Numa carta endereçada ao diretor interino do Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Medicina da Reprodução do Santa Maria, à presidente do Conselho de Administração e ao diretor clínico do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, os médicos sublinham que, tendo por pressuposto o garante da segurança das grávidas e da equipa, não estão “asseguradas as condições para reforçar a urgência de obstetrícia e ginecologia do Hospital S. Francisco Xavier a partir de 1 de agosto”.
Na missiva, citada pela agência Lusa, alertam que “continuam sem estar definidas condições e aspetos básicos de articulação essenciais”. “A uma semana da prevista transição verifica-se não terem sido transmitidas à equipa informações adicionais concretas”, escrevem, acrescentando ainda que “se mantém para os últimos dias de julho a irregularidade da constituição das equipas de urgência”.
Os médicos do serviço de obstetrícia e ginecologia do Hospital de Santa Maria afirmam terem sido informados há cerca de uma semana, pelo diretor interino Alexandre Valentim Lourenço, que iriam reforçar a urgência de obstetrícia e ginecologia do São Francisco Xavier a partir de 1 de agosto, “assegurando quatro das oito equipas” do hospital e “mantendo uma urgência interna” no Santa Maria.
“Fomos ainda informados de que o objetivo no Hospital S. Francisco Xavier é não serem atingidos os 3.500 partos/ano à custa do envio de grávidas para hospitais privados”, denunciam os signatários.
De acordo com os profissionais de saúde, por esclarecer está a “possibilidade real” de assegurar a escala-tipo proposta para a urgência externa do S. Francisco Xavier, de seis elementos, com um mínimo de três especialistas, a constituição e funções da equipa da urgência interna no Santa Maria, a definição dos casos que terão de ficar sob internamento neste hospital ou as “situações clínicas passíveis de serem referenciadas” para unidades privadas.
Acresce que, segundo destacam, está também por assegurar a “informação às grávidas” acompanhadas no Hospital de Santa Maria, “sobre onde e como decorrerá a sua indução de trabalho de parto e o parto”, a necessidade de disponibilização de pessoal do Santa Maria “para apoio às enfermarias de grávidas e puérperas” do Hospital S. Francisco Xavier, bem como a “formação relativamente a programas informáticos, agilização de contactos com outras especialidades e processo de referenciação para outras unidades hospitalares”.
Clima de tensão e contestação adensa-se
No dia 19 de junho, uma nota do Centro Hospitalar Lisboa Norte (CHLN), presidido por Ana Paula Martins, veio dar conta da exoneração de Diogo Ayres de Campos. A administração alegava que a direção do DOGMR tinha vindo a assumir posições que, "de forma reiterada, têm colocado em causa o projeto de obra e o processo colaborativo com o Hospital São Francisco Xavier, durante as obras da nova maternidade do Hospital Santa Maria".
Logo no dia seguinte, foi divulgada uma carta enviada quatro dias antes à administração do Hospital de Santa Maria (HSM), assinada por 34 dos 37 médicos do DOGMR desse estabelecimento hospitalar. Na missiva, era criticada a decisão relativa ao encerramento para obras do bloco de partos do Hospital de Santa Maria (HSM) durante os meses de agosto e setembro, com a concentração dos serviços no Hospital São Francisco Xavier (HSFX).
Entretanto, os médicos do DOGMR escreveram uma nova carta, solicitando a revogação da demissão de Diogo Ayres de Campos e da diretora do Serviço de Obstetrícia Luísa Pinto. Todos os médicos do departamento, à exceção dos dois diretores demitidos, do novo responsável e de três médicos que já não fazem urgência, assinaram a missiva, em que manifestaram a sua “total confiança” nos profissionais visados e elogiam o seu trabalho ímpar.
No dia 23 de junho, e perante a falta de resposta à sua solicitação, mais de uma dezena de chefes de equipa das urgências de obstetrícia do HSM apresentaram a sua demissão e inúmeros profissionais declararam-se indisponíveis para realizar mais horas extraordinárias.
Apesar de ter garantido que as grávidas do Hospital de Santa Maria só seriam encaminhadas para o privado em casos excecionais, e apenas durante o período de obras do bloco de partos deste hospital, no início de julho, e perante o encaminhamento de grávidas para o privado antes mesmo de as obras terem início, o executivo socialista avançou que apenas seriam transferidas grávidas de baixo risco. Poucos dias depois ficámos a saber que os privados para onde estão a ser encaminhadas as grávidas contam com menos obstetras do que a lei exige. Nessa mesma semana, surgiu ainda a notícia de que o Santa Maria estava a transferir grávidas com diabetes gestacional, que é, segundo a Direção Geral de Saúde, uma condição de risco, para a CUF Descobertas, em Lisboa.
Já a 12 de julho, e semanas após o seu afastamento, Ayres de Campos afirmou, numa audição na Assembleia da República, que "não havendo razão técnico científica para a exoneração, pode haver provavelmente razões políticas”.
No dia seguinte, dezenas de utentes e profissionais do Hospital de Santa Maria concentraram-se num cordão humano solidário com os profissionais do serviço de ginecologia e obstetrícia e contra o encerramento da maternidade no verão e o envio de grávidas para hospitais particulares.