização, que ficou bastante enfraquecida. Foi reeleito em 1995, derrotando facilmente o candidato oposicionista Javier Pérez de Cuellar, antigo secretário-geral da ONU. O crescente autoritarismo e a corrupção fizeram decrescer a sua popularidade. Pretextando que a sua primeira eleição ocorrera antes da aprovação da Constituição em vigor, candidatou-se a um terceiro mandato em 2000. Em eleições consideradas manipuladas, bateu Alejandro Toledo, do centrista Perú Posible, que recusou disputar a 2ª volta. Pouco tempo depois, um escândalo de corrupção, que revelou um esquema de compra de votos no Congresso, envolvendo o seu principal assessor e chefe dos serviços secretos, Vladimiro Montesinos, levou-o a abandonar o país. Convocadas novas presidenciais para o ano seguinte, foram estas ganhas por Toledo, que, ao derrotar o ex-presidente Alan García, da social-democrata Ação Popular Revolucionária Americana (APRA), se tornou no primeiro presidente de origem indígena. Apesar do elevado crescimento económico, o seu governo ficou marcado por um grande aumento da corrupção. Em 2006, Alan García voltou mesmo ao poder, conseguindo uma vitória apertada sobre o candidato da esquerda Ollanta Humala, do Partido Nacionalista Peruano (PNP). Este acabaria por ser eleito em 2011, vencendo Keiko Fujimori, filha do antigo presidente, do partido Força Popular (FP), numa renhida 2ª volta. Eleito com apoio de uma aliança de esquerda, o novo presidente desiludiu e acabou abandonado por esta, já que, apesar de algumas medidas de apoio social, em especial no domínio da educação, que permitiram reduzir a pobreza, prosseguiu, em geral, políticas centristas, em lugar das grandes transformações sociais que havia prometido na campanha. A nível externo, apesar de ter sido apoiado por Chávez, manteve o tradicional alinhamento com os EUA. Nas eleições gerais de 2016, Keiko Fujimori obteve 40% dos votos na 1ª volta, deixando o segundo, Pedro Pablo Kuczynski, empresário e banqueiro, candidato dos Peruanos por el Kambio (PPK), a grande distância. Contudo, com o apoio da maioria das restantes forças políticas, este último conseguiu uma vitória tangencial, obtendo 50,1% dos votos. Envolvido no escândalo Odebrecht e também num esquema de compra de votos, PPK acabou por demitir-se em 2018, sendo substituído pelo “vice” Martín Vizcarra. O escândalo atingiu também os ex-presidentes Alan García e Alejandro Toledo. Em abril, o primeiro suicidou-se quando a polícia se preparava para o deter, enquanto o segundo, que havia fugido para os EUA, foi detido na Califórnia, em julho. 

A Bolívia é o país mais pobre da América do Sul, onde a pobreza atinge cerca de 70% da população. A sua história é uma sucessão de golpes de Estado: mais de 200 em menos de dois séculos de independência. Em 2005, o candidato da esquerda, Evo Morales, líder sindical dos cocaleros (plantadores de coca), do Movimento para o Socialismo (MAS), vence as presidenciais com perto de 54% dos votos, sendo o primeiro indígena a chegar à presidência. No ano seguinte, procede à eleição de uma assembleia constituinte, que aprova a Constituição de 2007, confirmada em referendo popular em 2009. Estabelece a Bolívia como estado plurinacional, reconhecendo, na prática, as diferentes nações indígenas. Morales vence facilmente um referendo revogatório, convocado pela oposição de direita, em 2008, e as presidenciais de 2009. Entretanto, procede à nacionalização das empresas estratégicas, com destaque para as de hidrocarbonetos; inicia a reforma agrária, distribuindo terras pelos indígenas; leva a efeito várias campanhas de alfabetização e afirma a laicidade do Estado, na linha do novo texto constitucional. A descoberta de gás natural no país, no início do século, permite-lhe dinamizar e financiar os programas sociais. Assim, o país experimenta, simultaneamente, um elevado crescimento económico e uma grande redução da pobreza. A partir de 2010, a crise económica mundial reflete-se numa travagem na economia boliviana e Morales começa a tomar algumas medidas autoritárias, perseguindo judicialmente opositores sob acusações de corrupção que alguns consideram politicamente motivadas e reprimindo alguns movimentos sociais. Outro aspeto negativo da sua governação é a aposta num modelo extrativista para financiar os seus programas sociais. Em 2014, foi reeleito, após o Supremo Tribunal ter decidido que a limitação dos mandatos apenas se aplicava a partir da vigência da atual Constituição. Em 2016, o presidente convocou um referendo para aprovar uma alteração constitucional, visando permitir a candidatura presidencial a um novo mandato, mas esta foi rejeitada por 51,3% dos votantes. Inacreditavelmente, o Supremo Tribunal