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Cabo Delgado: “Este não é um problema de religiões, é um problema socioeconómico”

Abudo Gafuro Manana é um dos membros fundadores da Kuendeleya, uma associação inter-religiosa de jovens de Pemba. Foi este coletivo, atualmente com 132 membros, que ajudou no desembarque e assistência aos primeiros deslocados que chegaram à capital da província. Por Mariana Carneiro.
Abudo Gafuro Manana. Foto de Momade Buana.

Abudo Gafuro Manana nasceu em março de 1988 “no mítico bairro histórico de Paquite, o primeiro bairro da cidade de Pemba, antiga Porto Amélia”.

Era conhecido no meio social onde cresceu por “Ambiente”, por ser uma pessoa muito extrovertida e gostar, desde criança, de trabalhar com pessoas, principalmente as mais desfavorecidas.

Filho de um pescador e de uma trabalhadora agrícola, Abudo familiarizou-se com a pesca com apenas 12 anos. E foi o trabalho na pesca, e o apoio de um padre católico, que lhe permitiram tirar a licenciatura em Ética, Cidadania e Desenvolvimento, pela Universidade Católica de Moçambique.

Apesar de ter vivido sempre em Pemba, o seu ativismo - é um dos membros fundadores da associação de jovens Kuendeleya, composta por jovens católicos, protestantes e muçulmanos praticantes - já o levou a conhecer perto de 60 cidades moçambicanas. 

Abudo foi um dos primeiros a receber os deslocados em Pemba e explica que foram os jovens do Kuendeleya, juntamente com a estrutura do bairro de Paquite, que desembarcaram as pessoas e lhes deram apoio. E continuam no terreno. Ainda assim, nunca foram convocados para as reuniões na cidade em que se discute a coordenação do apoio a deslocados. 

Abudo Gafuro a carregar produtos alimentares para poder dar deslocados na praia do Paquite. Foto de Anchinha.

Muçulmano praticante, Abudo explica que o problema de Cabo Delgado não tem a ver com religiões e que, na província, cristãos e muçulmanos sempre viveram lado a lado. Este é, de acordo com o jovem ativista, um problema económico, de falta de emprego e de oportunidades, de exclusão social. “Não há uma distribuição equitativa dos recursos naturais explorados em Cabo Delgado”, denuncia. Os interesses dos generais e seus familiares que detêm as licenças de exploração de recursos, ou das multinacionais como a francesa Total, não passam pelo desenvolvimento socioeconómico da província e dos seus habitantes.

Abudo e Sadaca, um marinheiro que salvou cerca de 98 deslocados internos, quando estes sofreram um neufragio em Namavi. Foto de Saide Ferreira.

Em Pemba, uma das cidades mais caras do país, um quilo de arroz custa cerca de um euro. O salário mínimo é um terço do necessário para suprir as necessidades básicas. Estudar é um luxo, e, quem tem essa oportunidade, tem de pagar para comprar um posto de trabalho. Em Montepuez, onde se extraem as melhores pedras preciosas do mundo, não existe sequer um único hospital de referência, ou até mesmo uma máquina de radiografia de referência. E em Palma, a suposta terra das oportunidades onde a Total se instalou, os habitantes de Cabo Delgado só servem para limpar o chão e abrir portas. E, dos 3.332 trabalhadores que foram recebidos no porto de Pemba aquando do ataque, só 300 eram de Cabo Delgado.


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Como, e com que idade, te tornaste ativista?

Devia ter uns 12 ou 13 anos. Eu andava com uma malta do Paquite que sempre gostou de fazer voluntariado. Aprendi muito com eles. Refiro-me ao meu professor da madrassa, Professor Assirar, já falecido, e a um jovem de quem gosto muito, licenciado pela Universidade de Maputo, o Maurício, a quem chamamos Moka.

