A National Science Foundation, agência federal dos EUA que financia a investigação científica, anunciou no fim de maio o desmantelamento das infraestruturas da rede de observatórios oceânicos, na sequência dos cortes orçamentais e dos ataques da administração Trump aos programas de investigação ambiental.
Segundo o diário francês Le Monde, esta rede de observatórios oceânicos estende-se ao largo da costa dos EUA e no mar de Irminger, entre a Gronelândia e a Islândia, com mais de 900 instrumentos que recolhem dados sobre a temperatura, a salinidade e as correntes, sendo considerado um dos dispositivos de vigilância oceânica mais sofisticados do mundo.
“É uma perda colossal de informações extremamente valiosas, tanto mais insubstituíveis quanto o oceano é totalmente opaco às observações por satélite. Vamos interromper uma série temporal de dez anos», lamenta Sabrina Speich, oceanógrafa e climatologista que preside ao comité de peritos sobre oceanos do Sistema Mundial de Observação do Clima, um programa da ONU.
Além de permitir compreender como o oceano absorve as emissões de gases com efeito estufa e as trocas de calor com a atmosfera ou de estudar os ecossistemas e as vagas de calor marinhas, o sistema permite prever alguns efeitos do fenómeno El Niño, vigiar a atividade sísmica e o risco de inundação da costa estadunidense, além de permitir gerir as pescas que também são afetadas pelo aumento da temperatura, a acidez das águas ou a diminuição do oxigénio. No caso da estação no mar de Irminger, é considerada crucial para compreender a evolução da Circulação Meridional de Inversão do Atlântico, responsável pelo clima ameno na Europa e hoje ameaçada pelas emissões poluentes.
Esta rede produz mais de metade dos dados oceânicos recolhidos em todo o planeta e os EUA não apenas são responsáveis pela fatia maioritária do financiamento (55%) como é a sua presença no conjunto das bacias oceânicas que permite aquela dimensão na recolha de dados. “A perda apenas das observações americanas prejudicaria o acompanhamento global mais do que a perda aleatória de 80 % de todos os dados oceânicos mundiais”, salienta John Abraham, professor na Universidade de Saint Thomas (Minnesota) e coautor do estudo publicado em maio na revista Nature Climate Change sobre as consequências destes cortes da administração Trump.