Entrevista

Francisco Geraldes: "É possível mudar mesmo estando a remar contra a maré. Estou aqui para a luta"

24 de agosto 2024 - 17:01

Jogador de futebol e marxista convicto, Francisco Geraldes conhece de perto a lógica de mercado da indústria futebolística. Nesta entrevista exclusiva, para além de falar sobre desporto, debruça-se também sobre a Palestina, a luta social e o seu caminho à esquerda.

porDaniel Moura Borges

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Francisco Geraldes
Francisco Geraldes em fevereiro de 2023 a jogar pelo Estoril Praia. Fotografia de Tiago Petinga/LUSA

Já passou pelo Sporting, pelo Moreirense, Rio Ave e Estoril Praia, mas também esteve na Alemanha e na Grécia. Agora joga para o Johor D.T., na Malásia. Estar fora de Portugal não significa que não tenha nada a dizer sobre o que aqui se passa.

Marxista assumido, Francisco Geraldes vê no modo de produção capitalista a causa das desigualdades na sociedade, mas também na indústria do futebol. Próximo de movimentos como o Vida Justa, o jogador de futebol gerou controvérsia quando, durante um jogo do Johor, exibiu uma camisola com mensagem de apoio a Cláudia Simões.

Em entrevista exclusiva ao Esquerda, Chico Geraldes explica como é que a lógica de mercado perverte a indústria do futebol e lhe retira a sua componente mais popular, mas não deixa também de falar em temas como a imigração, a causa palestiniana e a sua relação com o marxismo.

Os Jogos Olímpicos chegaram ao fim e voltou-se a falar do facto de darem visibilidade a várias modalidades desportivas que normalmente não têm atenção pública. E há aí uma comparação com o futebol, que na Europa tem um investimento muito grande. Como vês a discrepância de investimento no desporto em Portugal?

Isto opera na lógica do nosso modo de produção. Queremos mercantilizar tudo, conseguimos criar um gosto nas pessoas ou um vício. Obviamente que o futebol é um escape. Conseguiu encontrar-se aqui uma fórmula que agrega milhões e milhões de pessoas. Talvez por isso o futebol tenha muito mais investimento e haja infinitamente menos espetadores interessados em canoagem, por exemplo. Se isso pode ser mudado, obviamente, mas não é de hoje para amanhã que se consegue retorno financeiro. Por exemplo, eu acho que o padel vai chegar inevitavelmente aos Jogos Olímpicos e é algo que neste momento dá um retorno gigante, mas é apenas por uma questão de investimento. É a forma como nós olhamos para o desporto e sempre com a lente de mercadoria. 

Em oposição a esta ideia de futebol mercantilizado foi-se tentando reivindicar à esquerda uma ideia de futebol popular. Uma ideia de futebol do povo, que tem um fundo histórico de coesão social e de criação de comunidade.

Sem dúvida. Na Inglaterra, a base do futebol e a criação do desporto em si sempre foi muito popular. Aliás, nos tempos da Thatcher as claques foram um problema social enorme, porque ela tentou ligar os adeptos e as claques à violência. O futebol tem muito esta componente popular, mas como há este interesse capitalista, virá-lo para o negócio foi a solução do capital. Como é um desporto que já tem uma base enorme de vínculo social foi só torná-lo lucrativo. 

Mas esse vínculo foi-se perdendo na sua mercantilização, não?

Sim. Eu acho que segue uma tendência geral de monopolização dos mercados. O futebol não é exceção nesse sentido. Acho que se vai perdendo aos poucos. Já não se vê, por exemplo, miúdos a jogar na rua. Agora os miúdos têm quatro ou cinco anos e já vão para uma escola em que tem de se pagar para jogar. Já se torna muito complicado, o acesso mesmo até de pessoas de meios sociais mais desfavorecidos ao desporto. Também não há o investimento em Portugal das câmaras, das equipas de bairro. Isso é deixado muito ao abandono e à iniciativa de pequenas comunidades, como é o caso do Relâmpago, em Lisboa. Mas vai-se perdendo o acesso. 

Achas que as condições de trabalho na indústria do futebol são boas? 

Depende sempre muito do nível em que se está. Acho que as condições dos clubes da Primeira Liga têm crescido de forma muito rápida. Eu lembro-me que quando estive no Moreirense, há oito anos as condições de treino, não eram assim tão boas. Tínhamos de ir procurar um campo de uma equipa mais pequena ali da zona às vezes para ir treinar e agora o Moreirense já tem dois ou três campos de treino. Já desenvolveu a estrutura mesmo ao nível de ginásio, por exemplo. 

Mas há também uma tendência, em Portugal e fora, para vir capital estrangeiro investir nos clubes de futebol, como aconteceu cá com o Portimonense, por exemplo. E há aí uma contradição: melhoram as condições, mas há também uma descaraterização dos clubes mais pequenos, não?

É um bocadinho mais do mesmo. Há um investimento grande de fora, as equipas querem melhorar as condições para que haja melhores jogadores a querer jogar nos clubes e tudo depois opera dentro dessa lógica de mercado. Os clubes deixam de ser aos poucos dos sócios, passam a ser unipessoais. Acontece com o Chelsea, Manchester City, Paris Saint-Germain. Os clubes são orientados para esta forma de mercado, seguem a tendência de monopolização do mercado, acho que historicamente é fácil de estudar e compreender. Por isso é que acontece o dono do City ter quatro ou cinco clubes, por exemplo. Vai acontecer cada vez mais, a Arábia Saudita está agora a entrar no plano de jogo e muitas das suas equipas são do Estado. 