Eu e o meu amigo Momade Buana costumávamos ir ao campo de futebol de Paquite que, em tempo de férias, promove um campeonato. Éramos os “patinhos feios”, nunca tinham espaço para nós, ficávamos excluídos. Mesmo quando, em 2006, me mudei para o bairro de Alto Gingone, continuei a ir lá. Caminhava dez ou onze quilómetros para tentar jogar, sem sucesso. Os mais velhos designaram-nos “Movimento Desistente”, mas nós escolhemos outro nome: Kuendeleya, que significa Prosseguir. Decidimos mudar de tática e começámos a jogar futebol na praia. Portanto, aquela que é hoje a Associação Kuendeleya, um coletivo inter-religioso composto por jovens católicos, protestantes e muçulmanos praticantes, começou por ser uma equipa de futebol amador na praia.

Centro de Marupá Chiure, onde Abudo esteve a palestrar sobre pequenos negócios para as mulheres deslocadas. E onde tentou "fazer alguma palhaçada para poder fazer sorrir crianças deslocadas". Foto de Amade Bodio.

Entretanto, em 2012, integrei o movimento dos sindicatos dos trabalhadores, por convite do senhor Ramos. Muitos jovens já lhe tinham falado sobre mim, sobre a minha capacidade de mobilização e o meu trabalho no terreno. Aceitei o convite. Até hoje sou membro do sindicato.

Em 2015, fui morar para o bairro de Mahate, onde vivo neste momento. Criei um grupo de jovens informal que se chamava Wiwanana, ou seja, Solidariedade, na nossa língua macua. Começámos a desenvolver algumas atividades. Com enxadas e machados, abrimos um caminho com cerca de quatro quilómetros, porque o governo local não tinha acesso à urbanização. O bairro, com cerca de 300 casas, também não tinha energia convencional, e a Eletricidade de Moçambique - Pemba negava-se a assegurá-la. Depois de dois anos de luta e mobilização, e da recusa por parte da empresa e de representantes do poder local em receber-nos, lá conseguimos, com a intervenção da governadora Celmira da Silva, que a eletricidade fosse instalada no bairro. Estávamos em 2019.

É fácil para os jovens da província formarem um movimento? Há esse reconhecimento oficial e é estimulado o ativismo juvenil?

O problema em Pemba é que há muita burocracia para a criação legal de um movimento de jovens. O grupo Kuendeleya foi registado como associação há poucos dias. Estávamos desde o ano passado a tentar fazer o registo oficial para podermos atuar no terreno como uma entidade legal. Sofremos muito neste processo. Ora faltava isto, ora faltava aquilo. Nunca nos diziam, de uma vez só, tudo o que íamos precisar. Submetemos três vezes o pedido, com indicação do nosso assessor jurídico de que o processo estava pronto, e três vezes fomos recusados.

Abudo a transportar ovos para cozinhar e distribuir pelos deslocados. Foto de Insa Momade.

Existem muitos grupos de jovens de Pemba, ou de outros locais da província, a atuar no terreno?

Há muitos grupos aqui na cidade de Pemba, mas não são grupos criados pelos residentes de Cabo Delgado. São pessoas que vêm de Maputo e têm remuneração. Estes coletivos recebem financiamento, e acabam por excluir os jovens da cidade.

Entre os 132 membros do Kuendeleya, apenas dois conseguiram trabalhar com esses grupos. É um número insignificante. Não temos oportunidade de mostrar o nosso trabalho no terreno para, um dia, podermos fazer valer a nossa formação média ou superior e contribuir para o desenvolvimento do país.

O grupo Kuendeleya cresceu muito desde a sua formação?

Quando criámos o Kuendeleya, éramos jovens solidários. Não tínhamos noção da proporção que o nosso ativismo ia atingir. Queríamos ajudar quem não tinha nada. Com os nossos recursos, o nosso próprio dinheiro, comprávamos xima [um dos pratos mais populares de Moçambique] para ajudar as famílias. Tínhamos de dividir os quilos de açúcar em pequenos saquinhos para ajudar as pessoas afetadas pelo ciclone. O grupo, que é, na sua maioria, constituído por jovens estudantes do ensino superior, com idades compreendidas entre os 20 e 30 anos, foi crescendo. Neste momento, somos 132 pessoas.

