Entre os jogos do Hélder, a incontornável cachupa da Filó, as vendas de artesanato e as bancas de livros, centenas de militantes e simpatizantes do Bloco encontraram na tarde de sábado um espaço de descanso mas também de debate e intervenção política, na Associação de Moradores da Bouça. É a vez de o mote “Mudar de vida é uma festa” chegar ao Porto depois de já ter passado por Coimbra na pré-campanha. Música e dança, ao som de Farra Fanfarra
A coordenadora do Bloco de Esquerda esteve presente na festa-comício, onde aproveitou para lembrar que o trabalho é o principal organizador da sociedade. “Há duas perguntas que fazemos quando conhecemos alguém: a primeira é como te chamas e a segunda é o que fazes. E as pessoas respondem-nos com o seu trabalho. Isto faz-nos lembrar como o trabalho é central nas nossas vidas”, disse.
O trabalho que define a nossa história familiar, o nosso percurso, os nossos rendimentos, a nossa vida “foi um não-tema na campanha”. Isso significa que o Estado “escolhe não interferir” e prefere deixar essa tarefa para “a selva do mercado”, que nos últimos anos invisibilizou o trabalho e o tornou mais desregulado.
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Em Aldoar, Mariana ouve moradores que vivem sem água e eletricidade
“Há a lei que protege e a lei que oprime, a lei que protege e a lei que permite explorar. E nos últimos 30 anos as alterações às leis do trabalho e que a permitiram privatizar, foram alterações de liberdade para explorar e menos liberdade para quem vive no trabalho”, afirmou Mariana Mortágua.
Por detrás dessas alterações está também um jogo simbólico, em que nos deixam de chamar trabalhador para chamar “colaborador” ou “empreendedor”. E agora “dizem a quem não tem direitos que não é trabalhador, é empresário”.
Há milhares de trabalhadores e trabalhadoras que, nesse processo, foram perdendo salário, tiveram os salários congelados, estão mais desprotegidos, perderam dias de férias e proteções. “Aumentar os salários e respeitar quem trabalha é a solução para as pessoas do nosso país”, defendeu Mariana Mortágua.
Só que quem não vê o trabalho “não consegue ver as soluções para quem trabalha”. “Se o trabalho é o que nos define, quando não respeitam o trabalho estão a atacar-nos a nós. Nós temos mais em comum com outro trabalhador imigrante que vive do seu salário do que com um milionário que herdou toda a sua fortuna”, disse a coordenadora bloquista.
A dirigente bloquista referiu-se a uma proposta da Iniciativa Liberal que diz que para baixar os impostos aos mais ricos, teria de reduzir a despesa do Estado. Mariana Mortágua diz que o Bloco "fez as contas e a redução que a Iniciativa Liberal quer fazer implicaria reduzir os funcionários administrativos do Estado em 102 mil pessoas. Mas isso não funciona porque só existem 90 mil trabalhadores administrativos do Estado”.
A coordenadora do Bloco de Esquerda lembrou as pessoas com quem tem contactado desde o início da campanha, desde administradores hospitalares, a funcionários de escola, aos vidreiros da Marinha Grande ou a Esmeralda Mateus, que trabalhou uma vida inteira e dirige a Associação de Moradores do Bairro de Aldoar.
“Todas estas vidas de quem trabalha têm a marca de um país desigual, a marca da desigualdade, de quem trabalha com o esforço do seu salário e sofre na pele um sistema que produz tantos pobres para produzir uns poucos ricos”, disse a dirigente bloquista. “Mas há um dia em que quem trabalha pode ir votar, e o seu voto vale o mesmo que o voto de qualquer outra pessoa”, disse. e concluiu dirigindo-se aos "invisíveis", dizendo que o Bloco quer “acabar com a exploração”.
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“Soberania digital e transparência algorítmica”: Mariana apresenta propostas contra tecno-oligarcas
“A empatia contra o ódio”
Marisa Matias, cabeça-de-lista ao círculo eleitoral do Porto, começou a sua intervenção por lembrar o genocídio na Palestina por parte do Estado israelita e a cumplicidade de vários Estados, entre os quais Portugal. “É sim um genocídio e a maior parte do mundo está de acordo com isso”, defendeu a deputada do Bloco de Esquerda, recebida com aplausos.
“Agora não dizem rigorosamente nada sobre os camiões de ajuda que estão à porta de Gaza sem poder entrar há meses”, disse, criticando as vozes que se aliam ao massacre do povo palestiniano. “Sim, Palestina vencerá”.
Seguiu falando sobre a campanha que o Bloco de Esquerda no distrito, entre os trabalhadores dos bares da CP, cujo Acordo de Empresa não está a ser cumprido pela ITAU, e os músicos da Orquestra do Norte com meses de salário em atraso. “Estivemos também com os imigrantes em frente à AIMA, com aqueles que fazem o país funcionar” mas que não conseguem regularizar-se por entraves burocráticos. “É humilhante”, disse. O Bloco tem feito a campanha no bairro de Aldoar, com os trabalhadores da saúde, com quem tem problemas de habitação e dificuldades em pagar a sua renda.
“Em Vila do Conde, uma conversa transformou-se num grito pelo direito à habitação. Desde o senhor que foi obrigado a deixar a casa onde vivia há muitos anos e encontrou um T2 por mil euros que mal consegue condições. E disse-nos: «não devia ter de ter esta conversa»”, contou Marisa Matias.