considerou a consulta inválida por alegada interferência estrangeira e, apesar de a Constituição estatuir o contrário, aboliu a limitação de mandatos para todos os cargos públicos. Morales foi, assim, candidato nas eleições gerais de outubro, nas quais, após um “apagão” informático na altura do apuramento dos resultados, foi declarado vencedor à 1ª volta, já que teria pouco mais de 10% de vantagem sobre o seu principal opositor, o ex-presidente Carlos Mesa, da centrista Comunidade Cidadã (CC). O anúncio dos resultados suscitou protestos, tanto internos como externos, com apelos à realização de um 2º turno. Em novembro, o presidente aceitou que a Organização dos Estados Americanos (OEA) auditasse os boletins de votos e, no dia 10, aceitou repetir as eleições. Contudo, nesse mesmo dia, as cúpulas das forças militares e policiais forçaram Morales e o seu “vice”, Álvaro García Linera, a renunciar, o mesmo sucedendo com os presidentes das duas câmaras do Parlamento, ambos do MAS, o que configurou um golpe de Estado palaciano, muito semelhante ao falhado contra Chávez, em 2002. Percebendo que a sua prisão estaria iminente, o presidente deposto acabou por se exilar no México. Em resultado do vazio na linha sucessória, foi a segunda vice-presidente do Senado, Jeanine Áñez, do direitista Movimento Democrático Social (MDS) a aceder à presidência interina, numa sessão senatorial que aceitou a demissão de Morales, apesar de não ter tido o quórum necessário para o efeito. Devota católica, iniciou o seu mandato com uma oração, contrariando o laicismo do anterior presidente. O novo governo é constituído, em grande parte, por homens brancos, em geral empresários da rica e conservadora província de Santa Cruz, dele constando apenas dois indígenas e em posições subalternas. Estalaram, então, violentos protestos contra o golpe, em especial nas áreas maioritariamente habitados por populações indígenas, que foram duramente reprimidos pelas forças policiais, causando dezenas de mortos entre os manifestantes. Entretanto, novas eleições gerais foram marcadas para maio. Como Morales está impedido de se candidatar, o MAS apresenta o seu ex-ministro das finanças, Luis Arce Catacora. Para já, as sondagens dão-lhe uma vantagem, mas insuficiente para ser eleito à 1ª volta, e colocam a atual presidente e Carlos Mesa em renhida disputa para ver qual deles o irá defrontar na ronda decisiva. 

O Paraguai, país interior, em grande parte plano, é relativamente pobre, embora tenha experimentado um grande crescimento económico nas últimas décadas. Tal como os outros estados sul-americanos também apresenta uma vida política agitada, com o habitual cortejo de golpes de Estado e guerras civis. Em 1954, o general Alfredo Stroessner, “homem forte” do Partido Colorado, o único autorizado desde 1947, data do último conflito civil, torna-se presidente, iniciando uma longa ditadura, que só terminou em 1989, quando o ditador foi deposto pelo general Andrés Rodriguez, após 35 anos no poder. Este convocou rapidamente eleições presidenciais, que venceu por margem esmagadora. Em 1993, Juan Carlos Wasmosy, igualmente “colorado”, foi o primeiro civil a chegar à presidência desde a última guerra civil. Em 2008, fez-se história, com a eleição para presidente do ex-bispo católico e seguidor da Teologia da Libertação, Fernando Lugo, do Partido Democrata Cristão (PDC), que concorreu integrado numa ampla aliança de formações de centro-esquerda e esquerda, a que se juntou o centrista Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), principal força da oposição tolerada a Stroessner. Contudo, este último, muito ligado ao agronegócio, em especial aos plantadores de soja (a maior produção agrícola do país), vai-se distanciando das políticas de esquerda do presidente e, em 2012, Lugo é vítima de um golpe parlamentar semelhante ao que derrubaria Dilma Rousseff no Brasil, só que muito mais rápido. Após o presidente ter anunciado um projeto de reforma agrária, o PLRA, junta-se à oposição de direita num processo de “impeachment” em que o antigo bispo é considerado politicamente responsável pelas mortes ocorridas num recontro entre forças policiais e camponeses que tentavam ocupar uma fazenda. O vice-presidente Federico Franco, do PLRA, assume o cargo. Em 2013, os “colorados” regressam ao poder, elegendo Horacio Cartes, repetindo o triunfo em 2018, através de Abdo Benítez, um evangélico extremamente conservador, que derrotou o liberal Efraín Alegre, apoiado por toda o centro e esquerda. Apesar do elevado crescimento económico, o país continua a viver das exportações agrícolas, em especial da soja, e apresenta grandes desigualdades sociais, criminalidade e elevados níveis de corrupção.

