António-Pedro Vasconcelos (1939-2024): criador de imagens, voz de causas

06 de março 2024 - 12:57

O realizador de vários dos maiores sucessos do cinema português contemporâneo morreu esta quarta-feira. Era também uma homem de muitas causas, da defesa da televisão pública, ao direito a morrer com dignidade, contra a privatização da TAP, entre tantas outras.

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António-Pedro Vasconcelos. Foto de JOSÉ SENA GOULÃO / LUSA.
António-Pedro Vasconcelos. Foto de JOSÉ SENA GOULÃO / LUSA.

António-Pedro Vasconcelos morreu esta quarta-feira em Lisboa aos 84 anos, vítima de uma pneumonia. Homem do cinema, realizador, produtor, crítico, apresentador de programas, da cultura e de esquerda.

António-Pedro Vasconcelos nasceu em Leiria a 10 de março de 1939. Estudou Direito mas cedo se virou definitivamente para o cinema. Primeiro através da escrita de críticas, depois como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e estudante de Filmografia na Sorbonne, mais tarde na realização.

Depois de algumas curtas metragens, o seu filme Perdido por Cem, de 1973, tornou-se um marco do Cinema Novo Português, o movimento artístico que desafiou a estética e ideologia salazarista. Mais de dez anos depois, em 1984, O Lugar do Morto será um sucesso de bilheteira. Em 1999, destaca-se outro dos filmes mais vistos do cinema nacional: Jaime. Em 2007, novo filme muito visto, Call Girl.

Para além destes destacam-se, por exemplo, os dois documentários realizados logo no início da carreira sobre a guerra colonial Adeus, Até ao Meu Regresso (de 1974) e sobre a emigração EmigrAntes… e Depois? (1976). Em 1984 realiza Oxalá, sobre a geração pós-25 de Abril, em 1991 o filme histórico Aqui d’el-Rei! E, depois disso, realizou ainda filmes como Os Imortais, de 2003, Parque Mayer, de 2018, A Bela e o Paparazzo, de 2010, e Km 224, de 2022, o seu último filme. Tinha entretanto em preparação mais duas obras: uma adaptação de Lavagante, de José Cardoso Pires, e um documentário sobre os bastidores do 25 de Abril para a RTP.

Por estes filmes ganhou vários prémios como os Prémios Sophia, Globos de Ouro para Melhor Filme e Melhor Realizador, a Concha de Prata do Festival Internacional de Cinema de San Sebastian e o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.

Para além de realizador, foi produtor, tendo fundado a V.O. Filmes, a Opus Filmes e o Centro Português de Cinema que contava com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo produzido grande parte dos filmes do Novo Cinema Português. Escreveu ainda crítica literária e cinematográfica, antes e durante a sua carreira de realizador, podendo ser ao longo dos anos lido em jornais como o Diário de Notícias e República e revistas como a Visão, Imagem, O Tempo e o Modo, Colóquio ou Cinéfilo que liderou. Foi ainda diretor de A Semana, suplemento do semanário Independente.

Nos pequenos ecrãs, tornou-se conhecido a apresentar o Cineclube, na RTP2, e a defender outra das suas grandes paixões, o Benfica, como comentador desportivo. No campo do desporto foi provedor do leitor no jornal Record.

Desempenhou igualmente vários cargos ao longo da sua vida. Foi presidente do Grupo de Trabalho do Livro Verde para a Política do Cinema e Audiovisual da Comissão Europeia, da Associação Portuguesa de Realizadores, entre 1978 e 1984, do Secretariado Nacional do Audiovisual, entre 1991 e 1993, e o Conselho de Opinião da RTP, entre 1996 e 2003.

Também levou passou a sua experiência e conhecimentos cinéfilos às novas gerações através do ensino, tendo sido professor da Escola de Cinema do Conservatório Nacional e coordenador executivo da licenciatura em Cinema, Televisão e Cinema Publicitário da Universidade Moderna de Lisboa.

A-PV e as suas causas

A-PV, como era conhecido no seu círculo mais íntimo, fez muitas vezes ouvir a sua voz em nome de várias causas. Na nota em que comunica o seu falecimento, essa faceta é destacada pela família: "hoje, mais do que nunca, temos a certeza de que o nosso A-PV, que tanto lutou para que todos fôssemos mais justos, mais corretos, mais conscientes, sempre tão sérios e dignos como ele, será sempre um Imortal. Sabemos bem a sorte que tivemos. Viveremos sempre cheios de orgulho."