A candidata do Bloco de Esquerda questionou também porque é que se levantam tantas vozes contra as propostas que o Bloco de Esquerda apresenta para resolver os problemas do povo português, e falou sobre uma onda de ódio que “temos de tentar travar” com uma política de tolerância para a maioria.
E essa tolerância passa por reconhecer que “estas pessoas pagam impostos como nós e trabalham como nós”. “A nossa vida não está mais difícil por causa das pessoas trans, das pessoas com deficiência, das pessoas que têm o cabelo de uma certa cor, nem porque há pessoas que toda a vida foram discriminadas e começam a aceder aos seus direitos”, explicou Marisa Matias. “A nossa vida está mais difícil porque essa dificuldade crescente permite a poucos acumular mais dinheiro, e é por isso que precisamos mesmo de mudar de vida”.
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Rosas e Mariana ouviram vidreiros da Marinha Grande sobre desgaste do trabalho por turnos
A resposta contra essa ganância e acumulação, e contra o ódio de quem vira quem trabalha contra quem trabalha, “é a empatia” para com toda a diferença. “Façamos o que temos a fazer com muita força, mas também com toda a ternura que temos, cada uma e cada um de nós”, concluiu Marisa Matias.
Uma cultura ativa num “momento diferente”
A festa começou 40 minutos antes, com um debate sobre cultura protagonizado por Catarina Martins, Hugo Cruz e Fernando José Pereira. “Se há momento em que é preciso falar de cultura e de arte, é este”, disse a ex-coordenadora do Bloco de Esquerda, dando mote à conversa e lembrando que o Bloco de Esquerda sempre se bateu por uma perceção da cultura enquanto serviço público e reforçou que é preciso mais financiamento para uma área essencial para a sociedade.
“Mas estamos a viver num momento diferente de qualquer outra campanha” disse Catarina Martins, que sublinhou as ameaças da extrema-direita mas também do genocídio na Palestina. A partir desse paradigma, a cultura torna-se uma forma de intervir na sociedade e de imaginar outro futuro.
Hugo Cruz tem trabalhado sobre arte comunitária e participou no debate para partilhar a sua experiência. Na sua ótica, a arte não pode ser vista como uma oferta e, do ponto de vista nacional, defendeu que “temos discutido pouco a cultura, porque têm havido outras prioridades”.
Um dos grandes pontos do debate foi a forma como os trabalhadores da cultura são profissionalizados e como se encaixam num contexto económico mais largo em Portugal. “Um ator ou artista que se forme em Lisboa, no Porto, em Évora ou Coimbra, volta para a sua aldeia ou cidade porque não tem condições de viver nestas cidades, e isto é uma novidade”, admitiu. Em causa está o aumento do custo de vida, a crise de habitação e outros fatores que dificultam a vida para os portugueses em particular e o setor da cultura em Portugal.
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Na greve da Sumol+Compal, Mariana defendeu valorização do trabalho por turnos
Já sobre a vertente política da cultura e a sua área de especialidade, a arte comunitária, Hugo Cruz defendeu que essa designação não devia, no melhor dos cenários, existir. Defendeu isso no sentido de uma integração da vertente comunitária numa conceção mais lata da cultura.
O artista Fernando José Pereira começou por falar de algo “verdadeiramente triste”. “A semana passada recebi um e-mail de um contacto meu em Istambul, que me tinha introduzido a um artista de Gaza”, explicou. “Praticamente desde fevereiro que tinha deixado de ter contacto com o artista, mas no e-mail torna-se claro que ao artista com quem ia trabalhar deve ter acontecido 'o pior'”.
Sob as explosões das bombas e dos mísseis em Gaza, o debate sobre cultura e arte é essa “tristeza” de que falava Fernando José Pereira. Mas em Portugal, “é possível fazer trabalho e penetrar os espaços institucionais falando destes assuntos sem ser de forma panfletária”, disse o artista. “Podemos falar com a linguagem da arte e não ter de ceder a agendas para falar”.
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Mariana visita o bairro do Zambujal e denuncia zonas “que o Estado abandona”
No caso em particular da sua obra, Fernando nunca concorreu a apoios públicos para a produção, porque quer “ser independente”, garantiu o próprio. E essa independência passa pela denúncia do genocídio em curso na Palestina.
Concluindo, e pegando no mote da Palestina, Catarina Martins lembrou que Israel bombardeou um barco com ajuda humanitária ao largo de Málaga e que “a União Europeia não respondeu” e mantém o acordo de cooperação. A eurodeputada do Bloco de Esquerda lembrou que Shadh Wadi, poeta palestiniana e candidata do Bloco de Esquerda ao círculo eleitoral de Lisboa coloca a vontade do povo palestiniano “de forma bonita” quando diz que “o povo palestiniano gosta de viver”.
Depois da discussão política, passou-se à oficina coletiva "Tocar juntas! A música tradicional, um cantar coletivo", que desafiou toda a gente presente a usar a voz para, em conjunto, criar um momento artístico. Resguardado pelas nuvens, o sol foi espreitando e permitiu que as centenas de pessoas pudessem aproveitar o espaço para comer, beber, conviver e cantar até ao início da noite.