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Nuno Teotónio Pereira (1922-2016)

Morreu Nuno Teotónio Pereira, revolucionário, destacado militante antifascista e figura fundamental da arquitetura portuguesa, do urbanismo e da habitação. Trabalhou ao longo de 60 anos e faria 94 no próximo dia 30.
Foto de António Cotrim/Lusa

O arquiteto Nuno Teotónio Pereira, nasceu em Lisboa, onde se formou em arquitetura pela Escola de Belas Artes de Lisboa, com dezoito valores. Foi um defensor inabalável dos direitos cívicos e políticos, opondo-se ferozmente à ditadura, razão pela qual foi preso diversas vezes e torturado pela PIDE. No dia 26 de abril de 1974, foi um dos presos políticos libertados de Caxias, onde estava preso desde o final de 1973.

Antes da revolução, pertenceu a movimentos de católicos de esquerda, criou movimentos contra a guerra colonial, tendo sido um dos organizadores da ocupação da Capela do Rato. Fez boletins de solidariedade com os presos políticos e fundou cooperativas, numa atividade tão vasta quanto coerente. Nos anos seguintes à revolução foi fundador e militante do MES (Movimento de Esquerda Socialista). Quando este se extinguiu, manteve-se ligado à esquerda e participou na fundação do Bloco, tendo-se envolvido nas suas primeiras campanhas eleitorais. Em 1999, partilhou o palco com Maria de Lurdes Pintassilgo, num comício do Bloco no Pavilhão dos Desportos.

Profissionalmente, entre as suas obras mais conceituadas, distinguem-se o edifício de Habitação Social para Olivais Norte, nº55 a 55A da Rua General Silva Freire, em coautoria com Nuno Portas e António Pinto de Freitas (que recebeu o Prémio Valmor – atribuído ao melhor projecto construído em Lisboa – em 1967); o edifício “Franjinhas”, prédio de escritórios na Rua Braancamp n.º 9, em Lisboa, com João Baula Reis (Prémio Valmor em 1971); a Igreja do Coração de Jesus, em Lisboa, com Nuno Portas (Prémio Valmor em 1975); o Bloco das Águas Livres, em Lisboa, com Bartolomeu Costa Cabral; ou a Igreja Nova da Almada (“Igreja de Nossa Senhora da Assunção”). A Igreja de Penamacor foi o seu primeiro projecto, construído quando Nuno Teotónio Pereira tinha 27 anos.

A partir do  1º Congresso Nacional de Arquitetura de 1948, com 26 anos, participa no movimento que contesta a arquitetura tradicionalista do regime salazarista, defendendo os princípios do movimento modernista. Foi também um grande impulsionador do Movimento da Renovação da Arte Religiosa, do qual é exemplo a Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Os artistas plásticos Cargaleiro, Madalena Cabral, Eduardo Nery, José Escada, Jorge Vieira, ou os arquitetos Nuno Portas, Formosinho Sanches, Diogo Lino Pimentel, Luís Cunha eram alguns dos outros integrantes desse movimento.

Em 1961, Nuno Teotónio Pereira recebeu o Prémio Nacional de Arquitetura da Fundação Calouste Gulbenkian. Em 1985, foi agraciado com o Prémio da Associação Internacional dos Críticos de Arte. Em 1995, recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, e, em 2004, a Grã-Cruz da Ordem do Infante. Em 2003 foi-lhe atribuído pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto o grau de doutor honoris causa, reconhecimento também feito, em 2005, pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa. Em Abril de 2010, a Câmara Municipal de Lisboa entregou-lhe a Medalha de Mérito Municipal. No mesmo ano, Ordem dos Arquitetos celebrou a sua vida e os 60 anos de carreira. Foi distinguido com o Prémio Universidade de Lisboa 2015 em abril desse ano, pelo exercício “brilhante” na área da arquitetura e como “figura ética”.

