Morreu este sábado aos 90 anos o arquiteto e urbanista Nuno Portas.
Nuno Rodrigo Martins Portas nasceu em Vila Viçosa em 1934. Formou-me em Arquitetura em 1959 em Belas Artes do Porto. Tinha feito o seu percurso de estudos na Faculdade de Belas Artes de Lisboa mas aí a monografia de licenciatura foi recusada por ser considerada “demasiada teórica”.
Contudo, dois anos antes já trabalhava com o arquiteto Nuno Teotónio Pereira com o qual manteve uma colaboração estreita durante mais de 20 anos.
Mais ao menos ao mesmo tempo, começou a colaborar com a revista Arquitectura da qual chegou a ser diretor. Um dos textos aí escritos ganhou o Prémio Gulbenkian de Crítica de Arte em 1963. Para além de múltiplos textos em revistas da sua especialidade, Nuno Portas também se distinguiu enquanto crítico de cinema, tendo sido cineclubista.
Entre 1962 e 1974 foi investigador no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, coordenando o Núcleo de Arquitetura, Habitação e Urbanismo.
Imediatamente a seguir ao 25 de Abril de 1974, participou nos três primeiros Governos Provisórios enquanto secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, apoiando o cooperativismo no setor da Habitação, e criando o Serviço de Apoio Ambulatório Local, projeto de referência internacional ao nível participativo cujo objetivo era responder às necessidades urgentes de habitação então existentes e respondeu a carências habitacionais de norte a sul do país.
É considerado também a pessoa que lançou os fundamentos dos Planos Diretores Municipais.
Muito mais tarde, em 1990, volta a exercer funções políticas quando se torna vereador do urbanismo na Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.
Foi professor, primeiro na Escola de Belas Artes de Lisboa, entre 1965 e 1971, depois, em 1983, em Belas Artes do Porto e será ainda fundador da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. No campo do ensino, fez ainda passagens internacionais por instituições como a Escola Técnica de Arquitetura de Barcelona, o Instituto de Urbanismo de Paris, o Politécnico de Milão, a Universidade de Ferrara, em Itália, e a Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Brasil.
O seu trabalho está espalhado pelo país. A obra da Igreja do Coração de Jesus, em Lisboa, feita em conjunto como Nuno Teotónio Pereira, valeu-lhe o Prémio Valmor. Para além disso, coordenou a equipa responsável pela expansão do campus da Universidade de Aveiro, foi consultor dos planos de ordenamento dos Municípios do Vale do Ave, responsável pelo primeiro plano geral da Expo 98 e dos termos de referência para a reabilitação do bairro de Chelas e consultor da reabilitação do centro histórico de Guimarães.
Fora de Portugal, coordenou o Planeamento Intermunicipal de Madrid (1980-1983), foi consultor do Plano Estratégico Metropolitano de Barcelona e do Plano de Ordenamento de Santiago de Compostela, criador, com Oriol Bohigas, do Plano de Frente de Mar e Estação das Barcas (1997-2000) e do Plano de Recuperação da Zona Central (1995-2000) do Rio de Janeiro e contribuiu para a legislação urbanística de Cabo Verde. Foi ainda consultor de urbanismo nas Nações Unidas e União Europeia.
Foi ainda autor de programas de televisão, nomeadamente uma série com o título “À Volta da Cidade”, transmitida entre 1978 e 1979.
Desde sempre o direito à cidade e à habitação fez parte das suas preocupações centrais. Ao longo de décadas, foi uma figura central da arquitetura e do urbanismo em Portugal, áreas em que deixou marcas profundas, acreditando deverem estar ligadas às necessidades reais das comunidades e ao combate às desigualdades sociais.
Era pai do falecido dirigente do Bloco de Esquerda, Miguel Portas, do ex-líder do CDS-PP Paulo Portas, e da jornalista e empresária Catarina Portas.
Catarina e Paulo Portas informaram entretanto que a cerimónia de despedida será feita esta segunda-feira no auditório da igreja do Sagrado Coração de Jesus em Lisboa, que recordam ter sido co-desenhada por ele, entre as 18h30 e as 22h, e que na terça-feira "será rezada uma missa pelas 12h00 também na igreja e depois seguiremos para Vila Viçosa, lugar que tanto amou, onde o nosso Pai será enterrado, acompanhado apenas pela família mais próxima".
A todos os familiares e amigos de Nuno Portas, a direção do Bloco de Esquerda e a redação do Esquerda.net transmitem as suas sentidas condolências.