Dezenas de utentes e profissionais do Hospital de Santa Maria concentraram-se esta quinta-feira num cordão humano solidário com os profissionais do serviço de ginecologia e obstetrícia da maior maternidade do país.
"Estamos aqui a solidarizar-nos com a postura dialogante que os médicos têm assumido. A situação de tensão não foi criada pelos médicos", afirmou aos jornalistas Afonso Moreira, do Sindicato dos Médicos da Zona Sul.
Ao seu lado estava Diogo Ayres de Campos, o diretor do Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Medicina da Reprodução que foi exonerado do cargo, a par da diretora do Serviço de Obstetrícia, Luísa Pinto, por terem subscrito uma carta dos profissionais do serviço à administração a expressar as suas dúvidas quanto ao plano que implica a passagem da equipa para o Hospital de São Francisco Xavier durante um ano e o encerramento em agosto do serviço no Santa Maria.
Ayres de Campos esteve na quarta-feira no Parlamento a explicar as suas razões, defendendo que o encerramento do bloco de partos no Santa Maria "não é necessário", dado que as obras "irão ser feitas num edifício anexo ao hospital”. Neste cordão humano, não quis prestar declarações à imprensa. O sindicalista Afonso Moreira acrescentou que o que se pretende ºe que "seja restituída a normalidade ao maior hospital de Lisboa" e que "quem está melhor colocado para dirigir estas transições e mudanças têm obviamente que ser as chefias que têm a confiança dos médicos e médicas deste serviço".
Para Sara Duval, da associação Gravidez e Parto, neste braço de ferro entre a administração e os profissionais, "as primeiras lesadas são sempre as mulheres e os bebés", pois "sempre que se desmembra uma maternidade, acabamos com um ecossistema muito próprio e que pode fazer a diferença na segurança das mulheres". Em declarações à SIC, contestou "esta ideia que se podem fechar maternidades como se fecham mercearias" e afirma que o hospital São Francisco Xavier "já está sobrecarregado, ainda para mais num período de verão". No que diz respeito ao Santa Maria, também questiona "se as obras são no edifício à parte, porque é que o bloco de partos não pode funcionar?"
Mandar grávidas para o privado "é dizer que o SNS desistiu"
A deputada bloquista Joana Mortágua também marcou presença no cordão humano e diz que o que aconteceu nas últimas semanas no Santa Maria é "um sintoma de que o SNS está a falhar", o que considera "absolutamente preocupante".
"O serviço não precisava de encerrar para que fossem realizadas as obras e muito menos em agosto, quando as obras não estão adjudicadas", prosseguiu Joana Mortágua, concluindo que "o problema não são as obras, é estarem a utilizar as obras como justificação para encobrir a falta de profissionais".
Ou seja, no entender da deputada do Bloco, este serviço encerra "porque os profissionais são necessários noutro hospital para que o serviço não encerre". E lamenta que "os profissionais que realizam horas extraordinárias para além do que é legal para manter este serviço aberto" acabem por ser transformados "numa peça no tabuleiro do Ministério da Saúde", de forma a permitir a Manuel Pizarro dizer "que não há encerramentos, mas sim rotatividade"
"A maior maternidade do país estar a enviar grávidas para o privado é uma privatização do SNS, é dizer que o SNS desistiu de dar uma resposta a todas as grávidas. É uma desistência que não podemos aceitar, o SNS precisa de profissionais", rematou.