Clubes castigam futebolistas (e até adeptos) pró-Palestina

19 de outubro 2023 - 12:32

Por causa de publicações nas redes sociais, clubes alemães e franceses ameaçam punir os jogadores. Na segunda liga espanhola, um adepto que levava a bandeira da Palestina foi retirado do estádio pela polícia.

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Noussair Mazraoui, Anwar El Ghazi e Youcef Atal.
Noussair Mazraoui, Anwar El Ghazi e Youcef Atal.

O ataque terrorista do Hamas e a resposta de Israel em forma de punição coletiva do povo palestiniano provocaram reações indignadas em todo o mundo, por parte de cidadãos comuns e de figuras públicas. Para os futebolistas dos principais escalões das ligas europeias, a semana coincidiu com o calendário de jogos das seleções nacionais, levando alguns deles a afastarem-se dos respetivos balneários para se juntarem aos seus compatriotas.  

Foi o caso de Noussair Mazraoui, jogador do Bayern de Munique ao serviço da seleção de Marrocos, que no domingo publicou na sua conta de Instagram um vídeo onde se via uma bandeira da Palestina a ondular e ouvia-se uma voz em tom de oração a dizer "Deus ajude os nossos irmãos perseguidos na Palestina, para que eles possam conseguir a vitória. Que Deus tenha piedade dos mortos, que Deus ajude os feridos". Mazraoui publicou o vídeo, acompanhando-o de um emoji com as mãos juntas em oração e a palavra "Amen".

Isso foi o suficiente para ser contactado pouco depois pelo Bayern de Munique a mostrar o desagrado pela publicação. O clube bávaro fez saber que agendou uma reunião com o jogador para o dia do seu regresso à Alemanha após os jogos da seleção. Nesse regresso irá reencontrar o seu companheiro de equipa Daniel Peretz, guarda-redes suplente e internacional sub-21 israelita, que também fez publicações nas redes sociais nos últimos dias que misturam imagens dos recentes ataques do Hamas com o ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque, afirmando também que "face ao mal absoluto, Israel é um farol de poder, resiliência e esperança".

Em comunicado, o Bayern de Munique afirma que "todos os funcionários, todos os jogadores, todos sabem quais são os valores que o Bayern representa. Já os declarámos publicamente e de forma inequívoca, num poste imediatamente após o ataque terrorista a Israel. Nós preocupamo-nos com os nossos amigos em Israel e apoiamo-los. Ao mesmo tempo, esperamos uma coexistência pacífica para todas as pessoas no Médio Oriente". O futebolista respondeu através do seu advogado, dizendo que "luto pela paz e pela justiça neste mundo. Isso significa que serei sempre contra todos os tipos de terrorismo, ódio e violência. E mais: não entendo porque é que pensam o contrário. Pessoas inocentes são mortas todos os dias por causa deste terrível conflito que saiu do controlo. Isto é simplesmente desumano. Por fim, deixar claro que nunca foi minha intenção, consciente ou inconscientemente, ofender ou magoar alguém".

Um deputado da CDU alemã, Johannes Steiniger, reagiu à posição de Mazraoui nas redes sociais, apelando ao Bayern de Munique para despedir o jogador. "Além disso, todas as opções do Estado deveriam ser utilizadas para expulsá-lo da Alemanha", defendeu o parlamentar dos conservadores alemães.

Ainda na Alemanha, o extremo neerlandês Anwar El Ghazi, de origem marroquina, foi suspenso pelo Mainz, onde chegou no início da época. Em comunicado, o clube diz que "respeita a existência de diferentes perspetivas no complexo conflito no Médio Oriente que dura há décadas. Contudo, o clube distancia-se claramente do conteúdo da publicação em questão, visto que não está em linha com os valores do clube”.

