Flotilha da Liberdade

Isolamento e ameaças de morte: Eurodeputada relata condições da detenção em Israel

17 de junho 2025 - 15:43

Rima Hassan foi uma das ativistas a bordo do Madleen raptada em águas internacionais por soldados israelitas. De regresso a França, contou como tudo se passou.

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Rima Hassan no plenário de Estrasburgo
Rima Hassan esta segunda-feira no regresso ao plenário de Estrasburgo. Foto do grupo parlamentar da Esquerda

A eurodeputada franco-palestiniana Rima Hassan, eleita pela França Insubmissa, participou na ação da Flotilha da Liberdade que pretendia fazer chegar a Gaza o veleiro Madleen com ajuda humanitária a bordo, numa ação que chamou a atenção para o bloqueio a que continua sujeito aquele território por parte de Israel.

Considerando o histórico do ocupante, com ataques a expedições semelhantes que no passado chegaram a provocar mortes - e dias antes da partida do Madleen incluíram um ataque de drones que incendiou um dos barcos, o Conscience, ao largo de Malta - as hipóteses de chegar a terra em Gaza eram praticamente nulas. Mas o efeito pretendido de manter o bloqueio na agenda mediática estava conseguido também graças à presença a bordo de Greta Thunberg, conhecida mundialmente pelo seu ativismo contra a crise climática.

Regressada a França, Rima Hassan pôde contar de viva voz esta segunda-feira aos eurodeputados o seu relato dos acontecimentos a partir da noite de domingo para segunda-feira, 9 de junho, quando navegavam em águas internacionais e se viram cercados ao longe por cinco luzes. Quarenta minutos depois viram aproximar-se os drones israelitas. O sentimento a bordo era de medo, tendo em conta os antecedentes, pois não sabiam se se tratava de drones de ataque ou reconhecimento.

Os drones lançaram tinta branca sobre o barco, o que os ativistas a bordo consideram ter sido uma forma de os marcar e dificultar ainda mais a circulação, ao escorregarem no convés. Pouco depois entraram os soldados ao assalto do Madleen, com as armas apontadas aos ativistas. Estes lançaram à água os seus telemóveis como medida de segurança, para tentar proteger a identidade dos seus os contactos palestinianos.

Seguiram-se 20 horas a bordo do navio, com os soldados a manterem os ativistas no exterior durante toda a noite, quando fazia muito frio, enquanto aqueles se revezavam nas cabines para dormir. Durante o dia, os soldados colocaram-nos no interior no navio quando estava calor, recusando os pedidos para saírem um a um para apanharem ar. O tempo a bordo foi prolongado à chegada ao porto israelita, com a intenção de iludir a imprensa e os ativistas israelitas que se mobilizaram em apoio da Flotilha da Liberdade, acabando por desembarcar por volta da meia-noite.

Algemada de pés e mãos e levada para isolamento numa cela insalubre

Rima Hassan conta que lhes foi retirado tudo o que os militares israelitas consideravam ser propaganda palestiniana, incluindo roupa. À chegada permitiram o contacto com o cônsul francês e uma advogada e deram-lhes um papel para assinarem a dizer que tinham entrado ilegalmente em Israel e seriam deportados. Por compromissos pessoais, Greta Thunberg, o médico e outro ativista a bordo assinaram, com os restantes a recusarem. Em seguida, os detidos foram separados e tiveram tratamentos diferentes.

No caso de Rima Hassan, a eurodeputada relata ter sido ameaçada de morte, viu negado o acesso a água quando se recusou a concordar que a Palestina não existe e também o acesso à casa de banho. Rima Hassan e o ativista brasileiro Thiago Ávila foram colocados em isolamento, depois de este ter anunciado o início de uma greve de fome e aquela ter escrito “Free Palestine”, “End Genocide” e outras palavras de ordem na parede da sala. Rima foi algemada de pés e mãos e encaminhada para o isolamento, com o diretor da prisão a dizer-lhe que iria lá ficar sete dias, mesmo que os outros fossem libertados antes.

A cela do isolamento, recordou Rima, era insalubre e húmida, apenas com uma retrete muito suja. Ao contrário da ameaça feita na véspera, a pressão para o embarque de todos os franceses ao mesmo tempo surtiu efeito e por isso o isolamento durou apenas um dia. Outros três ativistas ficaram ainda na prisão por causa da interrupção dos voos em Israel, mas já se encontram na Jordânia.