Abudo e uma artesã de Metuge, onde estão muitos deslocados internos de Quissanga, que está a ajudar dezenas de mulheres no fabrico de panelas de barro e outros produtos de barro. Foto de Amisse.

O Kuendeleya recebe algum financiamento público, seja a nível municipal, provincial ou nacional?

Nunca tivemos um tostão que não viesse da comunidade. 

Conseguimos apoio de alguns amigos que estão fora do país, através das redes sociais. Foi a forma que encontraram de incentivar o nosso trabalho. Temos tido também o apoio de empresários privados locais que acreditam no nosso grupo.

E a ajuda de pessoas como o Eduardo Calane ou a Eugênia Ncotumula, da Theos Ho Pater Association. Nos últimos oito meses, a Eugênia assegura a assistência alimentar de cerca de 250 famílias com 50kg de comida e produtos de higiene pessoal por mês.

A que atividades se dedica o Kuendeleya?

O nosso grupo alvo são crianças, mulheres grávidas, idosos e mães em idades muito jovens, sobretudo pessoas mais vulneráveis. Mas não excluímos ninguém que esteja necessitado. Prestamos ajuda humanitária, com a confecção e fornecimento de refeições e de bens de primeira necessidade, damos apoio psicológico, temos atividades de reinserção social. E fazemos ações de sensibilização para que a população não adira aos movimentos terroristas. Promovemos diálogos inter-religiosos, sobre a igualdade de género, a justiça e, sobretudo, a paz.

Foto de Foto de Momade Buana.

Temos dado assistência aos deslocados internos de várias formas: ajudamos, por exemplo, no desembarque e no contacto de familiares, na criação de abrigos, na alimentação.

Todo o nosso trabalho está sujeito a prestação de contas aos doadores.

Gostaríamos de promover ainda uma formação de curta duração de ética e deontologia profissional, mas sentimos muitas resistências oficiais e pouco apoio.

Por outro lado, trabalhamos na área do saneamento do meio. Por vezes, dedicamo-nos à reciclagem, à separação de resíduos sólidos, sobretudo nas lixeiras. Queremos contribuir para travar doenças como a malária, a cólera… as doenças endémicas. 

Foste uma das primeiras pessoas a receber os deslocados em Pemba…

Em 2018, trabalhei com o padre Eduardo Roca-Oliver, um missionário espanhol que está em Pemba, no bairro Mahate, onde vivem muçulmanos pobres, na ajuda ao acolhimento de deslocados que fugiram dos ataques terroristas de Mocímboa da Praia e Macomia. 

Entretanto, estando no último ano da universidade, submeti um pedido para poder falar sobre a representação social da etnia mwani de Mocímboa da Praia. Procurei entender as razões da exclusão do povo mwani no processo de desenvolvimento socioeconómico e cultural da província de Cabo Delgado. Para recolher o material da monografia tive de viajar até lá. Fiquei hospedado em casa de familiares da minha companheira.

Ainda antes do grande ataque a Mocímboa, falei com os terroristas, mas sem saber que eles eram terroristas. Desafiaram-me a dirigir a oração do meio-dia, Dhuhr, e ficaram impressionados com a forma como o fiz. Dois deles vieram falar comigo. O mais velho chamava-se Suleiman, líder dos bandidos. Abraçou-me efusivamente e agradeceu-me. Um morador daquele bairro, o senhor Rashid, avisou-me que eles eram bandidos e disse-me para eu sair dali, caso contrário seria morto ou sequestrado. Pedi-lhes autorização para ir embora, mas eles fizeram questão de me acompanhar. Colocaram-me, e aos meus guias, em duas motorizadas e levaram-nos até à cidade. No dia seguinte, abandonei Mocímboa da Praia, esquecendo-me, inclusive, de alguns pertences lá. Era suposto ter ficado lá 22 dias, mas tive de vir embora passados 17 dias. Não quis arriscar. Duas semanas após chegar a Pemba houve um grande ataque, já em 2019. Voltei a falar com o padre Eduardo e começámos a ajudar os deslocados. 