O Chile é, atualmente, o país mais rico da América do Sul, mas continua a ser uma sociedade muito desigual. Ao contrário de outros países sul-americanos, as suas instituições democráticas revelaram alguma solidez até ao fatídico golpe de Pinochet. Se, antes, vivia das exportações de cobre e nitratos, hoje é uma economia diversificada. Em 1970, após três derrotas eleitorais, o socialista Salvador Allende, candidato da Unidade Popular (UP), uma ampla coligação de esquerda, que englobava comunistas, socialistas, radicais (social-democratas) e a esquerda cristã, venceu as presidenciais, afirmando pretender construir o socialismo por via democrática, mas acaba derrubado, em 1973, por um sangrento golpe militar, liderado pelo general Augusto Pinochet, que termina com o bombardeamento do palácio presidencial e a morte de Allende. O regime militar é sinónimo de 17 anos de terror, ao mesmo tempo que o país se torna um laboratório dos “Chicago boys”, economistas discípulos de Milton Friedman, que ensaiam aí a aplicação das políticas neoliberais, que fariam escola nas décadas seguintes. Face às pressões internacionais, o regime negoceia com a oposição moderada, que aceita a realização de um referendo sobre a reeleição de Pinochet. Neste, o “não” vence com quase 55% dos votos e o ditador aceita, relutantemente, convocar eleições gerais para finais do ano seguinte. A oposição apresenta-se unida na Concertação de Partidos pela Democracia, que incluía socialistas, social-democratas, democrata-cristãos, radicais e esquerda cristã, entre outros, e o seu candidato, o democrata-cristão Patricio Aylwin, é eleito presidente. Contudo, apesar de expurgada dos seus elementos autoritários, a Constituição de 1980, elaborada pelo regime militar, mantinha-se em vigor e postulava a existência de senadores nomeados pelos militares, sendo o próprio Pinochet, na qualidade de ex-chefe de Estado, senador vitalício, mecanismos que impediam o julgamento dos crimes da ditadura e reformas constitucionais sem o acordo da direita. Apesar disso, é legalizado o partido comunista. A Concertação venceu as três eleições seguintes, elegendo, sucessivamente, o democrata-cristão Eduardo Frei (filho) e os socialistas Ricardo Lagos e Michelle Bachelet. Entretanto, durante o mandato do segundo, Pinochet é detido em Londres, por ordem do juiz espanhol Baltasar Garzón, que o acusa de crimes contra a humanidade e o quer julgar em Espanha. Após várias reviravoltas, o ditador é libertado dois anos depois, por alegados motivos de saúde, sendo-lhe permitido regressar ao Chile. Em 2005, uma emenda constitucional leva à abolição dos senadores não eleitos e vitalícios. Em 2009, a direita vence as eleições pela primeira vez após a transição democrática, elegendo presidente o milionário Sebástian Piñera, da formação de centro-direita Renovação Nacional (RN). Nas eleições seguintes, em 2013, Michelle Bachelet, que havia saído da presidência com grande popularidade, voltou a ser eleita. Contudo, alguma desilusão com a sua governação levou a que, em 2017, Piñera tenha voltado a ocupar a cadeira presidencial, após bater o candidato da Concertação, um “cinzento” Alejandro Guillier, que, na 1ª volta, ficara pouco acima da candidata da esquerda, Beatriz Sánchez. Contudo, as suas políticas neoliberais, de cariz austeritário, que reduziram o nível de vida da maioria da população, a par com o aumento da corrupção, provocam um grande descontentamento, que culminou, em outubro passado, com uma revolta popular generalizada. O rastilho foi o aumento do preço dos transportes públicos de Santiago. Grupos de estudantes forçaram a entrada no metro sem pagar, logo seguidos por outros populares, o que levou ao seu encerramento. Sucederam-se as manifestações, duramente reprimidas, e o presidente decretou o estado de emergência e o recolher obrigatório. Contudo, apesar do aumento da repressão, com vários mortos e feridos graves entre os manifestantes (alguns dos quais cegaram devido ao uso balas de borracha e de grandes doses de gás lacrimogénio por parte