Sudão

Massacre de el-Fasher investigado

04 de novembro 2025 - 19:26

As Forças de Suporte Rápido entraram na cidade depois de 18 meses de cerco e cometerem as maiores atrocidades. Contamos aqui a história da guerra mais violenta da atualidade, do carniceiro de el-Fasher que se gaba no TikTok de matar 2.000 civis e do seu chefe que traiu o processo revolucionário que se viveu até há pouco no país.

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Imagem de satélite de el-Fasher.
Imagem de satélite de el-Fasher. Foto de Satellite image ©2025 Vantor/Lusa.

O gabinete do procurador do Tribunal Penal Internacional anunciou esta segunda-feira que está a recolher provas acerca do massacre de civis na cidade de el-Fasher, capital do estado do Darfur do Norte. Em comunicado, expressou “profundo alarme e preocupação” sobre crimes de guerra e crimes contra a humanidade como as matanças em série e as violações que já foram noticiadas.

O organismo salienta que “estas atrocidades são parte de um padrão mais alargado de violência que tem infligido toda a região do Darfur desde abril de 2023”.

Também o secretário-geral da ONU, António Guterres, se pronunciou esta terça-feira sobre o que está a acontecer. Apela a um cessar-fogo imediato e ao fim de venda ou entrega de armas para as forças beligerantes. Diz que “centenas de milhares de civis estão encurralados por este cerco” e que há “pessoas a morrer de mal-nutrição, doença e violência”. E considera “credíveis” os relatórios de execuções generalizadas.

O que se passou em el-Fasher?

Depois de um cerco de 18 meses, as RSF (Forças de Suporte Rápido) atacaram e passaram a controlar aquele que era considerado o último bastião das forças armadas do Sudão na região do Darfur.

Seguiu-se o massacre de um número ainda não conhecido de civis. Só num hospital terão sido mortas cerca de 450 pessoas desarmadas. O nível das matanças é tal que se torna evidente através de manchas de sangue que são vistas por imagens de satélite.

Na cidade estavam aproximadamente 260.000 pessoas. As Nações Unidas informaram que mais de 65.000 pessoas fugiram mas outras dezenas de milhares não terão conseguido sair da zona do conflito.

O Comité Internacional da Cruz Vermelha confirma esta situação de “horror”. Numa entrevista à Reuters, a sua presidente, Mirjana Spoljaric lamenta que a história se esteja a repetir e “a tornar-se pior de cada vez que um local é tomado pelo outro lado” da guerra civil que o país vive. Também ela confirma que milhares já saíram da cidade e teme pelos que aí permanecem sem acesso a comida, água ou assistência médica.

Uma longa história de massacres, um complexo jogo de apoios internacionais

A ideia de que a história se repete é retirada da anterior ofensiva contra as forças rebeldes locais do Darfur ao longo dos anos 2000, que resultou na morte de centenas de milhares de pessoas, um processo considerado como um genocídio e que foi protagonizado pelas milícias “Janjaweed”, com apoio então do governo do Sudão. As RSF foram criadas a partir destas milícias e tinham sido um apoio do regime. Até que uma disputa pelo poder desencadeou a atual guerra civil em abril de 2023. Desde então, morreram dezenas de milhares de pessoas, 40.000 diz um dos cálculos da ONU, e foram obrigadas a deslocar-se cerca de 12 milhões de pessoas.

Este grupo conta com o apoio dos Emirados Árabes Unidos. O dinheiro proveniente daqui permite que cheguem ao grupo não só equipamento militar chinês do mais avançado tecnologicamente mas também armas provenientes da França, do Reino Unido, do Canadá e da Bulgária. Os seus aliados ocidentais permanecem em silêncio sobre isso. O grupo Wagner e o seu sucessor direto na região, o Africa Corps, é também um dos seus apoiantes, assim como o Chade, um ponto de passagem dos abastecimentos dos EAU.

Do outro lado, o exército do Sudão é apoiado por países como o Egito, juntando ainda apoios como o Irão, a Arábia Saudita, o Qatar ou a Turquia. Já a Rússia tem um envolvimento bem mais difícil de decifrar e parece jogar nos dois tabuleiros, comprando ouro às forças armadas sudanesas. Este lado também tem sido também acusado consecutivamente de múltiplas violações dos direitos humanos.