Voltemos aos Jogos Olímpicos. Uma das questões que mais foi politizada foi o genocídio na Palestina, mas no futebol parece que a questão não está a levantar tantas ondas.

Não há nada. No futebol é difícil porque agora a FIFA decidiu que se houver alguma manifestação política dentro do campo, o jogador é sancionado. Se mostrar uma bandeira, por exemplo. Tende-se a afastar o futebol da política. Que é uma ideia que já vem de há muitos anos. Vou contra os interesses financeiros ou ideológicos [da FIFA] se mostrar uma bandeira da Palestina quando marcar um golo. Vou em contra-hegemonia. Vimos muitos jogadores que demonstraram o seu apoio à causa palestiniana e foram rescindidos os seus contratos nos clubes, por exemplo. 

Isso tem acontecido em todo o lado, não só no desporto. Essa demonização da causa palestiniana. E inclusivamente em Portugal.

Sim, sem dúvida. Nós vemos em termos mediáticos que em Portugal, quem está no jornal das oito ou das nove são pessoas que defendem com unhas e dentes Israel. E as pessoas, por outro lado, se escrevem e falam abertamente a favor da Palestina são afastadas também de órgãos de comunicação sociais portugueses.

Mas as atrocidades cometidas por Israel têm sido de tal forma extremas que até já lhes valeu críticas dos seus aliados mais íntimos. Poderá alguma coisa mudar na esfera pública?

Acho difícil. Não há diferença objetiva [na esfera pública] entre o que é feito na Palestina há 70 anos e o que foi feito ou tentado fazer no Iraque, no Afeganistão, no Vietname. Nada é sancionável. No fundo, sabemos porquê. Mas Israel não verá aqui uma oposição minimamente forte e aberta por parte dos países que até agora a apoiaram, com interesses estratégicos na zona do Médio Oriente muito fortes. Acho que não haverá aqui nenhuma oposição forte que não seja mais do que circense. 

Como imigrante e como marxista, como é que vês a explosão da retórica anti-imigração em Portugal e o peso que tem na sociedade portuguesa?

Acho que a cada crise que o capitalismo enfrenta, vai sempre arranjar um alvo que esteja presente na vida diária da população e o mais fácil é a imigração que sempre houve e sempre haverá sempre. Historicamente, acho que está muito relacionada com as incursões do Ocidente no Médio Oriente. Toda a destruição que o capitalismo e o imperialismo fizeram nesses países. Aproveitar-se disso é o modus operandi do capital. É encontrar um bode expiatório para mascarar os problemas reais das pessoas que são baixos salários, a liberalização de mercados como o da habitação ou a monopolização com a concertação de preços em supermercados, a privatização da água. Isto serve de máscara para fugir dos problemas reais. Pronto. 

Como é que te foste politizando no teu percurso até chegares ao marxismo?

Sempre me custou muito perceber o sofrimento alheio para o qual eu não encontrava explicação, ou seja, não conseguia ir para além do plano moral. Uma grande influência minha foi o Valete. Sempre fui uma pessoa de ler mais à esquerda. Comecei a notar um padrão de demonização de figuras de esquerda não tinha absolutamente sentido. De perseguição à Angela Davis, Lenine, Che Guevara, Rosa Luxemburgo. E comecei a explorar os temas. E o método de análise do marxismo, o movimento histórico, a dialética entre construção, a substituição do velho pelo novo, todo este processo e modo de análise me ajudou a compreender o porquê de a sociedade ser como é. Como é que ela se organiza e explora a natureza a seu proveito. Posso entrar no campo da moralidade ou posso optar por uma análise que seja muito mais profunda, sobre os modos de produção. 

Tens receio que isso tenha algum impacto na tua vida profissional. Enquanto jogador de futebol, enquanto figura com uma projeção pública maior?

Mesmo sabendo da possibilidade, não vou deixar de fazer aquilo que tenho feito. Sei que em termos de redes sociais vai ser sempre algo que irá chocar e irá criar ali uma espécie de campo de batalha, como foi com a Cláudia Simões. Mas não estou minimamente importado com a possibilidade de haver aqui algum tipo de perseguição individual, seja ela muita ou pouca, porque para mim é o mais importante é estar posicionado e fazer o pouco que posso fazer. 

O teu ato político mais conhecido foi já na Malásia, quando mostraste a camisola precisamente em apoio à Cláudia Simões. Como é que se continua a apoiar estas lutas à distância?

A distância não me impede de fazer aquilo que sempre fiz, aquilo que sempre achei ser correto. Os temas são muitos. Sempre me causou angústia e raiva ver tanta desigualdade, normalizar-se as pessoas dormirem na rua, passarem fome, não terem onde morar. Mas passar desses sentimentos e entender as desigualdades em termos históricos, em termos de modos de produção, ajuda-me a organizar ideias. A perceber qual é a origem dos problemas e a trabalhar, a fazer o trabalho de formiga para tentar mudar alguma coisa. E a história prova que é possível mudar mesmo estando a remar contra a maré. Estou aqui para a luta.

Daniel Moura Borges
Sobre o/a autor(a)

Daniel Moura Borges

Militante do Bloco de Esquerda.