Sudão: líderes militares em confronto pelo controlo das riquezas

19 de abril 2023 - 14:42

Nesta entrevista, o porta-voz do Partido Comunista Sudanês, Fathi El Faddiz, diz que os confrontos dos últimos dias parecem "uma guerra por procuração entre o Egito e a Etiópia".

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Em dezembro, os generais Mohamed Hamdan Dagalo e Abdel Fattah Al Burhan (ao centro) assinavam um acordo político com grupos civis para ultrapassar o impasse político. Foto Mohnd Awad/EPA

A rotura está consumada entre os dois homens fortes do Sudão, o General Abdel Fattah Al Burhan - chefe das forças armadas e autor de um golpe de Estado em Outubro de 2021 - e o General Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti, que chefia as Forças de Apoio Rápido (FAR). Durante vários meses, as tensões tinham sido fortes, sem que nenhum deles quisesse perder as suas prerrogativas, mas concordando numa coisa: a marginalização dos representantes civis, apesar de estes terem estado na origem do movimento de protesto que, em 2018, tinha posto fim à tirania de Omar Al Bachir.

Na sexta-feira, as tensões subiram um patamar. Os combates começaram no dia seguinte e continuaram no domingo. Em Cartum, onde a força aérea entrou em ação, mas também em várias cidades do país. No norte, no aeroporto de Merowe, as FAR fizeram prisioneiros soldados egípcios.

O Comité Central dos Médicos Sudaneses informou [em 16 de Abril] que pelo menos 56 civis tinham sido mortos e 595 pessoas, incluindo combatentes, feridas desde que os confrontos começaram no domingo à noite.

Leia aqui a entrevista ao porta-voz do Partido Comunista Sudanês, Fathi El Faddiz, por Pierre Barbancey:

Qual é a situação em Cartum?

Desde sábado, os confrontos entre as Forças de Apoio Rápido e o exército regular têm sido muito violentos, seja na capital ou, mais a norte, em Merowe, onde se encontra a base militar egípcia que controla o aeroporto, ou em Port Sudan. Noutros pontos do país, a situação é igualmente tensa, tal como no Darfur. Mas são sobretudo os civis que estão a pagar o preço: 56 foram mortos.

Foram feitas várias tentativas de mediação entre as duas partes, mas os generais do exército recusaram porque acreditam que se trata de derrotar militarmente aqueles a quem chamam rebeldes. Em Cartum, as pontes são cortadas. Não se consegue chegar a Omdurman. Há muito poucas pessoas nas ruas. Em várias partes da capital e Omdurman, a água e a eletricidade foram cortadas devido aos combates. Como as pessoas não podem sair, não podem obter mantimentos nem reparar os danos.

Como é que se chegou a este confronto entre o exército e as FAR?

Enquanto Partido Comunista Sudanês, temos vindo a alertar para a deterioração da situação há já algum tempo. Dissemos que o acordo-quadro alcançado no final do ano passado (a 5 de dezembro de 2022, o exército chegou a um acordo-quadro com dezenas de líderes civis, no qual os generais prometeram renunciar a grande parte do seu poder político. As conversações geradas sob pressão do Quad e da Troika - Reino Unido, EUA, Noruega, Arábia Saudita e EAU - não tinham futuro.

Porque o que está a acontecer hoje no Sudão é a consequência do fracasso do golpe de Estado de outubro de 2021. O seu objetivo era criar uma nova parceria entre as duas principais forças armadas, por um lado, e os civis representados pelas Forças de Liberdade e Mudança (FLC), por outro. Isto não podia funcionar. Porque a principal disputa entre todas estas forças é sobre poder e autoridade. Nenhuma destas partes está realmente pronta para um compromisso. Apesar da pressão regional e internacional sobre todas estas forças, as contradições não foram ultrapassadas. Elas permaneceram como estão até chegarem ao ponto de rotura. É precisamente o que está a acontecer agora. Verificamos que os confrontos decorrem da capacidade de controlar o governo e de possuir autoridade.

Isto, claro, significa em última análise o controlo da riqueza do país. Por um lado, temos os generais do exército regular, que controlam as empresas industriais e comerciais. Por outro lado, tem as Forças de Apoio Rápido, que têm interesses nos recursos naturais, especialmente no ouro. Estas FAR trabalham de mãos dadas com os seus parceiros russos do grupo Wagner, enquanto o exército sudanês tem relações comerciais com generais egípcios.

Os combates em Merowe, por exemplo, tornam as coisas claras. Os egípcios vieram para lá e estacionaram uma parte da sua força aérea para conduzir manobras com a força aérea sudanesa. O objetivo é ameaçar a construção da barragem no Nilo que chamamos de grande barragem do Renascimento, construída pela Etiópia (que poderia ameaçar o abastecimento de água ao Egito e ao Sudão - nota do editor). As Forças de Apoio Rápido, com o seu chefe, Hemedti, chegaram e atacaram as tropas egípcias em Merowe. Quer isto tenha sido planeado ou não, coloca efetivamente Hemedti no campo etíope. Além disso, as FAR têm interesses e planos com a Etiópia.

Se olharmos para o que está a acontecer no país agora, em Cartum mas também noutros lugares, parece uma guerra por procuração entre o Egito e a Etiópia. De momento, está localizada.

Como pretendem agir para fazer ouvir uma voz civil?

Temos de continuar a organizar o povo para continuar a luta e alcançar os objetivos que foram os da revolução que derrubou o regime de Omar Al Bashir. Mas a nossa principal exigência neste momento é um cessar-fogo imediato, a retirada dos exércitos e milícias das cidades, aldeias e zonas residenciais. Vemos uma necessidade urgente de desmantelar todas as milícias, de recuperar as armas que circulam nas cidades e no campo e de reformar um exército nacional unido e profissional. O exército deve regressar aos seus quartéis. Esta é a única forma de derrotar o golpe e estabelecer um verdadeiro poder popular e democrático no país.


Entrevista de Pierre Barbancey publicada no diário L'Humanité, 17 de Abril de 2023 e republicada por A l'Encontre. Traduzida por Luís Branco para o Esquerda.net