O “carniceiro de el-Fasher” foi gabar-se no TikTok

Por detrás das atrocidades das RSF está um dos seus comandantes. Abu Lulu, nome de guerra de Al-Fateh Abdullah Idris, era considerado um dos mais importantes membros da estrutura e com ligações familiares ao próprio líder do movimento, Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti. Durante algum tempo pertenceu à guarda de um dos seus irmãos, Abdelrheem Dagalo, também este suspeito de crimes de guerra. Depois lutou em Cartum contra as forças armadas do Sudão.

Por essa altura, já era conhecido por se mostrar em vídeos a executar pessoas ou a comandar execuções. Voltou a fazê-lo em el-Fasher, onde surge a matar civis presos um por um. Gabou-se num vídeo ao vivo no TikTok de querer matar 2.000 civis “mas tenho a certeza que o número excedeu os 2.000 mas fiquei confuso com os cálculos”. E ainda gozou: “perdi a conta mas vou voltar a fazê-lo a partir do zero”.

Desta feita o que disse não passou despercebido. A sua conta na plataforma foi banida e uma onda de indignação obrigou o líder das RSF a admitir que tinham acontecido “violações” por parte das suas forças, anunciando que tinham sido implementados comités de investigação. Na tentativa de salvar a face, no Telegram, o grupo paramilitar acabou por emitir um comunicado a dizer que Abu Lulu e vários outros dirigentes militares tinham sido presos.

Hemedti, o chefe de carniceiros e os seus negócios

Alex de Waal, diretor executivo da World Peace Foundation e investigador na Universidade de Tufts, traça na BBC o perfil de Hemedti, o homem de “origens humildes” que fez fortuna a “vender camelos e ouro” e agora é um “senhor da guerra” que domina grande parte de um país.

Por volta de 2003, a rebelião rebenta no Darfur e Hemedti integra uma unidade das milícias Janjaweed com que o presidente Omar al-Bashir contava para a conter. Mas contenção é uma palavra que parece completamente deslocada nesta história porque as milícias ficaram conhecidas por incendiar casas, pilhar, violar e matar. Internacionalmente foi reconhecido tratar-se de um genocídio.

Hemedti era apenas um dos vários comandantes destas milícias mas em 2004 já era referenciado pelas forças de manutenção da paz da União Africana pela sua unidade ter destruído a aldeia de Adwa, matando 126 pessoas, 36 das quais crianças.

Acabará por se tornar o chefe do grupo. No que é considerado uma “história de oportunismo”, chegou a amotinar-se, exigindo mais dinheiro para os seus soldados, promoções e um cargo político para o irmão. Bashir cedeu. Mais tarde, coube-lhe destruir outras unidades da Janjaweed que se tinham rebelado. No processo, assumiu o controlo da maior mina artesanal de ouro do Darfur, em Jebel Amir, e a sua empresa familiar tornou-se o maior exportador nacional deste metal precioso.

Continuou do lado de Bashir que, em 2013, concedeu estatuto formal às milícias Janjaweed, transformando-as no grupo paramilitar RSF que aquele ficou a chefiar. A formalização não fez desaparecer contudo velhas práticas de violência, extorsão e tráfico de seres humanos, apontam vários relatórios.

Para além disso, “externalizou” a milícia em 2015, vendendo serviços como mercenários à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos, participando na guerra contra os Houthis no Iémen. E estabeleceu uma parceria com o grupo paramilitar russo Wagner, trocando treino por contratos comerciais e ouro.

Foi-lhe a seguir encomendado o serviço sujo de reprimir os protestos populares que ameaçavam o regime de Bashir. Só que acabou por mudar de lado. A força do movimento fez com que, em abril de 2019, tenha desobedecido às ordens de atacar o acampamento dos manifestantes. Ele e vários generais até então afetos a Bashir decidiram depô-lo. O movimento popular ainda celebrou o que parecia ser uma vitória. Mas os militares negaram-se passar o poder para a sociedade civil. Os protestos continuaram. Desta feita, Hemedti voltou a escolheu a matança contra os civis desarmados. Morreram centenas de pessoas, houve violações, pessoas atiradas ao Nilo com tijolos atados aos tornozelos.

O chefe das forças armadas sudanesas, Abdel Fattah al-Burhan, juntou-se-lhe dois anos depois, em 2021, para tomarem o poder. O que se passou a seguir é o princípio do capítulo a que ainda estamos a assistir. Burhan queria integrar as RSF sob comando das forças armadas, Hemedti recusava. Em abril de 2023, a guerra civil rebentava depois das RSF terem tentado tomar a capital. Falhou mas nomeou-se presidente de um ironicamente chamado “governo de paz e unidade” que trava o conflito mais brutal da atualidade.