das forças militares e policiais), os protestos não abrandaram e, no dia 25 desse mês, mais de um milhão de pessoas manifestou-se na capital. O conflito escalou e a violência tomou conta das ruas, com militares e polícias a atacar manifestantes de forma indiscriminada e totalmente desproporcionada, chegando ao ponto de violar algumas mulheres. Em resposta, foram incendiadas e pilhadas lojas e fábricas e destruídas várias infraestruturas. Tentando conter a revolta, Piñera reuniu com os presidentes das duas câmaras do Congresso, que aprovou o reinício de um processo constituinte, iniciado no segundo mandato de Bachelet. Dias depois, anunciou um conjunto de medidas de caráter social, vistas como manifestamente insuficientes, inclusive por alguns apoiantes do governo. E, pouco depois, terminou com o estado de emergência, o que levou à retirada dos militares das ruas. Porém, decretou um aumento das penas para o que considerou como perturbações da ordem pública. Perante a escalada da revolta, em novembro, as principais formações políticas assinaram um acordo, que levou à convocação, para o próximo dia 15 de abril, de um referendo sobre a elaboração de uma nova Constituição e a forma que tomará a assembleia encarregada da sua redação: uma Convenção Constitucional Mista (constituída por membros do atual Congresso e elementos eleitos, em igual número) ou uma Convenção Constitucional, totalmente eleita. Se o “sim” vencer na primeira questão, os elementos da nova assembleia serão eleitos em 25 de outubro. Para já, as principais forças de esquerda e centro-esquerda apoiam o processo constituinte e a opção por uma Convenção totalmente eleita. Contudo, algumas formações da esquerda radical discordam do processo, embora deem liberdade de voto aos seus militantes. À direita, os setores moderados, em especial a RN de Piñera e a Evopoli, apoiam o “sim” à nova Constituição, mas preferem uma Convenção mista, pois dispõem de maioria no atual Congresso. Já grande parte da direitista União Democrática Independente (UDI), a ala direita da RN e várias formações da extrema-direita opõem-se ao processo e apelam ao voto “não”. Os protestos abrandaram, mas não terminaram, havendo manifestações periódicas de contestação ao presidente, exigindo a sua demissão.

A Argentina é o segundo país mais extenso da região e conta com cerca de 45 milhões de habitantes. A sua região central está coberta por planície férteis, as pampas, que o tornam um grande produtor de carne bovina, trigo, soja e outras produções agrícolas, de que é grande exportador. O seu subsolo possui grandes riquezas, entre as quais algum petróleo e gás natural e apresenta um razoável grau de industrialização. Por isso, sempre foi alvo de cobiça por parte das grandes potências, em especial o Reino Unido (até à 2ª guerra mundial) e os EUA (depois disso).  Daí que a sua vida política se caracterize pela instabilidade, com alternância entre períodos democráticos e ditaduras, algo que também sucede a nível económico, onde a um período de grande crescimento económico se sucede outro de forte crise e recessão. Após a derrota na guerra das Malvinas, o regime militar, caracterizado pela feroz repressão sobre os seus opositores, com todo o seu cotejo de violações dos Direitos Humanos mais elementares, cai e o poder é entregue aos civis. Em 1983, realizam-se eleições gerais que dão o triunfo a Raúl Alfonsín, um social-democrata da centrista União Cívica Radical (UCR), que derrotou o candidato peronista. O agravamento da situação económica, em resultado da avultada dívida externa, levou à vitória eleitoral do peronista de direita Carlos Menem, em 1989 e 1994. Este encetou políticas neoliberais, que geraram grande descontentamento social. Para combater a inflação, introduziu a dolarização da economia, estabelecendo a paridade cambial entre o peso e o dólar dos EUA. Em 1999, o radical conservador Fernando de La Rúa, aliado à coligação de centro-esquerda Frente por um País Solidário (FREPASO), venceu as presidenciais. Este recorreu ao FMI, que advogou as