Em seguida, o ciclone Kenneth assolou toda a província de Cabo Delgado. Reativei o movimento Kuendeleya. Houve uma grande mobilização. Muita gente solidarizou-se com o nosso trabalho. Levámos os desalojados para as escolas, onde se abrigaram. Entretanto, quando acabou este processo em Pemba, fomos desafiados por um conterrâneo nosso, o Vasquinho, a ir para Ibo. Alguns dos membros do Kuendeleya ainda foram para Macomia.

Já em 2020, em setembro, fomos confrontados com a avalanche da crise humanitária, que estamos a viver até aos dias de hoje. Estávamos na praia de Paquite a jogar futebol e, de repente, vimos quatro barcos a chegar, cheios de pessoas. Corremos para o bairro para avisar os policiais comunitários. Tivemos receio de que fossem bandidos. Os polícias foram fazer a triagem e verificaram que eram deslocados internos, a grande maioria mulheres e crianças, que fugiam dos ataques de Macomia e Quissanga. Alguns estavam no mar há dois dias, sem ter o que comer e beber. Pediram-nos para ajudar a desembarcar as pessoas. Estivemos três dias nesse apoio. No final, publiquei fotos no facebook, inclusive, a imagem de um bebé que nasceu no barco, dando a conhecer o que se estava a passar.

A situação acalmou durante cerca de duas semanas. Em outubro, no dia 14, chegaram cinco barcos. Dia 16, chegaram já cento e tal pessoas. As chegadas foram-se intensificando: 386 / 427 / 780 / 1000 / 2.980 ao dia… 

Pedimos a familiares e amigos açúcar, pão, farinha para papa, folhas de chá, lenha para podermos dar aos deslocados, que chegavam extremamente debilitados. Contámos também com a ajuda de empresários locais. Foram os jovens do Kuendeleya, juntamente com a estrutura do bairro de Paquite, que desembarcaram os deslocados e lhes deram apoio.  

No dia em que chegaram quase 4.000 pessoas ficámos em pânico. Eu estava a coordenar o processo de desembarque, juntamente com a estrutura local. Perdi o controlo. Apesar de Moçambique o proibir, fiz um vídeo para o Eduardo Calane, a pedir ajuda. Expliquei-lhe que as pessoas na praia estavam há uma semana sem comer nada e que tínhamos ainda vários deslocados para desembarcar, que tinham chegado naquele dia. Não tínhamos nem um quilo de açúcar. 

O Eduardo partilhou o vídeo nas redes sociais e muita gente contribuiu com açúcar, bananas... Uma fundação chinesa começou a ajudar-nos, mas passados três dias foi embora. Prometeram que voltavam para dar apoio àquela gente que estava a dormir ao longo da orla marítima. Nunca mais apareceram. 

Só quando voltei a ter a ousadia de usar as redes sociais para pedir ajuda às pessoas de boa vontade, a amigos e colegas da faculdade, começámos a ver chegar mais gente para dar assistência aos deslocados. E, logo no dia a seguir a ser marcada uma visita do presidente da República, o município da cidade de Pemba mandou limpar o bairro de Paquite e dar apoio aos deslocados. Chegou a Unicef, o PMA [Programa Mundial de Alimentos]. Isto depois de duas semanas! Só passadas essas duas semanas é que começámos a ver as grandes organizações a chegarem ao bairro de Paquite, que está a menos de 5 km da cidade, onde eles estão a dormir nos hotéis de cinco estrelas. Andam com carros alugados de alta cilindrada, mas não conseguiram ajudar a população naqueles dias. Nós tivemos de garantir esse apoio com a ajuda de singulares. E continuámos na praia. Já as grandes organizações mantiveram-se lá nos dias em que o presidente estava a sobrevoar a província de Cabo Delgado para se inteirar da situação da crise humanitária. Quando o presidente saiu de Cabo Delgado, as organizações também desmontaram as suas estruturas na praia. 