Na publicação em causa, que depois apagou, El Ghazi tinha escrito: “Isto não é guerra. Quanto um dos lados corta a água, a comida e a eletricidade ao outro, então isso não é uma guerra. Quando um dos lados tem armas nucleares, então isso não é guerra. Quando um dos lados está a ser financiado com biliões de dólares, então não é uma guerra. Quando um dos lados usa fotografias de inteligência artificial para espalhar informação falsa sobre o outro lado, então não é guerra. Quando as redes sociais estão a censurar o conteúdo apenas de um dos lados, então não é guerra. Isto é um conflito e não é guerra. Isto é genocídio e destruição em massa. Estamos a testemunhar tudo em direto. Do rio ao mar, a Palestina vai ser livre”.

A imprensa aponta a última frase, usada como slogan pela resistência palestiniana desde os anos 1960, como a razão para o afastamento do jogador. Ela refere-se ao mapa da Palestina antes da criação de Israel em 1948, quando judeus, cristãos e muçulmanos viviam no mesmo território sob o colonialismo inglês, do rio Jordão ao Mar Mediterrâneo.  Embora os defensores do slogan repitam que ele se refere ao enquadramento geográfico-político e não ao étnico-religioso do território após a expulsão dos palestinianos das suas terras e a instauração do regime de apartheid israelita, este prefere ler o slogan como um sinal da vontade dos palestinianos em eliminar os judeus da região.

Toulouse suspende jogador, ministro acusa Karim Benzema

Também em França, que tal como a Alemanha decidiu proibir as manifestações de solidariedade com a Palestina logo após os ataques do Hamas, há jogadores a declarar a sua posição neste conflito e a serem punidos pelos clubes onde jogam. O argelino Youcef Atal, ao serviço do Nice, foi suspenso pelo clube depois de ter publicado um vídeo de um pregador palestiniano que supostamente apelava à violência contra o povo judeu. O jogador apagou a publicação e respondeu às críticas no Instagram dizendo que "nunca apoiaria uma mensagem de ódio". Mas apesar de se ter disponibilizado para fazer um pedido de desculpas público, o clube avançou para o castigo e o jogador está na alçada da justiça desportiva e também da penal, após ter sido alvo de queixas de políticos da cidade pelo crime de "glorificação do terrorismo".

Quem está a salvo de sanções do clube é o internacional francês Karim Benzema, agora a jogar pelos sauditas do Al-Ittihad, orientados pelo português Nuno Espírito Santo. "Todos as nossas preces vão para os habitantes de Gaza, que voltaram a ser vítimas destes bombardeamentos injustos, que não pouparam mulheres ou crianças", escreveu o avançado nas redes sociais. Esta semana Benzema foi acusado de estar ligado a uma organização islamista, a Irmandade Muçulmana. E o autor da acusação foi o ministro do Interior francês, Gérald Darmanin, o mesmo que proibiu as manifestações pró-Palestina nas últimas semanas. "O Sr. Karim Benzema tem ligações notórias, como todos sabemos, com a Irmandade Muçulmana", disse o politico francês, numa entrevista à CBNews, em resposta a uma questão sobre a luta antiterrorista do atual executivo francês. A Irmandade Muçulmana é considerada uma organização terrorista não por França, mas pela Arábia Saudita, a par da Rússia, Síria, Egito, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Áustria.

Adepto com bandeira da Palestina forçado a sair do estádio pela polícia basca

Não são só os jogadores a serem punidos pelo apoio à Palestina. Este fim de semana no País Basco, num jogo a contar para a segunda liga espanhola, um adepto do Eibar foi retirado do estádio pela Ertzaintza, a polícia basca, por ter consigo uma bandeira da Palestina. O adepto arrisca-se agora a uma multa, alegadamente por violar a lei de violência no desporto. O caso provocou revolta no próprio estádio, com os espectadores a assobiarem a intervenção policial, e também da Amnistia Internacional, que considera que a proibição de exibir uma bandeira da Palestina "não cumpre os requisitos que a normativa internacional exige para poder restringir o direito à liberdade de expressão". Nenhuma das entidades questionadas pelo El Diario respondeu à pergunta sobre qual o motivo concreto da retirada da bandeira e ao abrigo de que lei ou norma.  Fontes do clube anfitrião afirmaram que caso fosse uma bandeira de Israel seria à mesma retirada. A Ertzaintza diz que agiu a pedido da segurança privada do clube, depois do adepto se ter recusado a sair e a identificar-se.