já tradicionais medidas austeritárias. Em 2001, a crise agravou-se e o país deixou de poder pagar a sua dívida externa. É adotado o “corralito”, isto é, a limitação ao mínimo dos levantamentos bancários. Face aos enormes protestos populares, o presidente demite-se, sendo substituído pelo peronista Rodrigues Saá. Porém, a contestação prossegue sob o lema “Que se vayan todos!” e aquele também renuncia. No 1º dia de janeiro de 2002, assume a presidência o também peronista Eduardo Duhalde. Este acabou com a paridade entre o dólar e o peso e denominou os depósitos bancários na moeda nacional, o que provocou grandes perdas aos depositantes e agravou a contestação social. Apenas no ano seguinte, minimamente estabilizado o sistema bancário, terminou o “corralito”. A pobreza aumentou enormemente, atingindo mais de metade da população. Nas presidenciais de 2003, o ex-presidente Menem foi o mais votado na 1ª volta, mas apenas com 24%, ficando em segundo Nestor Kirchner, da esquerda peronista, apoiado pela coligação Frente para a Vitória (FPV). Sabendo que seria humilhado no 2º turno, desistiu e Kirchner foi declarado vencedor. Este distanciou-se do FMI e iniciou um processo de reestruturação da dívida. Ao mesmo tempo, fomentou as exportações, o que permitiu um forte crescimento económico, reduzindo a pobreza e o desemprego. A FPV voltou a vencer em 2007, levando à presidência Cristina Fernández de Kirchner, mulher do anterior, que manteve as políticas do seu marido, a que acrescentou a substituição dos fundos privados de pensões por um sistema público. Nestor faleceu em 2010 e Cristina foi reeleita em 2011, com maioria absoluta. Garantiu a maioria estatal na estrutura acionista da petrolífera nacional YPF e apostou na educação e nas políticas sociais, mesmo se não esteve isenta de críticas por parte dos sindicatos e de protestos populares. A nível internacional, alinhou com Chávez e outros líderes da esquerda latino-americana. Os governos dos Kirchner conseguiram, assim, reduzir a pobreza e as desigualdades sociais. Nas presidenciais de 2015, saiu vencedor o candidato da direita, Mauricio Macri, do partido Proposta Republicana (PRO). Este adota medidas de austeridade, que reduzem o nível de vida das classes populares. Em lugar de resolverem, apenas agravam a situação económica do país. Em abril de 2018, rebenta uma crise cambial, com forte desvalorização do peso, que levou o governo a pedir nova intervenção do FMI e este a exigir novas doses de austeridade. Com o crescente descontentamento popular, os peronistas, até aí divididos entre kirchneristas e críticos do kirchnerismo, veem uma oportunidade de regressar ao poder e unem-se na candidatura de Alberto Fernández, antigo chefe de gabinete de Cristina Kirchner, cargo de que se demitira devido a divergências com a então chefe de Estado, de quem se tornou crítico. Contudo, ambos ultrapassaram as divergências e a ex-presidente aceitou candidatar-se como “vice” do primeiro, numa candidatura designada por Frente de Todos (FdT). Em agosto, nas primárias, abertas simultâneas e obrigatórias (PASO) de agosto, a candidatura peronista suplantou claramente a de Macri e da sua aliança Juntos pela Mudança (JxC), tornando-se favorita a vencer as presidenciais de outubro. O seu favoritismo confirmou-se e Alberto Fernández foi eleito presidente logo à 1ª volta, ao obter mais de 48% dos sufrágios (mais que os 45% necessários) contra pouco mais de 40% do incumbente. Contudo, nas legislativas, a FdT não conseguiu obter a maioria no Congresso: ficou um pouco abaixo desta na Câmara dos Representantes e com 50% dos senadores. Apesar de menos à esquerda que a sua agora “vice”, a primeira iniciativa legislativa, aprovada em dezembro pelo Congresso, foi um pacote económico-social, que aumenta os impostos aos mais ricos e às atividades especulativas, cria medidas de apoio aos mais pobres para fazer face à emergência alimentar em que se encontram muitas famílias, dá um conjunto de apoios às atividades produtivas e negoceia com o FMI a reestruturação da dívida.

