“Jamais houve a ideia de manipular a Global Media”, dizia Marco Galinha ao Expresso em agosto de 2024. E no entanto, em janeiro do mesmo ano, no meio da crise do Global Media Group (GMG), o Conselho de Redação do Jornal de Notícias enviava à Entidade Reguladora da Comunicação (ERC) uma exposição de situações que configuravam “ingerência editorial”.
“Além da desvalorização do Jornal de Notícias, podem estar em causa questões de ingerência editorial, uma mudança da matriz editorial, a preservação do arquivo e até a sobrevivência de um jornal diferenciado e diferenciador”, declarava então o Conselho de Redação.
Em Maio, a ERC emitiu uma deliberação onde garantiu que os factos apurados em duas situações distintas – não no Jornal de Notícias, mas na TSF – eram suscetíveis de configurar “tentativa de interferência ilegítima da administração do GMG na liberdade e autonomia editorial da respetiva direção de informação”. Para além disso, a ERC verificou também que no caso da destituição de Domingos de Andrade da TSF, o Conselho de Redação não foi devidamente consultado.
O caso concreto da Global Media veio expor na comunicação social os problemas do jornalismo precário, mas colocou também a tónica na forma como os grupos financeiros que detêm os meios de comunicação social em Portugal operam. Entre os detentores dos media portugueses estão figuras como Cristiano Ronaldo, mas também Mário Ferreira, CEO da DouroAzul. Passam mais despercebidos os donos da Lusiaves, ou o grupo por detrás da Altri e da Greenvolt: os interesses financeiros por detrás do jornalismo português são vastos e diferenciados. A alguns grupos, como ao Renascença, a ligação é óbvia: o grupo é controlado pelas instituições da Igreja Católica em Portugal. Noutros casos, como na Global Media, há um emaranhado de entidades que representam uma série de interesses escondidos. O objetivo desta reportagem é trazê-los à superfície.
De Cofina a Medialivre, onde mora a indústria do eucalipto
O grupo Cofina, que detinha o Correio da Manhã, o Jornal de Negócios, o Record, a Sábado e outros projetos impressos, mas também a CMTV (a que se juntou agora a Now News), mudou de mãos e desintegrou-se depois de ter sido comprada por um grupo de empresários no final de 2023. Mas esse grupo de empresários, que criou a marca Medialivre, não é assim tão diferente daquele que já detinha a Cofina.
Estas marcas estão ligadas a um grupo de investidores que têm um longo percurso conjunto. Para além da marca CR7, detida por Cristiano Ronaldo, e do grupo Sorolla, que representa os interesses de diversos indivíduos particulares, há três indivíduos por detrás da Medialivre. Paulo Jorge dos Santos Fernandes, João Manuel Matos Borges de Oliveira e Domingos José Vieira de Matos detêm 48% da Expressão Livre através de diferentes entidades. A Expressão Livre, por sua vez, detém a Medialivre. Os três detinham uma parte controladora da Cofina, mas o seu historial conjunto é ainda mais profundo.
Os três empresários têm interesses conjuntos na Cofina desde 1990, mas também numa série de outras empresas na área da indústria. É o caso da Cortal, da Atlantis, da Crisal e diversos grupos imobiliários, desde a Préstimo à Jardins de França – Empreendimentos Imobiliários.
Os três fazem parte do Conselho de Administração da Altri, dois deles enquanto vice-presidentes. A empresa criada em 2005, “através de um spin-off dos ativos industriais da Cofina” investiu fortemente na indústria da biomassa florestal ao comprar 50% da EDP Bioelétrica. Em 2008, há outro “spin-off”: é criada a Ramada, uma outra empresa detida pelos mesmos mas com o foco na indústria do aço. A Altri ficou então dedicada à “atividade florestal” e à produção de pasta de papel, mas foi acumulando mais interesses na produção de energia, sobretudo em biomassa, levando a um terceiro “spin-off”, a criação da Greenvolt, em 2021.
Os mesmos investidores passaram a deter interesses na Greenvolt, na Ramada e na Altri, participando nos órgãos administrativos das três empresas. Têm interesses económicos em áreas coesas e articuladas: a produção de energia renovável e biomassa, a gestão florestal e indústria de celulose, e a indústria do aço. A Altri é uma das principais responsáveis pelo eucaliptal em Portugal. A empresa detém 90,4 mil hectares de floresta no país, dos quais 80% são eucalipto.