Entre inúmeras participações cívicas, só para mencionar algumas das mais recentes, foi a cara da oposição da privatização da companhia aérea portuguesa, liderando o movimento “Não TAP os olhos” e sendo autor de uma carta aberta a defender que esta fosse controlada por capitais públicos ainda o ano passado. Destacou-se ainda na defesa da RTP como serviço público.

Outras foram sendo noticiadas pelo Esquerda.net. Em 2012, foi um dos oradores na iniciativa do Bloco de Esquerda, Socialismo 2012, onde defendeu a necessidade de dois canais públicos de televisão.

Em 2013, foi um dos subscritores de uma carta de solidariedade ao povo grego e contra o apagão do serviço público de rádio e televisão. Nesse mesmo ano, de eleições europeias, foi uma das 65 personalidades da esquerda portuguesa que lançaram um manifesto a apelar à convergência da esquerda numa lista contra a austeridade permanente do Tratado Orçamental.

No ano seguinte, o seu nome consta de abaixo-assinado de mais de 30 figuras públicas de diferentes setores que se insurgiam contra os despedimentos na Linha de Saúde 24 que consideravam um “ataque à democracia”. E também do “Compromisso com a ciência, a cultura e as artes” iniciado por 150 artistas, professores, investigadores, escritores, que advertia “que o país está a desperdiçar e a expulsar os seus melhores talentos”. Neste mesmo ano, lança um “manifesto contra a privatização da TAP”. O movimento promoveria no ano seguinte manifestações e várias outras ações.

Em 2015, não hesitou em estar do lado do povo grego contra a chantagem austeritária de que era vítima. Foi então um dos oradores da sessão “Hora de apoiar a Grécia”, realizada pelo Bloco de Esquerda em Lisboa. Em abril, em entrevista ao Esquerda, voltava à carga sobre a TAP para desmontar os “argumentos falaciosos” do Governo e em dezembro, para além das razões, o movimento recorria ao Ministério Público suspeitando de ilegalidades no negócio da privatização. Em novembro, foi um dos integrantes do movimento para despenalizar a morte assistida, causa que voltou a protagonizar em janeiro do ano seguinte sendo os dos promotores de um manifesto pelo direito a morrer com dignidade que se tornou uma petição que chegou a ser debatida no Parlamento.

Ainda em 2017, em maio, somava-se a quem defendia a libertação de 17 ativistas angolanos então detidos no que era considerado uma “flagrante violação dos valores e princípios da democracia, do estado de direito e dos direitos humanos”. As causas ambientais também não lhe passaram ao lado e também subscreveu o manifesto contra a exploração de gás e petróleo em Portugal.

No início de 2018, em fevereiro, foi um dos oradores da jornada “Refundar a RTP com uma política de serviço público” e também falou na conferência do Bloco “Despenalizar a morte assistida: tolerância e livre decisão”. Em setembro, juntava o seu nome àqueles que apelavam ao boicote do festival Eurovisão em Israel em nome da causa palestiniana. Quando Bolsonaro venceu as eleições no Brasil subscreveu a carta Solidariedade com a democracia e com os democratas do Brasil. E, no ano de 2019, assinava uma Carta aberta apela a António Costa para acabar com as Parcerias Público Privadas na Saúde.

Um “homem de luta” que “sempre se quis mobilizar para defender o país”

Mariana Mortágua, coordenadora do Bloco de Esquerda, reagiu a este falecimento enviando “um abraço” a amigos e família e expressando “um lamento profundo” pela perda do “homem da cultura que lutou muito pela cultura”.

Lembrou na ocasião que partilhou com o realizador o “movimento importante” contra a privatização da TAP, guardando “com muito carinho a determinação que sempre teve, não só na luta pela cultura, mas também na luta pelo país e como quis proteger os bens comuns de todos e os bens estratégicos da nossa economia e da nossa sociedade”. E concluiu: “essa é a mensagem que quero deixar, de um homem de luta e que até ao fim, até estes últimos anos, sempre se quis mobilizar para defender o país. E é assim que o recordo”.

O funeral do cineasta António-Pedro Vasconcelos realiza-se na sexta-feira, dia 8, às 13h30, no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, onde o corpo estará a partir das 11h00, divulgou a família à agência Lusa. O velório decorre na véspera, quinta-feira, dia 7 de março, na Gare Marítima de Alcântara, entre as 15h00 e as 22h00, estando marcada uma cerimónia evocativa para as 18h30.

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