O Uruguai é o mais pequeno país da América do Sul, contando com pouco mais de três milhões de habitantes, metade dos quais vivem na área metropolitana de Montevideo. O seu território é plano e coberto por planícies bastante férteis, que o tornam um dos grandes produtores mundiais de carne bovina. É relativamente próspero e a sua sociedade é a menos desigual do continente sul-americano. Por isso, é politicamente mais tranquila, embora não isenta de alguns períodos de instabilidade. No sec. XX, a rutura da legalidade democrática ocorreu em 1973, com o autogolpe do presidente Bordaberry e a ditadura militar que se lhe seguiu. Com o regresso à democracia, em 1985, os dois maiores partidos do país, os “blancos” (como é conhecido o Partido Nacional, conservador), apoiados na burguesia rural, e os “colorados” (do Partido Colorado, centrista), com suporte na burguesia urbana, foram-se alternando no poder. Contudo, em 2002, rebentou uma grave crise bancária, que levou à tomada de medidas de austeridade, geradoras de enormes protestos. Assim, nas presidenciais de 2004, fez-se história, com a vitória do candidato da coligação de centro-esquerda Frente Ampla (FA), o médico Tabaré Vázquez, logo na 1ª volta. Este é um social-democrata bastante moderado e as suas políticas foram relativamente recuadas, mas criou um serviço de saúde universal e procurou resolver o problema da habitação. Defensor dos direitos humanos, aproveitou exceções na lei da impunidade para levar a julgamento Bordaberry e os ex-presidentes militares. Aprovou um projeto de lei que permite o casamento LGBT, mas vetou a legalização do aborto a pedido da mulher. Em 2009, a FA voltou a ganhar as eleições, elegendo o antigo guerrilheiro José “Pepe” Mujica. Mais à esquerda que o seu antecessor, ampliou as políticas sociais, em especial ao nível da habitação e da promoção do emprego. Aprovou a lei do aborto, que havia sido vetada por Vázquez, e tomou a medida pioneira de legalizar a venda da canábis para fins recreativos. Tornou-se popular pelo seu estilo de vida austero: reside numa pequena quinta nos arredores da capital, com a sua mulher, Lucía Topolansky, também ela ex-guerrilheira, e conduz um pequeno Volkswagen de 1987. Em 2014, Tabaré Vázquez voltou à presidência, derrotando por pequena margem Luis Alberto Lacalle, do Partido Nacional. Em outubro, a direita voltou ao poder com o triunfo deste último nas presidenciais, em que bateu por pequena margem, na 2ª volta, o candidato da FA, Daniel Martinez.

O Brasil é o maior país da América Latina e o único cuja língua oficial é o português. É o quinto maior e o quinto mais populoso do mundo, com mais de 8,5 milhões de Km2 e quase 210 milhões de habitantes. Estamos em presença de uma sociedade muito desigual, onde uma pequena oligarquia agrária, industrial e financeira detém a maioria das riquezas do país, opondo-se a uma maioria pobre e explorada, com uma classe média frágil e dependente dos ciclos económicos. Por isso, do ponto de vista político, tem uma história bastante agitada, onde os períodos democráticos tendem para a instabilidade e a tentação autoritária está sempre “ao virar da esquina”. Os elevados índices de criminalidade e a corrupção endémica são os sintomas dessa triste realidade. O país é o exemplo típico de mito de Sísifo: quando parece ter descolado definitivamente rumo ao desenvolvimento, surge uma crise que faz tudo voltar ao ponto anterior. Após o fim da ditadura militar, que governou entre 1964 e 1985, com todo o seu cotejo de perseguições políticas, prisões, torturas, assassinatos e exílios forçados, foi eleito pelo parlamento Tancredo Neves, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), a única oposição oficial e tolerada durante a ditadura. Porém, faleceu antes de tomar posse e foi substituído pelo “vice” José Sarney. Face à grave situação económica, com grande aumento da inflação, elabora o “Plano Cruzado”, baseado na criação de uma nova moeda e no congelamento dos preços. Porém, passado um ano, este entra em colapso e a inflação volta a subir. Entretanto, em 1988, é aprovada uma Constituição progressista, que, para além de garantir os direitos cívicos e políticos, consagra os direitos trabalhistas e a prossecução de um desenvolvimento sustentável. Em 