Ao mesmo tempo que mais de trinta incêndios, sobretudo em área de eucaliptal, assolavam o país na semana passada e causavam vários mortos e feridos, os principais detentores da Medialivre testemunhavam o aumento das audiências dos seus órgãos de comunicação social, sem assumirem responsabilidade pela sua exploração intensiva de eucalipto.
Quem é dono da Mediacapital?
A Mediacapital detém a TVI e a CNN Portugal, dois dos principais canais de televisão portugueses, bem como um conjunto de estações de rádio das quais se destacam a Comercial e a Cidade FM. É também este grupo que representa o conjunto mais diversificado de interesses económicos em Portugal.
A principal detentora da Mediacapital, com 37% da ações do grupo, é a Pluris Investments, uma entidade detida por Mário Ferreira, CEO da DouroAzul e da Mystic Invest. O mesmo Mário Ferreira investigado pela Procuradoria Europeia por suspeitas na atribuição de fundos europeus, branqueamento de capitais e fraude fiscal no negócio do navio “Atlântida”. E também o mesmo Mário Ferreira que Ana Gomes denunciou ter “capacidade de influência ao mais alto nível político” com o anterior Executivo, nomeadamente na sua relação com Lacerda Machado, Vítor Escária e Manuel Alves Monteiro. Essa proximidade suscitou até dúvidas na atribuição de fundos do Banco de Fomento a Mário Ferreira, que acabou por prescindir desse financiamento devido à pressão pública.
E se é verdade que Mário Ferreira, que tem investimentos na área do turismo, é o mais visível dos acionistas da Mediacapital, não quer dizer que os interesses financeiros dentro do grupo terminem por aí.
A sua segunda maior detentora é a TRIUN, que pertence à família Mota Gaspar, dona da Lusiaves. A Lusiaves é um dos maiores grupos portugueses no setor agroalimentar, e Avelino Gaspar, o CEO do Grupo Lusiaves, foi também acusado em 2020 pelo crime de branqueamento de capitais, devido ao plano delineado para transferir e desmantelar o património da Avilafões para uma das sociedades da Lusiaves com o objetivo de provocar a insolvência e prejudicar os credores. Depois, em 2009, branqueou o capital de um milhão de euros numa offshore administrada pelo próprio empresário.
Em 2024, Avelino Gaspar foi absolvido pelo Tribunal de Viseu. A presidente do coletivo de juízes confirmou que foi provada “a materialidade dos factos”, mas que o que estava em causa na absolvição era “a prova da intencionalidade das ações”. Por outras palavras, o Ministério Público conseguiu provar que todo o processo de desmantelamento realmente aconteceu, apenas não conseguiu demonstrar que houve uma conspiração para desmantelar o património da Avilafões.
Entre outros investidores mais pequenos através do grupo Biz Partners estão a Hiper Go; Nuno da Silva que é dono da Benecar, empresa de compra, venda e reparação de veículos; João de Barros, que através da Capitais Privados detém empresas de serviços de limpeza e a imobiliária Praça Foz; a Publithings, ligada ao marketing e à publicidade, mas cujo beneficiário, José Santana, é também um dos donos do Grupo Praia; e o artista Tony Carreira.
Por outro lado, a Zenythodyssey, que detém 10% da Mediacapital, é composta por várias entidades imobiliárias, a JEF Imóveis, a Alfredo & Carlos Imobiliária e a Zafgest, mas também por duas entidades da empresa têxtil, a Polopique e a Mundifios.
Também detentora da Mediacapital é a família Serrenho, através da CIN. A família que fez a sua fortuna na indústria das tintas esteve ligada a João Rendeiro, ao participar como acionista no Banco Privado Português, que faliu em 2008 devido à má gestão e ao incumprimento das regras do Banco de Portugal e da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários.
O grupo Impresa e a família Pinto Balsemão
Outro acionista do Banco Privado Português de João Rendeiro foi Francisco Pinto Balsemão, que chegou a presidir ao conselho consultivo do banco. O ex-primeiro-ministro e “o maior empresário dos media em Portugal” (segundo o seu próprio jornal), é dono do grupo Impresa, que detém o Expresso, a Blitz e outras publicações especializadas, mas também a SIC e todos os canais associados a esta, incluindo a SIC Notícias.
