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Presidenciais na Polónia: o triunfo do “país profundo”

O atual presidente Andrzej Duda foi reeleito na segunda volta com 51,0% dos votos. Estas eleições mostravam o confronto entre uma Polónia moderna e outra conservadora, que acabou por vencer o ato eleitoral. Por Jorge Martins.
Imagem da noite eleitoral de domingo. Foto da campanha de Andrzej Duda/Facebook

Na 2ª volta das eleições presidenciais na Polónia, disputadas no passado domingo, o atual presidente Andrzej Duda, do partido governamental Direito e Justiça (PiS), da direita reacionária, foi reeleito, ao obter 51,0% dos votos, batendo o “marszalek” de Varsóvia, Rafal Trzaskowski, da liberal-conservadora Plataforma Cívica (PO), que se ficou pelos 49,0%.

Na antevisão do ato eleitoral, disse aqui que ele mostrava o confronto entre as duas Polónias que coexistem no mesmo país: a moderna, mais cosmopolita, liberal, aberta, laica e tolerante, dominante no Noroeste, Oeste, Centro-Oeste, Sudoeste, em Varsóvia e nos maiores centros urbanos; e a profunda, mais nacionalista, conservadora, fechada, religiosa e retrógrada, que predomina no Leste, Sudeste e Centro-Leste, bem como nas zonas rurais e nas pequenas cidades.

Foi esta última que triunfou nestas presidenciais, embora a pequena margem da sua vitória mostre que o país está praticamente dividido a meio. Para além das clivagens territoriais que referi e se confirmaram plenamente, há, igualmente, um conjunto de clivagens sociais a que irei fazer referência, em termos de género, idade, nível de escolaridade/rendimento e local de residência.

Análise sociológica

Vou, então, ilustrá-las a partir dos dados da sondagem à boca das urnas, conduzida pelo instituto Ipsos, a partir do portal “Wiadomości”. Algumas diferenças relativamente à fonte foram por mim estimadas para acomodar a ligeira diferença entre a previsão da sondagem (50,4%-49,6%) e o resultado final das eleições (51,0%-49,0%).

Ao nível do género, verificamos que Duda recebeu 52,3% dos votos dos homens, enquanto Trzaskowski apenas obteve 47,7%. Já as mulheres preferiram este último, embora por margem muito estreita (50,2% contra 49,8% para o atual presidente).

Tal como se tem verificado em eleições recentes noutros países, o voto feminino é, também aqui, mais progressista que o masculino.

Considerando, agora, a idade, vemos que o “marszalek” de Varsóvia foi o preferido dos mais jovens. Assim, de entre os eleitores entre os 18 e os 29 anos, obteve uns expressivos 64,4%, contra 35,6% do seu adversário.

Nos dois grupos etários seguintes, Trzaskowski também venceu, por margem mais curta, mas clara (55,4% contra 44,6% entre as pessoas dos 30 aos 39 anos e 55,1% contra 44,9% das que se situam entre os 40 e os 49).

Foi o apoio que obteve entre os mais idosos que permitiu o triunfo de Duda. Assim, de entre os votantes entre os 50 e os 59 anos, conseguiu 59,1%, contra 40,9% do seu opositor. Por seu turno, nos maiores de 60, a sua vantagem ainda foi maior: 61,7% contra 38,3%.

Como se pode verificar, sem surpresa, à medida que se avança na idade, o voto vai-se tornando mais conservador.

Quanto ao nível de escolaridade, verificamos que o atual presidente “esmagou” entre os que possuem apenas o ensino básico (77,3% dos votos contra 22,7% do candidato oposicionista) e o vocacional (74,7% contra 25,3%).

Já entre os que possuem o ensino secundário, há um empate técnico, com Duda a aparecer com 50,3% e Trzaskowski com 49,7%.

É entre aqueles que possuem formação superior que o “marszalek” da capital consegue uma clara maioria: 65,9% contra 34,1% para o presidente incumbente.

Conclui-se, então, que os eleitores mais escolarizados votaram no candidato mais liberal, enquanto aqueles que possuem menos estudos apoiaram o mais conservador, o que também não causa grande admiração.

Mais ainda se considerarmos que existe uma correspondência entre níveis de escolaridade e de rendimento. Como fiz notar em artigo anterior, as políticas assistencialistas do PiS são mais populares entre os mais pobres que as políticas liberais da PO, o que ajuda, em muito, a compreender este comportamento eleitoral.