1989, ocorre uma dramática eleição presidencial, opondo, no 2º turno, o candidato da direita, Collor de Mello, a Luiz Inácio “Lula” da Silva, um antigo sindicalista metalúrgico, representando o Partido dos Trabalhadores (PT), então uma formação da esquerda radical. O primeiro, que se apresentou como um lutador contra a corrupção (o “caçador de marajás”) e beneficiou de um escandaloso apoio da rede Globo, que deu de “Lula” a imagem de um perigoso esquerdista, acabou por vencer. Dois anos depois, é abalado por um escândalo de corrupção, envolvendo o seu tesoureiro da campanha eleitoral e, após um processo de impeachment”, acaba destituído pelo Congresso. Sucede-lhe o vice-presidente Itamar Franco. O país entra em hiperinflação, que só é controlada com o Plano Real, que cria outra nova moeda, da autoria do então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso (FHC), do liberal-conservador Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). O sucesso do seu plano vale-lhe a eleição em 1994, sendo reeleito em 1998, derrotando “Lula” em ambas as ocasiões. O seu governo caracterizou-se pela obediência aos cânones neoliberais, com destaque para a privatização de uma série de empresas públicas. Em 2002, fez-se história: após quatro derrotas eleitorais, “Lula” chega à presidência, sendo reeleito em 2006. Os seus governos caracterizaram-se pelos programas sociais, entre os quais se destaca o “bolsa-família”, destinado a garantir uma alimentação decente aos mais pobres. Beneficiando da subida do preço das matérias-primas, devido à grande procura chinesa, a economia brasileira cresce a bom ritmo e o nível de vida da população sobe, fazendo aumentar as classes médias. Contudo, a descoberta de que o PT se encontrava envolvido num escândalo de compra de votos no Congresso (o chamado “mensalão”) desiludiu muitos dos que acreditavam ser o partido diferente dos outros nesse aspeto. Afinal, a força política que afirmava querer mudar o sistema acabou engolida por ele. Não podendo recandidatar o seu líder, o PT aposta em Dilma Rousseff, que, graças ao apoio de “Lula”, vence as eleições de 2010. Contudo, a conjuntura económica começa a toldar-se e, em 2013, surge um conjunto de manifestações populares, primeiro contra o aumento do preço dos transportes em São Paulo, depois reclamando da má qualidade dos serviços públicos. Se começaram à esquerda, são rapidamente apropriadas pela direita, que começa a exigir a queda da presidente. No ano seguinte, nas presidenciais, Dilma consegue uma vitória apertada sobre Aécio Neves, do PSDB. No entanto, a direita não desarma e aproveita um escândalo de corrupção, denominado Lava-Jato, em que estão envolvidas várias figuras cimeiras da classe política, para colocar todas as culpas no PT. Injustamente acusada de crime de responsabilidade, a presidente é alvo de “impeachment”, acabando destituída e substituída pelo seu “vice”, Michel Temer, do PMDB. A administração deste caracteriza-se por um conjunto apressado de reformas regressivas ao nível económico e social, que lhe valem uma impopularidade sem precedentes. Em 2017, “Lula” é condenado, em 1ª instância, por corrupção e lavagem de dinheiro. Em abril passado, quando liderava todas as sondagens para as presidenciais de outubro, é preso, após condenação em 2ª instância, ficando impedido de se apresentar a sufrágio. Entretanto, o povo mostrava-se extremamente insatisfeito com os partidos tradicionais, que consideravam responsáveis pela corrupção endémica, e bastante preocupado com o aumento da criminalidade e da insegurança. Acresce, ainda, o ódio de classe da grande burguesia e de amplos setores das classes médias contra os avanços conseguidos pelos mais pobres nos governos do PT. Em março de 2018, a vereadora da prefeitura do Rio de Janeiro, Marielle Franco, eleita pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), “irmão” do BE, e o seu motorista foram cobardemente assassinados numa emboscada. Mulher negra, bissexual, nascida numa “favela” e defensora dos direitos dos mais pobres, era uma personagem incómoda para as elites e o conservadorismo reinantes. O seu assassinato foi um sinal do que estava para vir. Cavalgando o descontentamento popular, em outubro desse ano, Jair Bolsonaro, ex-capitão do exército e até aí um