Para além de ter sido dirigente e militante do Partido Social Democrata e primeiro-ministro por esse mesmo partido, Pinto Balsemão tem uma longa e notória carreira a defender os interesses privados e dos empresários portugueses. Desde logo como membro do Conselho Geral da COTEC Portugal, uma associação privada sem fins lucrativos que representa os empresários junto do Estado e que quando foi fundada recebeu a adesão de vários empresas que, em valor acumulado, representavam cerca de 18% do PIB português.
Mas também exerceu esses mesmos interesses económicos enquanto membro do Conselho de Administração da Celbi, uma empresa que remonta à ditadura do Estado Novo e que trabalha na área da produção de papel e celulose, detendo 83.750 hectares de terrenos florestais, dos quais 66.800 mil são eucalipto, a mesma cultura que agora arde por todo o país.
Pinto Balsemão foi ainda presidente não executivo na seguradora Allianz Portugal, que apoia os interesses extrativistas da Galp, da EDP e da RWE, e também presidente não executivo da Nec Portugal empresa na área das infraestruturas para tecnologias de informação e comunicação.
O grupo Impresa entrou no capital da Lusa em 2000 porque tinha a garantia por parte do então ministro Luís Marques Mendes de que esta seria privatizada. A “garantia” levantou várias questões sobre conflito de interesses e informação privilegiada entre um governo do Partido Social Democrata e um dos seus fundadores.
Observador, um buraco negro de dinheiro
A Observador On Time, que detém o portal online Observador e a Rádio Observador teve resultados líquidos de -€1.258.413 em 2023. Os anos anteriores não foram muito diferentes. Em 2022, a entidade registou resultados líquidos de -€877 milhares, e no ano anterior de -€464 milhares. Em 2019, o seu resultado líquido batia o recorde negativo de -€1.336 milhares.
Os dados mais antigos disponíveis no portal de transparência da Entidade Reguladora para a Comunicação Social são de 2017 e apontam um resultado líquido de -€954 milhares. A média desses resultados nos últimos sete anos é de -€920 milhares.
O Observador foi fundado em 2014, e os resultados líquidos disponíveis, que dão conta da maior parte da sua existência, indicam que a empresa não só não dá lucro, como cria uma despesa bastante elevada. Segundo as regras do mercado, a entidade que detém estes órgãos de comunicação social já teria ido à falência há muito tempo, mas há quem continue a colocar lá dinheiro.
A Observador On Time é detida maioritariamente (54%) pela Amaral y Hyjas Holdings, uma entidade de Luís Amaral, que também é principal acionista da Eurocash, a maior distribuidora grossista de produtos de grande consumo na Polónia. Amaral está em número 35 na lista dos “mais poderosos de 2024” do Jornal de Negócios
Mas a entidade tem também posições minoritárias da família Champalimaud, de Pedro Almeida, investidor no turismo da Comporta e na indústria fóssil, e da Atrium Investimentos, uma empresa de gestão de fundos e investimento composta por quadros da elite financeira portuguesa e gerida por João Fonseca, ex-gestor do Deutsche Bank.
Para além dos atuais acionistas, o Observador foi fundado com capitais de outros indivíduos, entre os quais se contam António Pinto Leite, presidente da Associação Cristã de Empresários e Gestores, António Viana Batista, da administração da Jerónimo Martins, Carlos Moreira da Silva, administrador da SONAE e Filipe Simões de Almeida, que foi administrador da Deloitte em Portugal. Nota-se também à altura a presença de Alexandre Relvas, Filipe de Botton, António Carrapatoso e Rui Ramos, militantes do PSD, nessa lista.
Em 2015, à porta das eleições legislativas que dariam a vitória às forças de esquerda, o Observador, enquanto órgão de comunicação social, projetava na sociedade e fazia campanha pela revisão da Constituição sob o pretexto dos 40 anos da Assembleia Constituinte. Afirmava-se então não só como um orgão de comunicação social, mas também como um projeto ideológico.
Ao império Sonae, soma-se o Público
O jornal Público é detido a 90% por entidades do universo da Sonae. Esse império é composto pelas Marcas Continente, que inclui todos os supermercados Continente, mas também a Go Natural, a Note, a Bagga, a Wells e a Meo Super. Para além das Marcas Continente, a Sonae detém uma série de investimentos noutras áreas da sociedade portuguesa.