Tivemos de falar com o administrador e com o INCG [Instituto Nacional Gestão de Calamidades] porque estávamos com rutura de comida. A INGC trouxe a comida imediatamente. Começaram a ajudar-nos. Pedimos a evacuação daquelas pessoas, que foram levadas para centros de acolhimento em distritos como Ancuabe, Montepuez, Metuge, Chiúre ou Mecúfi. Aí já tivemos algum alívio. 

Várias vezes fazem-se reuniões na cidade de Pemba para coordenar o apoio a deslocados. Nunca nos convocaram para participarmos. E nunca ninguém nos incentivou a formarmos uma associação. Foram amigos meus, portugueses, que me aconselharam a legalizar o movimento. 

Mas nunca parámos. Por exemplo, estivemos dois meses e cinco dias a garantir o almoço e o jantar dos deslocados, reforçados pela Cáritas Diocesana e pela Comunidade de Santo Egídio. Só parámos hoje porque já não temos mais. Também acolhemos deslocados em nossas casas. Eu tenho 14 pessoas na minha modesta casa, sobretudo mulheres deslocadas de Mocímboa. São pessoas que conheço e são amigos. Pedimos à minha mãe para acolher duas mulheres que tiveram bebés no mangal e no barco artesanal durante a fuga.

Em que zonas prestam apoio?

Nós ajudamos todos aqueles que estão mais afetados. Damos apoio nos centros de deslocados, sobretudo no distrito de Metuge. Fomos os primeiros a ajudar o povo de Quissanga.

Celebração do fim do Ramadão (Eid) em Metuge. Fotos de Alfredo. Clicar numa imagem para ver a fotogaleria

Ontem estivemos em Metuge a festejar o dia do Eid [fim do Ramadão] com a população. É num local ao qual os próprios governantes não têm acesso. Para chegarem lá, têm de pôr 100 ou 200 militares no terreno. Nós entrámos sem militar nenhum. fornecemos o almoço, festejámos com eles e dissemos-lhes que estamos do seu lado. Prestámos a nossa solidariedade e encorajámo-los a acreditar que isto vai ter um fim e que um dia vão poder voltar para casa. 

Também damos apoio no distrito de Montepuez, aos deslocados de Mapupulo, onde ajudámos a construir casas para crianças órfãs. Em Nicuapa distribuímos cerca de 23 toneladas doadas pelo setor privado da província de Cabo Delgado. 

Montepuez, doadores do setor privado de Cabo Delgado designado pelo CEP. Os responsáveis pela carga foram jovens do grupo Kuendeleya e a distribuição foi feta juntamente com a administradora do distrito de Montepuez, Isaura Máquina. Foto de Francisco.

Ajudamos em Marupa, distrito de Chiúre. Antes de entrarem lá outras organizações, fomos nós que começámos a dar apoio aos deslocados. 

O mesmo aconteceu no distrito de Mecúfi. E vamos quase todos os fins de semana ao distrito de Ancuabe.

Qual é a situação, neste momento, dos deslocados? Quais são os principais problemas que enfrentam?

Primeiro, a maior preocupação para os deslocados é a alimentação. O segundo problema é o sítio onde vão dormir. Depois, a forma de conservar a água que vão beber. Há também o problema da falta de redes mosquiteiras. Nós distribuímos, mas parece que foi uma gota no oceano.

Tenho ainda de alertar para o gravíssimo problema psicossocial. Estas pessoas viram os seus familiares a serem decapitados, os seus filhos e filhas a serem raptados. E eles sem poderem fazer nada. Viram as suas casas a serem queimadas. Há muitas crianças que perderam pai e mãe. É esta a situação que a nossa população vive dia após dia. 