obscuro deputado federal da extrema-direita, defensor da ditadura militar, misógino, homofóbico e racista, acaba eleito presidente. O PT, impossibilitado de candidatar “Lula”, avançou com Fernando Haddad, mas a campanha da maioria da comunicação social, disseminando a narrativa de que a maioria da corrupção era obra do partido, deixou-o com poucas hipóteses. Após a sua eleição, Bolsonaro formou um governo baseado na sua base de apoio, resumida nos três “bês”: boi (agronegócio), bala (militares e polícias) e bíblia (igrejas evangélicas). A isso acrescenta-se a escolha de Paulo Guedes, um economista ultraliberal para dirigir a economia, onde tem prosseguido políticas antipopulares, com destaque para a reforma regressiva da Previdência (Segurança Social). A sua visão extremamente reacionária da sociedade vai sendo expressa nas tristes e execráveis declarações da sua ministra da família, a pastora evangélica Damares Alves, e de outros membros do executivo. Por outro lado, os escândalos que envolvem os seus filhos mostram que pouco ou nada mudou em matéria de combate à corrupção. E os dois policiais detidos por suspeita de serem os autores materiais do assassínio de Marielle são próximos daqueles e de milícias com ligações ao tráfico de droga, que atuam impunemente na cidade carioca. O ano que findou ficou marcado pelos incêndios na Amazónia, na sua maioria provocados por latifundiários, garimpeiros e todos aqueles que apostam na exploração dos seus recursos naturais em lugar da conservação, apoiados por Bolsonaro e o seu governo. Este tem, ainda, desanexado terras de indígenas e quilombolas para as entregar ao extrativismo. Entretanto, em novembro, “Lula” foi libertado, após o Supremo Tribunal Judicial (STJ) ter considerado ilegítimo fazer cumprir pena de prisão por parte de um arguido cuja sentença não tivesse transitado em julgado. Já este ano, o presidente ameaça a liberdade de imprensa, chegando a incitar os seus partidários contra os jornalistas, erigidos em inimigos da sua governação. Recentemente, deu início a uma campanha contra o Congresso, acusado de ser “força de bloqueio às reformas”. Apesar de este ter uma maioria bastante conservadora, a verdade é que os deputados e os senadores se recusam a “passar cheques em branco” ao executivo, exigindo contrapartidas para aprovar a legislação. Por isso, apoia uma manifestação dos seus partidários, prevista para o dia 15, em frente ao Congresso e ao STJ, ou seja, as principais sedes dos poderes legislativo e judicial, naquilo que alguns círculos políticos temem que seja uma tentativa de autogolpe. Ao mesmo tempo, o PT continua incapaz de fazer uma autocrítica dos erros cometidos pelos seus governos, prosseguindo uma estratégia de vitimização. Assim, a esquerda aparece desorientada e dividida, limitando-se a resistir à ofensiva bolsonarista, defendendo a democracia e a Constituição, ameaçadas por uma presidência que por ela nutre um grande desprezo, mas sem mostrar capacidade de construir uma alternativa credível. Infelizmente, os próximos tempos não serão fáceis para o povo brasileiro!... 

E pronto, terminamos aqui a nossa viagem pelo mundo, iniciada em Portugal e simbolicamente terminada no Brasil. Dela podemos concluir que o mundo, em 2020, é, tal como no ano anterior, um lugar perigoso, onde as tendências autocráticas, os nacionalismos agressivos, a intolerância, o ódio e a insensibilidade social tendem a crescer. A esquerda tem um trabalho hercúleo para, em todas as latitudes, mostrar que é uma alternativa credível e que não temos de estar limitados a escolher entre o neoliberalismo do “centrão” e o autoritarismo de cariz identitário da extrema-direita. E também que não é tornando-se autoritária e sustentada em “caudillos” que o consegue. Para já, as revoltas populares ocorridas no ano que passou são um sinal de esperança de que as coisas podem mudar. Mas é necessário articular esses vários focos de contestação. Por isso, nunca como hoje, a solidariedade internacionalista foi tão necessária. Agora, há que encontrar formas de a pôr em prática!...

Nota: Estes 22 artigos foram elaborados com o auxílio da Wikipédia em diferentes línguas.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
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