Outro dado importante é o tipo de localidade em que os eleitores residem.

Assim, a vitória de Duda alicerçou-se no apoio que granjeou nas áreas rurais, onde conseguiu 63,2% dos votos, contra apenas 36,8% do seu opositor.

Ao invés, Traskowski venceu nas zonas urbanas: nas pequenas urbes (entre 50 e 200 mil habitantes), de forma tangencial (51,0% contra 49,0%); nas cidades médias (entre 200 e 500 mil residentes), com uma vantagem um pouco maior (53,8% contra 46,2%) e, nos centros urbanos com mais de 500 mil pessoas, de forma muito clara (61,9% contra 38,1%).

Também sem novidade, o voto do campo foi muito mais conservador. E, à medida que o grau de urbanização aumenta, o candidato liberal ganha apoios.

Por seu turno, os polacos residentes no exterior preferiram, claramente, o candidato da oposição: 74,1% votaram nele, contra apenas 25,9% que optaram pelo atual presidente.

Análise geográfica

Ao nível da Geografia Eleitoral, confirmaram-se as perspetivas que deixei após a análise que aqui fiz dos resultados da 1ª volta e que corresponde a uma tendência estrutural.

Sem surpresa, Trzaskowski venceu em 10 das 16 províncias, mas a vantagem de Duda nas seis em que saiu vencedor compensou as derrotas no resto do território.

O atual chefe de Estado obteve vitórias esmagadoras em todas as províncias do Leste e do Sueste: Subcarpácia (70,9%), Lublin (66,3%), Santa Cruz (64,4%), Podláquia (60,1%) e Pequena Polónia (59,6%). Venceu, ainda, na de Lódz, no Centro-Leste, com 54,5%.

Por seu turno, o “marszalek” de Varsóvia ficou à frente no Norte, Noroeste, Oeste, Sudoeste, Centro-Oeste e Sul. Venceu tangencialmente na Silésia (51,0%), por margens estritas na Mazóvia (52,3%), Opole (52,6%), Cujávia-Pomerânia e Vármia-Masúria (ambas com 53,2%) e mais à vontade na Grande Polónia (54,9%) e na Baixa Silésia (55,4%). Os seus triunfos mais claros ocorreram nas províncias do Oeste e Noroeste que já tinha vencido na 1ª volta: Pomerânia Ocidental (58,8%), Lubúsquia e Pomerânia (59,2% em ambas).

Há, ainda, a referir, que, na Mazóvia, onde se situa a capital, Varsóvia, a vantagem de Trzaskowski deve-se ao facto de os votos dos residentes no estrangeiro serem aí contabilizados. Ora, o candidato liberal recebeu 74,1% destes, o que lhe permitiu “cantar vitória” na província, situada no Centro-Leste do país. Porém, se contarmos apenas os que aí residem, Duda foi o vencedor nessa região, com 50,3% dos sufrágios.

Por outro lado, se, na 1ª volta, o presidente do município de Varsóvia já vencera em 12 das 16 capitais de província, agora esteve quase a fazer o pleno: venceu em 15, apenas tendo perdido em Rzeszów, capital da Subcarpácia, e, mesmo aí, “por uma unha negra”: 49,7% contra 50,3% de Duda. Um dado que confirma a sua enorme superioridade nos maiores centros urbanos. Na capital, a cujo município preside, Trzaskowski obteve uma vantagem esmagadora: 67,3% contra 32,7%.

Transferências de voto

Vamos, agora, às transferências de voto. Veremos o grau de aceitação das respetivas indicações de voto dos candidatos derrotados na 1ª volta por parte dos diferentes eleitorados, nos casos em que estas existiram, e o comportamento dos eleitores de candidatos que não manifestaram, oficialmente, qualquer preferência para a 2ª volta.

O independente Szymon Holownia, o agrário Władysław Kamyerz-Kamisz, do Partido Popular Polaco (PSL), e o social-liberal apoiado pela esquerda Robert Biedroń, do Primavera (W), apelaram ao voto em Trzaskowski, enquanto Marek Jakubiak, de uma pequena formação da direita conservadora, foi o único a dar apoio explícito a Duda.

Contudo, dada a proximidade ideológica entre Krzystof Bosak, da Confederação da Liberdade e da Independência (KWiN), agrupamento formado por vários grupos políticos da extrema-direita e da direita mais nacionalista, reacionária e ultramontana, com o presidente incumbente, inclui os seus eleitores nos potenciais votantes deste na 2ª volta.

