França

Os três campos foram a jogo no grande debate televisivo

26 de junho 2024 - 13:02

Uma extrema-direita que “promete a lua” mas fará os mais pobres pagar as benesses dos mais ricos e estigmatiza imigrantes, um macronismo marcado pela reforma das pensões, a crise do custo de vida e o défice orçamental, e uma esquerda apostada na justiça social. Os três projetos de sociedade francesa enfrentaram-se nos pequenos ecrãs na terça à noite durante duas horas.

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Debate na TF1 entre líderes partidários.
Debate na TF1 entre líderes partidários.

5,5 milhões de pessoas assistiram esta terça-feira ao primeiro debate televisivo entre os candidatos dos três principais blocos concorrentes às eleições legislativas francesas que terão a sua primeira volta no próximo domingo.

“Tenso” foi a caracterização quase consensual nos principais órgãos de comunicação social para a troca de palavras entre o primeiro-ministro Gabriel Attal, o eurodeputado e presidente da União Nacional, Jordan Bardella, e Manuel Bompard, coordenador da França Insubmissa, em representação da Nova Frente Popular, a coligação de esquerda e ecologistas, após o debate que ocupou na TF1 quase duas horas.

A acompanhar as palavras, logo ao início, foi pedido a cada um que mostrasse uma imagem representativa do seu projeto político para o país. O atual chefe do Governo mostrou a foto de uma sala de aula. O candidato de esquerda uma imagem de um centro de emprego para falar numa França “onde as pessoas idosas são obrigadas a voltar ao centro de emprego para poderem viver dignamente”. E o da extrema-direita uma conta de eletricidade, tentando minimizar o facto de ter deixado de propor a descida do IVA em todos os produtos essenciais, agora que “descobriu” que o Estado estaria numa situação de “quase falência” e puxando pela promessa que mantém de corte dos preços da eletricidade que vários especialistas dizem impraticável e se baseia em culpar Bruxelas pelas tarifas em vigor. Bardella foi assim questionado sobre o facto de a legislação europeia não permitir o corte de IVA sobre combustíveis fósseis e energia que o partido defende, limitando-se a retorquir que é “uma opção tributária que assumimos”, vincando ainda querer baixar a contribuição francesa para o orçamento da União Europeia, sem explicar como isso seria feito.

Gabriel Attal prometeu também uma baixa, mas menor, nos preços da eletricidade, 15% “a partir do próximo inverno”, altura em que o candidato da esquerda lhe recordou que foi ele quem aumentou em 10% estes preços ainda há alguns meses.

Manuel Bompard defendeu o congelamento do preço de um conjunto de bens de primeira necessidade e um aumento do salário mínimo para 1.600 euros líquidos, lembrando que “os franceses sofreram a maior queda do poder de compra em 40 anos”, a revogação da reforma das pensões, com a possibilidade de baixar a idade de reforma para os 60 anos e os 40 anos de descontos a partir de 2027.

As dúvidas sobre o “populismo” do programa económico da extrema-direita, a que mesmo grande parte dos especialistas mainstream nos meios de comunicação têm vindo a dar eco, também marcaram o debate. Acusado de “prometer a lua”, Bardella tentou contorná-los à esquerda, tentando lançar o papão do esquerdismo que por exemplo iria provocar “escassez da oferta imobiliária” se fosse adiante a proposta de congelamento do valor das rendas, e à direita procurando atacar a credibilidade da gestão do atual Governo: “dão lições de seriedade orçamental enquanto têm hoje a dívida mais importante em valor da zona euro”. Aproveitou ainda para sublinhar a proposta de acabar com o imposto de rendimento para menores de 30 anos (independentemente de quanto ganhem) e para esclarecer o que defende sobre a reforma das pensões, que antes era a revogação e depois passou a ser uma revisão “para o outono”, dependendo da concertação social. Na versão deste debate passou a ser avançar para uma reforma “à volta dos 62 anos”. 

Querendo insistir na figura do político realista contra “os extremos”, que é a sua estratégia de campanha, Attal questionou: “quem paga, no seu modelo, se não se pagam impostos até aos 30 anos e deixamos de trabalhar aos 60?”, sugerindo que “o que vai dar com uma mão vai tirar com outra”. Por seu lado, o líder dos insubmissos contabilizou que o programa da extrema-direita levaria a “uma captação de recursos e meios dos 30% mais pobres para os entregar aos 10% mais ricos”. Ao invés, a proposta da Nova Frente Popular é que 92% dos franceses paguem “menos ou tantos impostos como hoje” e os 8% mais ricos, em particular os 0,1% mais ricos, paguem “proporcionalmente mais do que as classes médias”.

A imigração também não podia deixar de ser tema quente. A extrema-direita reiterou velhas ideias como a retirada dos cuidados de saúde aos migrantes que não estejam regularizados e a eliminação do tradicional direito de solo, ou seja o direito à nacionalidade para quem nasça no país. Para Bardella, este “não tem sentido num mundo com 8.000 milhões de habitantes”, agitando o fantasma da “bomba demográfica” que seria África e de que “com Mélenchon primeiro-ministro vão-se abrir as comportas”.

Bompard contrapôs que “há 19 milhões de franceses que têm um antepassado estrangeiro, isso é um em cada quatro franceses”, incluindo o próprio líder da extrema-direita ao qual se dirigiu: “quando os seus antepassados chegaram a França, creio que os seus predecessores políticos diziam precisamente o mesmo que você diz hoje que os italianos ou os espanhóis não podiam integrar-se em França”. Lembrou ainda que “um trabalhador em dez” no país é imigrante, o que constitui uma contribuição significativa as contas do país: “construímos a França graças às vagas de imigração”.

O líder da extrema-direita voltou a tentar jogar com o medo, desta vez do putinismo apesar dos antecedentes do seu partido, na defesa da proposta de proibição das pessoas com dupla nacionalidade em vários empregos da Função Pública: “quer que tenhamos um franco-russo à frente de uma central nuclear?”, questionou. Attal trazia a resposta preparada e disparou ao caso da conselheira franco-russa da União Nacional na Europa, Tamara Volokhova, que nas suas funções tem acesso a informação sensível e contabilizando: “há 3,5 milhões de estigmatizados pela vossa proposta”.

E o tema do ensino foi outro pretexto para a extrema-direita voltar à estigmatização. A um primeiro-ministro que foi o ministro da Educação anterior, quer continuar as reformas conservadoras que estavam em marcha antes da queda desse governo e que tem como prioridade a “autoridade na escola”, Bardella fala num “entrismo islamista” na escola e que seria por causa dele que o Governo apela a um “big bang de autoridade”. Manuel Bompard contrapôs que “o problema da escola não é a abaya”, defendendo maior investimento no setor da educação que garanta uma “gratuitidade real da escola”.