Genocídio

Israel fez pausa no cessar-fogo para matar dezenas de crianças em Gaza

29 de outubro 2025 - 11:31

Entre os 104 mortos dos bombardeamentos da última noite estão 46 crianças e mais um jornalista. Israel alega violações do cessar-fogo que o Hamas desmente. Trump apoiou o ataque mas diz que o cessar-fogo não está em causa.

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Bombardeamento no campo de refugiados de Al Shatea, na Cidade de Gaza
Bombardeamento no campo de refugiados de Al Shatea, na Cidade de Gaza. Foto Mohammed Saber/EPA

Os bombardeamentos mortíferos de Israel voltaram a cair sobre a população civil da Faixa de Gaza na madrugada e manhã desta quarta-feira. As autoridades de defesa civil dão conta de pelo menos 104 mortos, entre os quais 46 crianças e um jornalista, e mais de duas centenas de feridos. Um dos responsáveis disse ao Guardian que entre os alvos esteve o acampamento de Insan, que acolhe doentes com cancro. A Agência France Presse confirmou o número de vítimas pelas contagens dos hospitais de Gaza que receberam os corpos e as pessoas feridas.

O anúncio dos ataques foi feito pelo primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu na noite de terça-feira, justificando-os como uma resposta ao que chamou de violações do cessar-fogo por parte do Hamas. Em causa estavam um tiroteio entre soldados israelitas e militantes palestinianos em Rafah, do qual o Hamas diz não ter feito parte, mas também o atraso na recuperação dos restos mortais de 13 reféns israelitas, que o Hamas justifica alegando ter perdido contacto com as unidades que guardavam os reféns e que entretanto foram mortas nos ataques israelitas, impossibilitando a localização dos sítios onde foram enterrados. Na manhã de quarta-feira, Israel anunciou o fim dos bombardeamentos e o regresso do cessar-fogo.

Os militares israelitas divulgaram um vídeo com o que dizem ser membros do Hamas a enterrarem um corpo com o objetivo de “encenar uma falsa descoberta” de um dos cadáveres de reféns e mostrar que estão a fazer esforços nesse sentido. O vídeo serviu para os ministros da extrema-direita Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich voltarem a apelar a Netanyahu para retomar de imediato os ataques aos palestinianos de Gaza. Por seu lado, o braço armado do Hamas, as brigadas al-Qassam, dizem que os bombardeamentos vão adiar a entrega dos restos mortais de um refém que estava já prevista e anunciaram terem tido sucesso das operações de busca na terça-feira para encontrar os restos mortais de Amiram Cooper e Sahar Baruch. À Al-Jazeera, um dirigente político do Hamas responsabilizou Israel “totalmente responsável por qualquer atraso na recuperação dos restantes corpos”.

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Para o investigador Mouin Rabbani, do Centre for Conflict and Humanitarian Studies, “é muito claro que Israel não se sente capaz de renunciar unilateralmente” ao cessar-fogo, pelo que “o que estamos a ver é uma intensificação gradual do processo de erosão” do processo, em que além destes bombardeamentos não houve um recuo das tropas em Gaza para a linha acordada nem a autorização para a entrada de ajuda humanitária na quantidade acordada no cessar-fogo. “Agora, está a usar este pretexto, por um lado, para impedir a entrada do equipamento pesado necessário para procurar corpos sob 61 milhões de toneladas de escombros e, por outro, para justificar os atrasos totalmente previsíveis na recuperação desses corpos, como desculpa para minar o acordo”, acrescentou Rabbani à Al-Jazeera, concluindo que “a questão fundamental agora é como os Estados Unidos irão responder”.

A bordo do avião presidencial em viagem entre o Japão e a Coreia do Sul, Donald Trump deu o seu apoio os ataques israelitas ao mesmo tempo que garantia que “nada irá pôr em causa do cessar-fogo” que naquela altura estava a ser violado pelo seu aliado. Sobre o motivo que Israel alegou para voltar a desencadear a barbárie, Trump disse que “ninguém sabe o que acontecei ao soldado israelita [ferido em Rafah], mas eles dizem que foi um tiro de um sniper. E isto foi uma retaliação por isso, acho que eles têm direito a fazê-lo”. Sobre o atraso na entrega dos restos mortais de reféns, Trump reconheceu que alguns possam ser difíceis de encontrar, mas diz estar convencido que “outros já podem ser entregues e por alguma razão não o foram”, sugerindo que isso “pode ter a ver com o desarmamento do Hamas”, que o movimento diz que recusará fazer enquanto existir ocupação. 
 

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