Já relativamente aos candidatos menores Stanisław Żółtek e Mirosław Piotrowski fui mais prudente, pois, apesar de se situarem no mesmo campo ideológico de Duda, é notória a sua antipatia face ao PiS.

Já os votantes do candidato da esquerda Waldemar Witkowski estariam mais próximos de Trzaskowski nas questões de costumes, embora mais afastados nas económico-sociais, enquanto no que se refere aos de Paweł Tajano, um populista e eurocético defensor da democracia direta, uns tenderiam a optar pelo atual chefe de Estado, devido ao seu euroceticismo, e outros no “marzalek” da capital, por achá-lo mais capaz de defender as liberdades e as instituições democráticas. Após ponderar todos esses fatores, estimei 0,5% para Duda e 0,3% para Trzaskowski.

Somando as diferentes percentagens, cheguei, então, a 50,8% para o candidato do PiS e 49,2% para o da PO, assumindo um valor entre 50,5 e 51,0% a favor do primeiro. Falhei por duas décimas, embora, ao contrário do que mostram as aparências, as contas não sejam assim tão lineares, como veremos a seguir.

De acordo com os dados do inquérito acima referidos, com ligeiras adaptações, verifica-se que, dos eleitores que escolheram um dos dois candidatos (excetuando os poucos votos brancos ou nulos e os que terão fugido para a abstenção) transferiram o seu voto das formas que ilustrarei de seguida.

Dos eleitores de Holownia, cerca de 83% seguiram a indicação do candidato independente e deram o seu voto a Trzaskowski. Porém, houve perto de 17% (ou seja, 1/6) que optou por Duda.

Este fenómeno é claramente visível na Podláquia, região de onde o primeiro é natural e onde terá havido eleitores conservadores que nele votaram no 1º turno por aquilo que podemos designar de “efeito conterrâneo”. Contudo, na 2ª volta, escolheram o atual presidente. É, aliás, naquela província que a diferença entre os votos potenciais do candidato opositor mais se afastam do resultado (-1,2%). Terá ocorrido, igualmente, noutras áreas, mas com menor amplitude que aí.

Na verdade, alguns dos que votaram no jornalista e filantropo fizeram-no pelas suas preocupações sociais, algo que não consideram existir na PO. Por isso, entenderam o assistencialismo do PiS como o mal menor.

Porém, registaram-se maiores fugas entre os eleitores de Kosniak-Kamysz, já que apenas pouco mais de 74% foram atrás da sua indicação de apoio ao candidato oposicionista, tendo quase 26% (ou seja, à volta de 1/4) escolhido o chefe de Estado incumbente.

É isso que explica, em grande parte, os desvios existentes nas regiões do Leste e do Sueste, onde o PSL ainda tem alguma implantação, entre o voto potencial e o obtido pelo presidente do município da capital: Lódz (-1,0%), Santa Cruz (-0,9%), Lublin (-0,8%) e Subcarpácia (-0,7%). O mesmo fenómeno ocorreu no Centro-Oeste, nas províncias da Cujávia-Pomerânia (-0,8%) e da Grande Polónia (-0,5%), onde o candidato agrário teve, no 1ª turno, uma votação acima da média.

Como referi na análise à 1ª volta, o PSL, apesar de ser uma formação de centro-direita pró-UE, é um partido conservador em matéria de costumes, com apoio em alguns setores do eleitorado rural. Daí que alguns dos seus eleitores mais sensíveis a essas questões tenham acabado por votar em Duda.

Já os votantes de Biedroń foram mais fiéis, tendo 86% seguido a respetiva opção de voto, apoiando o candidato da oposição, mas, mesmo entre estes, 14% (cerca de 1/7) terão optado pelo atual presidente.

Este fenómeno é menos visível, mas pode ver-se na Silésia, região mineira, onde a percentagem de votos estimada para Trzaskowski é igual à efetivamente obtida, apesar do aumento da participação eleitoral aí ocorrido. Também na Mazóvia, o desvio a seu favor é menor do que se esperava (+0,2%), podendo dever-se a essa fuga de eleitores do candidato do centro-esquerda.