No início dizia-se que, na origem dos ataques, estavam questões religiosas. Como é que a comunidade muçulmana tem acompanhado a situação, tem existido apoio inter-religioso?

Na minha opinião, o problema de Delgado não tem a ver com religiões. Falo com várias pessoas que foram raptadas e elas dizem-me isso mesmo: que isto não é um problema religioso. Isto é um problema socioeconómico, de falta de emprego.

Os terroristas até guarda de mesquita matam. Destroem as mesquitas. Raptam os sheiks. Eles atacam e fuzilam inocentes. Degolam pessoas como se estivessem a tirar a vida a uma galinha ou a um cabrito. Mesmo uma pessoa que mata um cabrito tem de sofrer emocionalmente para matá-lo. Porque está a tirar uma vida. Os terroristas usam as meninas, as mulheres jovens, como escravas sexuais. Que tipo de muçulmanos são estes? 

Agora eles já reduziram as matanças dos civis, atacam muito mais os polícias e os militares.

Em Cabo Delgado, cristãos e muçulmanos sempre viveram lado a lado. Como irmãos, unidos. Com solidariedade de ambas as partes. Eu tenho familiares cristãos, tenho familiares muçulmanos. Tenho melhores amigos cristãos. Eu entro na igreja. Eu entro na mesquita. Sou muito livre quanto a isso. 

Já foram promovidos vários debates inter-religiosos, orações em conjunto e marchas de paz. Eu mesmo falava muito com o D. Luiz e com o padre Eduardo.

A população de Cabo Delgado e, especificamente, de Pemba, tem sido excluída a nível económico e social?

Há uma força que tenta impedir Cabo Delgado de progredir e desenvolver. Somos uma maioria sem poder. E a minoria que tem poder acaba por empurrar a maioria para fora. Mas nós nunca desistimos. Existe uma enorme exclusão social dos habitantes de Pemba.

Abudo com crianças deslocadas. Foto de Amade Bodio.

A falta de oportunidades de trabalho para os jovens da cidade é muito grave. Se os jovens tivessem uma ocupação que lhes garantisse um sustento, a sobrevivência, não se uniam a estes grupos para fazer mal a outros moçambicanos.

O custo de vida na cidade de Pemba está muito elevado. É uma das cidades mais caras do país. Uma viagem de Pemba – Maputo, ida e volta, são 1.400 euros. Sair de Maputo para Lisboa não chega a 1.000 euros. Um quilo de arroz em Pemba está a 70 meticais, cerca de um euro. Um quilo de açúcar é um euro e pouco, ou seja, 75 meticais.

E qual é o salário médio em Pemba?

O salário médio na cidade de Pemba é de 4.350 meticais. Segundo cálculos do economista João Mosca, o salário mínimo deveria ser de, pelo menos, 16.000 meticais, tendo em conta as despesas de água, luz, alimentação básica e transportes. E isto só contando com as necessidades básicas.

Não percebemos a razão do custo de vida ser tão elevado em Pemba.

Abudo Gafuro Manana. Foto de Yahaya Gafuro.

Os investimentos na exploração de recursos naturais representam uma oportunidade para os jovens?

Este é um grande problema e uma dor de cabeça. A maioria dos jovens que saíram do garimpo ilegal de Montepuez aliaram-se aos grupos de terroristas. O estudo do Fidel Terenciano, em que eu participei, demonstra-o. O distrito de Montepuez tinha mais de 43 nacionalidades. Várias pessoas exerciam o garimpo. Viviam e sobreviviam desta atividade. Quando os garimpeiros foram expulsos em 2017, muitos aliaram-se ao movimento dos terroristas. 

Os donos das licenças de exploração de recursos são os generais, os filhos e os sobrinhos dos generais. 

Não há uma distribuição equitativa dos recursos naturais explorados em Cabo Delgado. Hoje, Montepuez não tem um único hospital de referência, mas o distrito tira as melhores pedras preciosas do mundo. O hospital não tem uma máquina de radiografia de referência. Assim como Pemba também não tem. Isto é demais!