Por ocasião dos seus 90 anos, o esquerda.net publicou um artigo de Joana Lopes (originalmente publicado no blogue Entre as brumas da memória), que pode ser lido na íntegra aqui e que citamos parcialmente:

“Nasceu em 30 de Janeiro de 1922, numa família burguesa, monárquica, católica e afeta ao salazarismo, facto que viria a marcá-lo profundamente na primeira parte da vida.

Arquiteto de mérito reconhecidíssimo, mestre de gerações que com ele colaboraram num quase mítico atelier de Lisboa, publicamente louvado e premiado em sessenta anos de atividade profissional dedicada à “arquitetura e cidadania”; a partir do fim dos anos 50, também militante incansável na oposição à ditadura, preso mais do que uma vez pela PIDE, torturado e libertado de Caxias no dia seguinte à revolução de Abril – é esta a pessoa de Nuno Teotónio Pereira, que importa hoje referir, embora muito resumidamente, sobretudo para os mais novos e para os que não se cruzaram com ele na sua longa vida. 

O seu percurso foi muito especial e pouco comum. Com 14 anos, viveu entusiasticamente a criação da Mocidade Portuguesa, nela fez uma carreira fulgurante, envergou orgulhosamente a farda em desfiles na Avenida da Liberdade e não evitou a saudação fascista – faz questão de não o esconder. Nesse mesmo ano de 1936, seguiu apaixonadamente o avanço das tropas franquistas no início da Guerra Civil de Espanha e envolveu-se na organização de uma grande coluna de camiões que levou até Sevilha mantimentos para as mesmas.

A grande viragem sem retorno começou durante a II Guerra Mundial, por influência do pai, profundamente anglófilo, mas viria a concretizar-se, decisivamente, durante a campanha de Humberto Delgado, em 1958. Não só por todo o ambiente criado em torno desta, mas também por uma grande influência de sua mulher Natália e de Francisco Lino Neto, a quem Nuno Teotónio Pereira afirma ter ficado a dever a sua “conversão”. E é já com entusiasmo que segue a vitória de Fidel de Castro, em Cuba, em 1959… 

A partir de então, e até ao fim da ditadura, foram anos de uma militância intensíssima, sobretudo nos diversos campos de atividade dos que vieram a ser designados como “católicos progressistas”. Desde os primeiros anos da década de 60 e até ao 25 de Abril, a oposição dos católicos ao regime político e à guerra colonial, e a revolta crescente que manifestaram em relação às posições oficiais da Igreja portuguesa, deram origem a plataformas de luta que adotaram estruturas diversas, mais ou menos maleáveis conforme os casos, mas que envolveram, direta ou indiretamente, milhares de pessoas. Nessa teia de iniciativas e instituições, houve quem tivesse um papel especial na dinamização e agilização de contactos e na concretização de ações conjuntas. Vários nomes podiam ser citados, mas, se fosse necessário escolher apenas um, seria sem dúvida o de Nuno Teotónio Pereira. Com a sua simplicidade desconcertante, tenacidade férrea e pragmatismo à prova de fogo, deitava as sementes, estabelecia todas as pontes possíveis e acompanhava detalhadamente as realizações.

Qualquer lista de iniciativas peca por (grande) defeito, mas citem-se, a título de meros exemplos, a criação do primeiro jornal clandestino que difundiu notícias sobre a guerra colonial (Direito à Informação, 1963), a fundação da cooperativa Pragma (1964), o papel preponderante nas vigílias pela paz (igreja de S. Domingos, 1969, e capela do Rato, 1972), os cadernos GEDOC (1969), a participação na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (1970), o Boletim Anti-Colonial (1972). E muitas, muitas outras realizações que, sem ele, nunca teriam existido ou ficariam aquém da amplitude que tiveram. 

Em finais de 1973, foi preso pela última vez, durissimamente torturado pela PIDE e só o 25 de Abril o restituiu à liberdade. Foi depois um dos fundadores do MES, nele se manteve até à sua extinção e nunca deixou de ter, desde então, uma participação cívica muito ativa, nomeadamente a nível da cidade de Lisboa.”

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