Se a maioria dos seus eleitores votou principalmente por questões culturais ou pela defesa da democracia, alguns houve que puseram à frente as questões económicas e sociais. Logo, as razões para essa fuga são iguais ás dos eleitores de Holownia que fizeram a mesma opção: a falta de perspetiva social da PO, demasiado liberal para o eleitorado operário e para os trabalhadores mais pobres, que preferem o assistencialismo do PiS.

Contudo, a grande surpresa terá vindo dos eleitores de Bosak. Embora ideologicamente mais próxima do partido do governo, a KWiN não aceita a hegemonia que, com a sua governação autoritária, aquele quer impor ao país. De acordo com o próprio Bosak, a ideia dos “confederados” é tornarem-se uma terceira força, alternativa tanto ao PiS como à PO.

Durante a campanha da 2ª volta, Duda percebeu que era aí que estava a chave do seu triunfo. Por isso, radicalizou o discurso para ir ao encontro desse eleitorado, manifestando posições abertamente reacionárias em matéria de costumes, desde a defesa da “identidade nacional”, da “herança cristã da Polónia”, dos “valores familiares” e da “família tradicional”.

Afirmou a sua oposição à “ideologia de género”, ao aborto e aos direitos das pessoas LGBTQI, com frequentes tiradas homofóbicas, como a inacreditável afirmação de que “os homossexuais querem convencer-nos de que são pessoas”(!!!...).

Apesar de tudo, verificou-se uma grande divisão no eleitorado de Bosak: 54% terão votado em Duda e 46% em Trzaskowski. Na verdade, estes últimos não votaram neste, no seu programa, mas, antes, contra o PiS, de forma a enfraquecer a sua governação.

Esta divisão do eleitorado da extrema-direita permitiu ao candidato liberal compensar, praticamente em igual medida, as perdas de apoiantes dos restantes três candidatos que lhe tinham dado apoio oficial na 2ª volta e que referi acima. Contudo, mostrou, igualmente, a fragilidade da KWiN, que, como o nome indica, possui, no seu seio, várias correntes.

Dos candidatos menores, estimo que quase 60% terão ido para Duda e um pouco mais de 40% para Trzaskowski.

Já relativamente à captação de abstencionistas do 1º turno, o candidato da PO levou ligeiramente a melhor, tendo captado cerca de 50,5% de gente que, a 28 de junho, não compareceu nas urnas, contra 49,5% do seu adversário. Porém, tal foi insuficiente para evitar a derrota.

Ao nível provincial, tudo indica que os candidatos mobilizaram maiores apoios nas suas maiores áreas de implantação.

Os desvios do voto real de Trzaskowski relativamente ao potencial nas províncias ocidentais da Lubúsquia e da Baixa Silésia (+0,7% em ambas) e nas setentrionais Vármia-Masúria (+0,6%), Pomerânia (+0,5%) e Pomerânia Ocidental (+0,4%) explicar-se-ão por esse fator, a par com o voto em si de eleitores de Bosak.

O eleitorado-tipo das “duas Polónias”

Como se pode verificar, esta eleição mostra um país praticamente partido a meio entre as duas Polónias que referi acima e em artigo anterior.

Com os dados apresentados acima, podemos traçar o perfil tipo do eleitorado de cada um dos candidatos, que representam essas duas visões opostas do mesmo país.

Assim, o eleitor-tipo de Duda é, em geral, homem, idoso, pouco escolarizado e com rendimento inferior à média, residente nas áreas rurais e na parte oriental e centro-oriental do país.

Por seu turno, o de quem vota em Trzaskowski é mulher, jovem, com formação superior e com rendimento superior à média, residente nos principais centros urbanos ou no estrangeiro e na parte setentrional, ocidental e centro-ocidental do território nacional.

A participação eleitoral

Na 1ª volta, a participação eleitoral foi de 64,5%. Na ronda decisiva, aumentou 3,7%, atingindo os 68,3%, uma das maiores de sempre no país.

A afluência às urnas foi maior nas cidades que nas zonas rurais. Aliás, os dados oficiais mostram que, à medida que aumenta a dimensão dos lugares, cresce a participação eleitoral. Algo que também já tinha acontecido na 1ª volta e me levou a pensar que seria difícil ao candidato da oposição reverter a desvantagem com base nos abstencionistas da 1ª volta, pois o atual presidente teria uma reserva de eleitores potencialmente maior. A verdade é que, apesar de Trzaskowski ter ido buscar um pouco mais gente que o seu adversário, tal não chegou para inverter a potencial desvantagem com que partia para o 2º turno.