Abudo com deslocados em Metuge. Foto de Alama Júnior.

E no que respeita aos negócios internacionais, como o da Total, na exploração de gás?

Para teres noção, tínhamos perto de 470 empresas registadas a nível da província de Cabo Delgado, mas que operavam em Palma. Eu participei no processo de desembarque dos trabalhadores da Total que estavam a fugir da guerra em Palma. Dos 3.332 trabalhadores que recebemos ali, diretamente no porto de Pemba, só 300 eram de Cabo Delgado. Os restantes 3.032 eram todos forasteiros, e ocupavam os cargos mais importantes. Os cidadãos da província que ali estavam serviam para abrir a porta, limpar o carro, limpar o chão… Os jovens de Cabo Delgado que são formados pelas universidades moçambicanas são excluídos do desenvolvimento da sua própria província.

A província de Cabo Delgado é a que mais sofre. São-lhe retirados os seus recursos mas não há nenhuma oportunidade. Nós, os naturais de Cabo Delgado, os filhos de Cabo Delgado, somos deixados de fora. 

Qual foi a tua experiência de procura de emprego?

Já tive duas possibilidades de emprego. Mas chegaram a pedir-me 60 mil meticais para poder comprar o posto de trabalho. Onde é que eu ia buscar 60 mil meticais?

Abudo a fritar ovos para poder fazer sandes para os deslocados internos no centro trânsitorio complexo desportivo de Pemba. Foto de Omar.

E, em relação à formação académica, os jovens têm facilidade em tirar um curso superior?

Para os macua e mwanis, por exemplo, é muito complicado aceder à educação quando se trata das bolsas de estudo. O mesmo não acontece com o povo maconde. Os macondes têm as oportunidades abertas e podem entrar em qualquer universidade pública. Os macua e os mwanis entram como suplentes. E, quando entram, tem de ser com os seus próprios recursos, como aconteceu comigo. Têm de procurar quem os ajude a estudar.

É muito caro tirar um curso universitário. E é por isso que continuam a ser poucos os jovens a conseguir fazê-lo.

Sempre acreditei que estudar é um instrumento para combater o inimigo: a exclusão social. A melhor coisa que podemos fazer é formar-nos, é estudar, é participar no associativismo para fazermos valer a nossa formação dentro da sociedade e ajudar no desenvolvimento do nosso próprio país.

Foto de Fábio.

Que medidas consideras serem fundamentais para a província de Cabo Delgado?

Primeiro, apostar na educação. As escolas secundárias chegaram muito tarde nas regiões que estão hoje a sofrer as guerras. É preciso investir no ensino técnico profissional. Śegundo, ocupar o maior número de jovens. 

Terceiro, é preciso investir no maior setor de esperança neste país, para podermos deixar de depender da importação de produtos alimentares. Temos muitas terras por explorar. O setor da agricultura podia ajudar a contribuir para o desenvolvimento socioeconómico do país. Temos de saber produzir, ter capacidade de produção e consumir aquilo que é nosso. O tomate, os frangos, o repolho, as cebolas que se consomem em Maputo têm de vir da África do Sul. 

Abudo Gafuro Manana. Foto de Ancha Gafuro.

Cabo Delgado tem um índice elevado de criminalidade porque os jovens não se ocupam, não fazem nada. É preciso criar empregos, e o setor da agricultura poderia ajudar nesse sentido.

Precisamos ainda de diálogo. A coesão social é muito urgente. É necessário resgatar a autoestima. A unidade tem de sair do papel e partir para a prática. É preciso amar as pessoas, respeitá-las e reconhecer o valor que elas têm. 

Os jovens têm de ter espaços de diálogo, de encontro, de debate, de participação. As lideranças têm de ser renovadas, de abrir espaço aos jovens.

Penso que isto seria suficiente para diminuir o índice de criminalidade e diminuir o problema da extrema violência que atualmente estamos a viver em Cabo Delgado e no centro do país.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do trabalho
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