Cortes de Trump ameaçam sistema mundial de observação dos oceanos

08 de junho 2026 - 12:20

Desmantelamento de rede de sensores marinhos e de outros programas vai provocar a perda de dados essenciais para compreender o aquecimento global e prever fenómenos meteorológicos extremos.

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Recuperação de um planador submarino no Mar de Irminger por uma missão da científica da Ocean Observatories Initiative.
Recuperação de um planador submarino no Mar de Irminger por uma missão da científica da Ocean Observatories Initiative.Foto de Rebecca Travis © WHOI.

A National Science Foundation, agência federal dos EUA que financia a investigação científica, anunciou no fim de maio o desmantelamento das infraestruturas da rede de observatórios oceânicos, na sequência dos cortes orçamentais e dos ataques da administração Trump aos programas de investigação ambiental.

Segundo o diário francês Le Monde, esta rede de observatórios oceânicos estende-se ao largo da costa dos EUA e no mar de Irminger, entre a Gronelândia e a Islândia, com mais de 900 instrumentos que recolhem dados sobre a temperatura, a salinidade e as correntes, sendo considerado um dos dispositivos de vigilância oceânica mais sofisticados do mundo.

“É uma perda colossal de informações extremamente valiosas, tanto mais insubstituíveis quanto o oceano é totalmente opaco às observações por satélite. Vamos interromper uma série temporal de dez anos», lamenta Sabrina Speich, oceanógrafa e climatologista que preside ao comité de peritos sobre oceanos do Sistema Mundial de Observação do Clima, um programa da ONU.

Além de permitir compreender como o oceano absorve as emissões de gases com efeito estufa e as trocas de calor com a atmosfera ou de estudar os ecossistemas e as vagas de calor marinhas, o sistema permite prever alguns efeitos do fenómeno El Niño, vigiar a atividade sísmica e o risco de inundação da costa estadunidense, além de permitir gerir as pescas que também são afetadas pelo aumento da temperatura, a acidez das águas ou a diminuição do oxigénio. No caso da estação no mar de Irminger, é considerada crucial para compreender a evolução da Circulação Meridional de Inversão do Atlântico, responsável pelo clima ameno na Europa e hoje ameaçada pelas emissões poluentes.

Esta rede produz mais de metade dos dados oceânicos recolhidos em todo o planeta e os EUA não apenas são responsáveis pela fatia maioritária do financiamento (55%) como é a sua presença no conjunto das bacias oceânicas que permite aquela dimensão na recolha de dados. “A perda apenas das observações americanas prejudicaria o acompanhamento global mais do que a perda aleatória de 80 % de todos os dados oceânicos mundiais”, salienta John Abraham, professor na Universidade de Saint Thomas (Minnesota) e coautor do estudo publicado em maio na revista Nature Climate Change sobre as consequências destes cortes da administração Trump.