A participação voltou, assim, a ser maior nas províncias onde se situam os principais centros urbanos, em especial na capital, pelo que se manteve a ordem da 1ª volta entre as mais e menos participativas.

Assim, o valor mais alto ocorreu na Mazóvia (73,8%), que contém a capital, Varsóvia, onde atigiu os 77,4%. Seguiram-se a Pequena Polónia (70,4%), província cuja sede é Cracóvia; a Pomerânia (70,0%), cuja cidade mais importante é Gdansk; Łódź ( 69,7%) e a Grande Polónia (69,3%), que tem como cabeça Poznań, as únicas acima da média nacional.

Em contrapartida, voltou a ser mais baixa na província de Opole (59,9%), onde habita a minoria alemã, seguida da Varmínia-Masúria (62,1%), situada no Norte, apesar do crescimento registado, e da Podláquia (64,3%), as únicas abaixo dos 65%.

O maior aumento da afluência às urnas ocorreu na meridional Silésia (+5,6%), embora, ironicamente, não pareça ter alterado em nada o desfecho previsível da eleição na província. Seguiram-se as setentrionais Vármia-Masúria (+5,0%), a Pomerânia Ocidental (+4,7%), a Pomerânia (+4,4%), o que terá favorecido o candidato da PO.

Por seu turno, os mais baixos ocorreram na zona sueste do país, na Subcarpácia (+3,1%) e da Pequena Polónia (+3,2%), tal como a meridional Opole (+3,2%).

Entretanto, os votos brancos e nulos tiveram pouca expressão: 0,6% do total de boletins entrados nas urnas, contra 0,3% na 1ª volta.

Perspetivas futuras

Resta saber como evoluirá, a partir de agora, a vida política polaca.

O presidente reeleito convidou o seu opositor para um encontro no Palácio de Belvedere, a residência oficial do chefe de Estado, “para um aperto de mão”. O segudo afirmou que iria, mas que, primeiro, queria ver esclarecidas algumas irregularidades ocorridas no ato eleitoral, que se decidiu por uma diferença de pouco mais de 420 mil votos de entre os mais de 20 milhões de pessoas que votaram.

Para já, a candidatura de Trzaskowski e a PO apresentaram um protesto ao Supremo Tribunal, alegando que milhares de eleitores da diáspora foram impedidos de votar, por não terem recebido os envelopes dentro do prazo ou não lhes terem chegado à mão de todo. Há, ainda, alegações de irregularidades no voto por correspondência, cujo âmbito foi alargado devido à CoViD-19, como referi aqui. Mas tudo indica que não terá grande sucesso.

Entretanto, Duda deverá reconduzir o primeiro-ministro Mateusz Morawiecki, que, para além de ter gerido razoavelmente a crise pandémica, se envolveu a fundo na sua campanha, indo a todo o lado com promessas de investimentos, algo que mereceu fortes críticas da parte dos candidatos oposicionistas. Resta saber se o fundador e homem forte do PiS, Jarosław Kaczyński, e os seus aliados da coligação Direita Unida (ZP) estarão de acordo.

Para já, o gesto do presidente reeleito de convidar o seu principal adversário nas presidenciais (e, provavelmente, o principal candidato da oposição nas próximas legislativas), bem como o tom do discurso da sua filha aos apoiantes na noite eleitoral, apelando à conciliação, parecem revelar alguma moderação. Provavelmente, terá percebido que não pode ter contra si metade do eleitorado.

Por outro lado, há que atender à possibilidade de um eventual alastramento da pandemia nos tempos mais próximos e aos efeitos potencialmente disruptivos das suas consequências económicas e sociais, que poderão tornar o governo mais impopular.

O problema é que, aí, o PiS e seus aliados serão tentados a jogar a “cartada” dos costumes, adotando políticas reacionárias nessa área, em especial visando as comunidades LGBTQI e os direitos reprodutivos das mulheres, algo a que é necessário a Europa estar atenta.

Contudo, e correndo o risco de estar a ser demasiado otimista, a verdade é que, tendo contra si meio país e dependendo de independentes para ter maioria no Senado, dificilmente o PiS terá condições políticas para continuar com as suas políticas autoritárias e a tentativa de impor na Polónia um regime semelhante ao de Orbán na Hungria. Até porque a nação polaca tem uma sociedade civil forte, que não é fácil derrotar, como se tem visto ao longo da sua muito sofrida História. Mas, nunca fiando…

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
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