Ainda no retalho, a Sonae é também dona da Worten e da Worten Mobile. Mas detém também a imobiliária Sierra, bem como 80% do Musti Group, o “principal especialista em cuidados para animais de estimação na Finlândia, Suécia e Noruega”. Para além disso tem uma participação de 90% na Brightpixel, na área de gestão de investimentos, detém a 100% a MO, Zippy, Losan e Salsa, na produção e retalho têxtil, e também a Sparkfood, que desenvolve “soluções de comuda sustentável”. Detém 50% da Universo, que facilita serviços financeiros e de transações monetárias.
Nas Marcas Continente, a Sonae foi acusada de subida de preços artificial a nível da distribuição durante a crise de inflação em 2023. Mas de maior interesse é o facto de ter a maior participação na NOS. Uma participação que partilhou até 2022 com Isabel dos Santos, ano em que foram divulgados os Luanda Leaks, que tornaram insuportável a manutenção da parceria.
A Sonae, que foi conquistada à família Pinto Magalhães por Belmiro de Azevedo, foi sendo criada entre acordos e privatizações liderados por este empresário. Em 1995, Belmiro aproveita a primeira fase de privatização do BP para vender 6,5% do banco à própria Sonae. Este mesmo empresário contornava a lei ao comprar 10% do seu próprio grupo e distribuir 15% gratuitamente entre as suas empresas, estando o limite legal estabelecido nos 10%. Segundo o próprio, o processo judicial foi “um problema menor – um bom gestor deve fazer uma interpretação ousada da lei”.
Foi, portanto, sobre essa estratégia que a Sonae foi construida para ser o império que hoje é, e entre esse império de interesses, do retalho à gestão de investimentos, soma-se o Público, um dos jornais diários de referência em Portugal, mas que apresentou em 2023 resultado líquidos de -€4.485.834 e que, como o Observador, apresenta uma trajetória constante de prejuízos desde 2017.
Global Media e Notícias Ilimitadas
A Global Media, que entrou em crise no final de 2023, era composta maioritariamente por capital do empresário Marco Galinha. Através do Grupo BEL, o empresário detinha duas outras entidades, que conjuntamente com esse grupo detinham a Páginas Civilizadas, que por sua vez detinha 41% da Global Media. Só que as Páginas Civilizadas também controlavam a Grandes Notícias, que detinha 8,7% da Global Media. Portanto Marco Galinha efetivamente controlava 49,7% do grupo. Esse empresário, como é sabido, tem ligações ao oligarca russo Markos Leivikov.
Os outros 40% estão divididos entre a KNJ Global, detida pelos empresários macaenses Kevin Ho e João Siu, que investem em imobiliário em Portugal, e entre José Pedro Carvalho Reis Soeiro, empresário que foi presidente da Global Media.
A crise que a Global Media atravessou, e que já foi referida, começou com o anúncio da rescisão de até 200 trabalhadores e de uma reestruturação interna, que levou às demissões das direções da TSF, d’O Jogo, do Dinheiro Vivo e do Jornal de Notícias. Durante meses, vários jornalistas ficaram sem receber ordenados e sem saber como pagar as contas. O Sindicato do Jornalistas fez uma participação à Procuradoria-Geral da República em que acusava um cenário de “burlas”, “gestão danosa” e “procedimentos à margem da lei”. Mesmo a Comissão Executiva, liderada à altura por José Paulo Fafe, acusou Marco Galinha de protagonizar situações “ética e moralmente condenáveis”.
A 19 de Janeiro, Garcia Pereira denunciava a existência de transferências feitas em dezembro no total de €150 mil para empresas e familiares de alguns dos administradores e ex-administradores do Global Media Group, mas também de novas transferências feitas já em janeiro, em plena crise.
Enfrentando a crise, a Global Media vendeu o Jornal de Notícias, O Jogo e a TSF à Notícias Ilimitadas, um novo grupo com participação de 30% da Parsoc, dona das distribuidoras EST e Inqueta Conquista, e 10% da Ilíria, grupo especializado em serviços de consultoria e gestão de estabelecimentos comerciais controlado por dois empresários, Jorge Ribeiro e Cralos da Farinha e também com uma participação da Mesosystem, liderada por Ana Maria Alves Casas, gestora com 20 anos de trabalho na indústria farmacêutica e cosmética.