Judeus pela Paz e Justiça denunciam conferência na Lusófona com difamador de Guterres

07 de fevereiro 2024 - 20:38

Em comunicado, os ativistas contestam o patrocínio da universidade a um "evento de propaganda israelita". Principal orador insinuou na televisão que António Guterres espera que o Qatar lhe financie uma ONG quando sair das Nações Unidas.

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Coletivo "Judeus pela Paz e Justiça" na manifestação em Lisboa de solidriedade com a Palestina.
Coletivo "Judeus pela Paz e Justiça" na manifestação em Lisboa de solidriedade com a Palestina. Foto Ana Mendes

O grupo Judeus pela Paz e Justiça tem marcado presença nas mobilizações de solidariedade com a Palestina e contra o massacre israelita sob o lema "Não em nosso nome". Esta semana, denunciam em comunicado o patrocínio da Universidade Lusófona à "Conferência sobre História e os Conflitos Regionais Recorrentes no Médio Oriente", um evento marcado para esta quinta-feira com o apoio da embaixada israelita. Para os ativistas, “isto não é uma conferência académica imparcial”, pois “uma verdadeira conferência académica incluiria obviamente outras perspetivas críticas, palestinianas e judaicas, sobre o conflito”.

O orador principal, com direito a 45 minutos de intervenção, é Gabriel Ben Tasgal, o argentino-israelita que lidera a organização HaTzad HaSheni [A Cara da Verdade], "uma organização cuja missão explícita é a disseminação deliberada de hasbara, i.e, propaganda explicita e unilateralmente pró-Israel, que tem como objetivo contrariar as crescentes críticas à ocupação e ao apartheid israelitas", denunciam os Judeus pela Paz e Justiça.

Aquele propagandista destacou-se em novembro passado por lançar uma teoria da conspiração contra o secretário-geral da ONU, após o discurso em que Guterres afirmou que “é importante também reconhecer que os ataques do Hamas não aconteceram num vazio”, acrescentando em seguida que "as queixas do povo palestiniano não podem justificar os terríveis ataques do Hamas e estes não podem justificar a punição coletiva do povo palestiniano”. 

Logo após o discurso de Guterres em defesa de um cessar-fogo humanitário, o embaixador israelita na ONU, Gilad Erdan, pediu a demissão do secretário-geral da ONU, dias depois de o ter acusado de ter como primeira prioridade "ajudar terroristas". O convidado da conferência na Lusófona foi mais longe e disse numa entrevista ao canal colombiano NTN24 que as intervenções de Guterres sobre Gaza teriam outras motivações. "Talvez esteja à procura da reeleição ou de um novo cargo, ou que o Qatar lhe financie uma ONG que queira desenvolver depois de sair da ONU", aventou Gabriel Ben Tasgal.

Extrema-direita religiosa no Governo são "partidos modernistas", diz o conferencista

O apoio incondicional de Ben Tasgal ao governo de Netanyahu também se fez notar em dezembro de 2022, quando o primeiro-ministro israelita, acossado pela justiça, conseguiu manter-se no poder graças a um acordo com a extrema-direita religiosa dos partidos liderados por Ben Gvir - atual ministro da Segurança e na altura já condenado por incitamento ao racismo e apoio a organizações terroristas - e por Bezalei Smotrich, um político declaradamente homofóbico e apoiante dos colonos. Em entrevista ao site mexicano Enlace Judio, o conferencista da Lusófona defendeu que é um erro classificar os dois partidos - Otzmá Yehudit (Poder Judeu) e o Hatzionut Hadatit (Partido do Sionismo Religioso) - como extrema-direita, sugerindo em alternativa chamá-los de "partidos modernistas" que procuram "manter as conquistas que alcançámos enquanto humanidade". "Aqueles que criticam estes partidos não conseguem justificar o facto de a democracia israelita ter melhorado durante os governos de Benjamin Netanyahu", dizia Ben Tasgal, invocando "sondagens publicadas na revista The Economist".

Na conferência de Lisboa, além do encerramento a cargo de um representante da embaixada de Israel, "os outros oradores do programa foram também claramente escolhidos de forma intencional para reiterar as apologias já gastas em defesa da política israelita", apontam os Judeus pela Paz e Justiça. Num dos painéis intervirão o antigo autarca de Lisboa João Soares, o atual líder da JSD Alexandre Poço, o antigo dirigente do PSD Vasco Rato e o general e comentador televisivo Isidro Morais Pereira, com a moderação a caber à professora e cabeça de lista da AD por Castelo Branco, Liliana Reis. 

No painel principal, moderado pela consultora e comentadora televisiva Helena Ferro de Gouveia, a introdução e mensagem de boas-vindas estará a cargo da presidente da Associação Lusa Portugueses por Israel (ALPI), Madalena Barata. Segue-se a intervenção de Chaya Singer Botelho, apresentada no programa apenas como "conferencista". Na verdade, a esposa do líder da Comunidade Israelita de Lisboa tem um percurso repleto de intervenção cívica e política em prol dos interesses do governo israelita, enquanto membro do corpo diplomático do Congresso Judaico Mundial na África do Sul. Esta federação mundial de comunidades e organizações judaicas condenou no mês passado a decisão do Tribunal de Justiça Internacional de aceitar a queixa sul-africana contra o genocídio de Israel em Gaza, considerando-a uma "acusação falsa" e aplaudindo "o firme empenho de Israel em respeitar as leis da guerra e proteger os civis de Gaza".

Para os Judeus pela Paz e Justiça, "este evento é nada mais nada menos do que um comício político de apoio a um Israel que tem estado envolvido num ato criminoso de vingança e punição colectiva contra o povo de Gaza". E por isso dizem-se "chocados com o facto de uma universidade portuguesa estar disposta a comprometer desta forma a sua reputação como instituição académica", ao ser anfitriã e patrocinar um evento "deliberadamente organizado para defender as ações em curso de um Estado que foi justificadamente levado ao Tribunal Internacional de Justiça sob a acusação de genocídio".